Mongólia – Bernardo Carvalho – Parte 1

mapa Mongólia

INTRODUÇÃO 

       Este romance é o resultado de um projeto que incluiu uma viagem do autor à Mongólia, financiada por uma bolsa de criação literária da Fundação Oriente, de Lisboa, e pela Editora Cotovia, em 2002. Lá, Bernardo Carvalho permaneceu por dois meses e percorreu cinco mil quilômetros pelo interior.  Vivência e convivência com a paisagem e com o povo do lugar deram-lhe as condições para elaborar sua obra romanesca.

       A história é montada através do diálogo entre os dois diários deixados pelo desaparecido e aquele elaborado pelo Ocidental em forma de carta à sua mulher, além da fala do narrador que arquiteta a narração.

         O objetivo deste estudo é a compreensão dos meandros da narração engendrada por Bernardo Carvalho, ou seja, o jogo narrativo, bem como acompanhar o itinerário seguido pelo Ocidental que, por sua vez, refaz os caminhos percorridos pelo desaparecido quando teve por guia Gambold e, depois, Purevbaatar (conforme mapa abaixo, elaborado pelo autor). Nessa procura incessante, o Ocidental vai conhecendo os costumes, a culinária, as crenças, os mitos, enfim, as tradições mongóis e tudo é revelado ao leitor com detalhes e considerações sobre o que ele vê e ouve.

     Esta análise será dividida em duas partes e tem como público alvo professores e alunos do Ensino Fundamental e Médio. Nesta primeira, trataremos de conhecimentos gerais sobre a Mongólia. Para isso, faremos um estudo sobre a geografia, incluindo um apanhado sobre os diversos fatores que compõem uma nação como a economia, a política, a educação, a temperatura, a população, a religião, entre outros aspectos. A História da Mongólia merecerá um rápido estudo quando estaremos falando do Império Mongol, sua evolução e decadência. Dessa forma, o leitor, conhecendo a realidade, poderá estabelecer um paralelo com a ficção. Nesta primeira parte, ainda estaremos falando do homem e da mulher mongóis.

           Na segunda parte, objetivamos o entendimento de como a narrativa foi montada. Assim, estaremos acompanhando o entrecruzamento do diário do Ocidental com os dois diários do desaparecido e com a voz do narrador que vai organizando a história e decifrando os mistérios.

          Mongólia é uma obra bem arquitetada. É um romance que chama a atenção pelo exótico da paisagem e dos costumes, pelas surpresas que nos são reservadas. Vale a pena que você  leia o livro, pois não pretendemos com esta análise substituir a leitura do texto de Bernardo Carvalho. Viaje você também pelas paisagens da Mongólia!

SUMÁRIO
1- Mongólia – Aspectos reais
1.1- Um pouco de conhecimentos gerais
1.2- Um pouco de História
2- Estabelecendo relações: ficção / realidade
3- A História na história
4- Homens e mulheres mongóis

1- MONGÓLIA- ASPECTOS GERAIS

           Um autor ao engendrar sua obra romanesca vale-se dos dados da realidade, do conhecimento adquirido e do seu esforço na arte da escrita. Bernardo Carvalho, aproveitando-se da experiência adquirida através da sua permanência por dois meses na Mongólia, cria uma obra de ficção em que a paisagem geográfica e os dados da História daquele país serão não só pano de fundo, mas fatores determinantes dos fatos diegéticos criados. Assim, é que vimos a necessidade de, através de uma pesquisa, fazer um estudo desses fatores sobre os quais passaremos a discorrer a fim de que possamos estabelecer as relações entre o real e o fictício.

1.1  UM POUCO DE CONHECIMENTOS GERAIS

          Mongólia mapa 3          Ocupando uma área de 1.556.500 Km², o território da Mongólia, formado em sua maior parte por um planalto e por cadeias de montanhas, no centro-leste da Ásia, está encravado entre a China e a Federação Russa.

Ulan BatorA capital é Ulan Bator. No Sudeste, fica o semiárido Deserto de Gobi e, no Oeste, as montanhas Altai que atingem uma altitude de mais de quatro mil metros. A temperatura, geralmente baixa, é garantida pela altitude média em torno de 1,5 mil metros. Às vezes, essa temperatura cai a -30°C, mas pode subir a 41°C. Os períodos súbitos de frio, chamados Zud, no início da primavera, matam o gado e causam problemas sérios de sobrevivência aos pastores.

yurtas        Na Mongólia, ou faz muito frio ou muito calor. A neve e a chuva caem, geralmente, em pouca quantidade. As chuvas mais pesadas ocorrem em julho e agosto. Devido ao forte frio ou ao forte calor, as habitações nas Planícies Mongóis têm sido, há muito, os gers ou yurts, barracas desmontáveis feitas de camadas de feltro e cobertas por tela ou couro.

          A população de, aproximadamente, três milhões de pessoas, em 2016, constitui-se de mongóis(90%), cazaques(4%), chineses(2%), russos(2%) e outras etnias(2%). Os mongóis khalkha compõem o grupo étnico dominante e os cazaques, apesar de seus 4%, formam o maior segundo grupo não mongol. Os cazaques vivem no Noroeste da Mongólia e falam o turco. Muitos deles emigraram para o Cazaquistão após o fim da dominação russa (URSS). Boa parte da população vive em fazendas de criação de gado. Apesar de um evidente antagonismo em relação às minorias chinesa e russa, as tensões étnicas entre nativos são poucas.

           O idioma oficial é o mongol, mas fala-se também o cazaque. Na religião, as crenças tradicionais atingem 31,6% da população enquanto 22,5% optam pelo Budismo; os sem religião são  30,2%; o Ateísmo atinge 8,8%; o islamismo 4,8%; o cristianismo 1,5% e outras crenças e religiões atingem 0,6%. Em 2017, a Igreja Católica celebrou seus vinte e cinco anos de presença na Mongólia.

      Na economia, a moeda é o Tughrik. Embora quase inexploradas, há reservas de petróleo, carvão e outros minerais, mas o que sustenta a população é a tradicional economia agrícola. Pastores nômades vivem nas estepes criando cabras, ovelhas, vacas, iaques, cavalos e camelos. A criação de gado pode ser considerada a espinha dorsal da economia. O Estado criou as fazendas de criação de gado que funcionam como propriedades cooperativas, de diversos donos, mas o governo dirige algumas dessas fazendas agrícolas. O Estado vem radicando os mongóis nômades nessas fazendas, mas ainda há aqueles que vivem de um lado para o outro montando e desmontando seus gers ou yurts (iurtas). A pobreza da maioria contrasta com a riqueza de poucos. Os mais pobres mal conseguem comprar o pão de cada dia enquanto os ricos possuem carros e têm acesso ao dólar, aos vídeos, regalias reservadas a uma minoria privilegiada.

          Durante o regime comunista, os recursos minerais quase não foram explorados e a prospecção de fato é recente. No entanto, as reservas conhecidas indicam que o país poderia ser autossuficiente no consumo doméstico se a exploração fosse efetiva.

          A distância dos grandes centros contribui para uma infraestrutura limitada e para que haja poucas indústrias. Estas se concentram mais na região da capital, Ulan Bator (Ulanbaatar)(Herói Vermelho), de modo que a poluição industrial aí é preocupante, pois os ventos dominantes trazem resíduos das usinas o que provoca um alto índice de doenças respiratórias.

          Após abandonar o comunismo, no início da década de 1990, a Mongólia passou por terríveis dificuldades econômicas. Um grande déficit na balança de pagamentos tornou vital a ajuda externa. Os maiores doadores foram os EUA e o Japão.

       Constituindo-se na 75ª maior economia mundial, a Mongólia exportou, em 2016, US$4,91 bilhões e importou US$3,33 bilhões, obtendo, portanto um saldo comercial positivo de US$1,58 bilhões. O PIB foi de US$11,2 bilhões e seu PIB per capta foi de US$12,2 milhares.

          Em relação aos assuntos externos, a Mongólia vem, desde 1990, tentando equilibrar a influência da China com a do Japão e de outros países asiáticos. As relações diplomáticas entre a China e a Mongólia estiveram estremecidas desde 2016 por motivos religiosos. Porém, em dezembro de 2017, tais relações foram normalizadas com a visita a Pequim do ministro Relações Exteriores mongol, Damim Tsogtbaatar, que reiterou o reconhecimento da política de ‘uma só China’ por parte de Ulaanbaatar. Por seu lado, o ministro chinês, Wang, afirmou que,  na atualidade, os dois países “são amigos” e solicitou a ambos que mantenham a confiança mútua, tratem de maneira adequada os temas sensíveis e expressou seu “forte desejo de estreitar a cooperação” entre as duas nações.

       Na política, destacam-se o Partido Revolucionário Popular da Mongólia (PRPM); Partido Democrata(PD); Partido do Povo Mongol(MPP); Novo Partido Democrático Socialista Mongol(NPDSM); Partido Republicano Mongol(PRM) e outros. A mudança do regime comunista para a democracia ocorreu em 1990 e, a partir daí, a atividade política passou a incluir eleições, constituindo-se numa república semipresidencialista com um sistema multipartidário e uma nova constituição promulgada em 1992. No entanto, as reformas democráticas não trouxeram bons resultados para a economia tanto que naquele mesmo ano houve uma queda de 16%. Os mongóis passaram a sentir falta das garantias oferecidas pelo comunismo, principalmente no que se referia à moradia e ao trabalho.

        Na Educação, a Mongólia colocou em prática uma grande reforma nas políticas educacionais de maneira a atingir as classes menos favorecidas. O ensino é controlado e mantido pelo Estado que tem o apoio da filantropia e da ajuda externa. O sistema educacional tem nas mulheres a maioria de seus professores. Os salários pagos a eles que eram geralmente muito baixos são, hoje, melhores do que aqueles pagos aos médicos. Surgem atualmente escolas privadas que dão destaque e valorizam a cultura mongol. A Universidade  Estatal da Mongólia foi fundada em Ulan Bator em 1942. No país, existem faculdades para a formação de professores e escolas técnicas onde se ensina  agricultura,  economia e medicina. Atualmente, os resultados educativos no país são altamente positivos sendo que 98% do público estudantil feminino e 93% do público estudantil masculino concluem o ensino secundário. Considerando que a maior parte da população é nômade, a educação na Mongólia é um grande desafio, no entanto, observa-se que três em cada cinco estudantes concluintes do ensino secundário vão para a Universidade.

      O sistema de saúde é falho; há escassez de medicamentos bem como de  equipamentos o que faz renascer o interesse pela tradicional medicina. Alguns mosteiros budistas oferecem atendimento aos necessitados.

         No que se refere à Comunicação, todas as restrições à Imprensa foram suprimidas após o controle comunista. Não há leis que restrinjam a liberdade de imprensa. O que dificulta o processo é a falta de papel e de tinta e o racionamento de combustível. A falta de papel e de tinta limita as publicações e o racionamento de combustível encarece em muito a distribuição para lugares mais distantes. Há uma emissora estatal de rádio e outra de TV. Os jornais Mongolia (Mongólia) Online, Mongol News e Mongolian National News são livres para o acesso online

         A rede de transporte é composta na sua maioria por estradas de terra. A principal ferrovia liga Ulan Bator à ferrovia soviética Transiberiana, no norte, e às ferrovias chinesas no sul. Como não há região portuária na Mongólia, o foco da política de transporte do Estado está se deslocando para que se possa ter acesso a instalações portuárias no Pacífico. Por isso, há o deslocamento da linha de Moscou em direção a China. A tração animal também é usada em decorrência da escassez de combustível. O transporte público é vagaroso e não alcança a todos que dele necessitam. Percorrer as longas distâncias da Mongólia pode demandar um tempo considerável. O transporte aéreo oferece voos para a China, Japão, Rússia e Coreia do Sul. O aeroporto internacional Chinggis Hhaan fica na capital Ulan Bator.

       montes altai Na região dos Montes Altai, cenário da procura do desaparecido na ficção de Bernardo Carvalho, as estradas são mais apropriadas às patas dos cavalos e dos camelos do que para as rodas dos carros.

        O turismo durante o regime comunista era controlado por uma agência estatal. Havia grande burocracia no processo de entrada no país. Com as mudanças ocorridas a partir de 1990 e com a desburocratização do processo, o turismo aumentou.  Do total de turistas que chegam à Mongólia, 84% vêm da Comunidade dos Estados Independentes; 4% da China; 3% da Polônia e 9% de outros países. A Mongólia é surpreendente, não só pela beleza de suas paisagens ainda intocadas como por seu povo e suas tradições, pela culinária extravagante, seus festivais, seus rebanhos, pelo folclore, enfim, por sua cultura milenar. Mas, fazer turismo por conta própria no país não é tarefa fácil, seja pelas grandes distâncias, pela dificuldade imposta pelo idioma, pelas péssimas condições das estradas ou pela escassez de população entre um ponto e outro.

        Diante dos dados levantados, o leitor do romance Mongólia, de Bernardo Carvalho, poderá confrontar a realidade com a ficção, estabelecendo comparações entre o que leu nos diários (do Ocidental e do desaparecido) e na narração que montam a história romanesca com os dados pesquisados e aqui apresentados. Assim, poderá perceber o que o autor  realmente aproveitou do que viu e observou durante seus dois meses de permanência na Mongólia para escrever sua obra e aquilo que ele criou para engendrar sua narrativa, o mesmo  poderá ocorrer com os fatos históricos que passaremos a comprovar.

1.2  UM POUCO DE HISTÓRIA

          O Império Mongol foi o maior império terrestre da História. Os antigos mongóis são conhecidos como os mais selvagens conquistadores. Seu vasto império contribuiu para aumentar o contato entre os povos devido às constantes migrações. Estas desenvolveram o comércio e promoveram o surgimento de estradas que ligavam a Rússia e a Pérsia à Ásia Oriental.

   Originariamente, os mongóis eram constituídos por tribos nômades, pouco organizadas, habitantes da Mongólia, Manchúria e Sibéria. Essas tribos nômades viviam em tendas de feltro chamadas gers ou yurts e criavam carneiros, cabras, camelos, bois, pôneis. Alimentavam-se, em especial, de carne e leite. Cada mongol era um soldado, sabia montar e usar o arco e a flecha.

         No final do século XII, início do século XIII, Temujim, um chefe mongol que ficou conhecido como Gêngis Khan, tendo  subido ao poder, começou a organizar as tribos mongóis dispersas formando um exército superior. Astuto, cruel e ambicioso, esse chefe tornou-se senhor de todos os povos que habitavam em tendas de feltro. Tornou-se um grande conquistador e formou o exército mais disciplinado de seu tempo. Em 1215, conquistou o norte da China e as conquistas se sucederam às custas de terror e destruição.

       Após a morte de Gêngis Khan, em 1227, seu filho, Ogotai, dando continuidade aos feitos do pai, promoveu novas conquistas. Após a morte de Ogotai, em 1241, Hubilai Khan, neto de Gêngis Khan, completou a conquista da China e fundou a dinastia Yuan (1279-1368). Estabeleceu a capital mongol num lugar onde hoje está Pequim.

         O Império Mongol não durou muito tempo devido à sua extensão e à falta de uma unidade cultural. Os mongóis, apesar de serem guerreiros, eram inexperientes em administração e, assim, permitiram que outros povos cuidassem dos interesses do Império.

        A Mongólia é herdeira do Império Mongol e, com o fim deste Império, a partir do Século XIV, os mongóis voltaram a dividir-se em tribos hostis. Por esta época, a China era dominada pelos Manchus e estes, aproveitando-se da disputa tribal, conquistaram o território e dividiram-no em duas unidades políticas: a Mongólia Interior, formada pelo leste e pelo sul (1691), e a Mongólia Exterior, formada pelo restante (1759). Em 1911, a Mongólia Exterior conquistou a sua independência que foi efetivada em 1921 com a ajuda de tropas russas. A Mongólia Exterior, atual Mongólia, sob a liderança de Sukhe Baatar e Khorloin Choibalsan, tornou-se a segunda nação comunista do mundo, em 1924, como se lê no romance de Bernardo Carvalho.

Alguns mongóis ainda acreditam que Choibalsan tenha sido assassinado pelos russos e falam do ditador com orgulho. Seus restos mortais são mantidos no mesmo mausoléu do herói nacional, Sükhbaatar, na praça central de Ulaanbaatar. De qualquer jeito, foi com a chegada de Choibalsan ao poder que teve início o massacre contra o budismo (CARVALHO,p.94).

        Os comunistas, reproduzindo o modelo stalinista da União Soviética (os grandes expurgos), assassinaram milhares de pessoas e instituíram o culto à personalidade do ditador Choibalsan.

templo budistaFoi proibida a construção de mosteiros. A repressão recrudesceu em 1935. Houve novas prisões, novas execuções e novas deportações para a Sibéria. Em 1937, os comunistas fizeram um banho de sangue. No total, segundo Ganbold, cerca de trinta mil lamas foram presos pelo polícia secreta, executados sumariamente… Setecentos e cinquenta mosteiros foram pilhados, queimados e demolidos (CARVALHO, p.95).

        Mas, no final de 1980, o regime sofreu o impacto da abertura política na URSS, implantando o pluripartidarismo e, em 1992, o Partido Popular Revolucionário Mongol (MAKN), comunista, conquistou as eleições legislativas defendendo a economia de mercado. A oposição, formada pela Aliança Democrática, venceu as mesmas eleições em 1996 e, no ano seguinte, o líder Natsagiyn  Bagabandi venceu a eleição presidencial.

       Devido à grande seca que foi seguida do congelamento das pastagens em 2000, aproximadamente oitocentos mil pastores tiveram sua  subsistência ameaçada e, por isso, a Mongólia ficou na dependência da ajuda internacional no que se referia à alimentação, à roupa e aos remédios. Nesse mesmo ano, o Partido Popular Revolucionário Mongol (MAKN) voltou a vencer as eleições parlamentares, conquistando 72 das 76 cadeiras da Assembleia e indicou Namabarya Enkhbayar para a chefia de governo.

         genghis-khan-62Em 2001, as eleições consagraram novamente Bagabandi como presidente. A nação recebe ajuda do FMI a fim de reduzir a pobreza na Mongólia e de estimular o crescimento econômico, O governo reiniciou o plano de privatizações e comemorou o 840º aniversário de Gêngis Khan com a inauguração de um monumento em sua homenagem erguido num parque da capital Ulan Bator.

       Khaltmaagiin Battuga, pintor e antigo campeão de judô, do Partido Democrata, foi eleito presidente da Mongólia,  em julho/2017, com 50,8% dos votos nas eleições presidenciais.

2-ESTABELECENDO RELAÇÕES: FICÇÃO X REALIDADE

        O leitor, ao abrir o livro de Bernardo Carvalho, depara-se  (depois da epígrafe de Franz Kafka) com um  mapa da Mongólia contendo as marcas de dois percursos percorridos. A primeira dúvida que surge é saber o que é real e o que é fictício.

        Considerando o fato de sabermos, de antemão, que o autor é um renomado jornalista e que esteve por aquelas paragens mongóis, viajando, observando, anotando informações e experiências, fotografando a paisagem, pensamos que a sua obra poderia ter a tonalidade de um diário de viagem. E é o que é no que se refere à viagem e aos diários das personagens. Assim sendo, iniciamos a leitura tendo em mente que seria necessário relacionar realidade e ficção. Para isso, nos faremos valer das informações pesquisadas anteriormente e já apresentadas.

         mapa mongólia

          Na legenda ao lado do mapa, a linha pontilhada indica o caminho percorrido pelo desaparecido tendo Gambold como guia, e a linha contínua indica o percurso percorrido pelo Ocidental com o guia Purevbaatar “sobre os traços do desaparecido”. Mas quem serão essas pessoas? Que percursos serão esses? Que história é essa? Como o leitor, a priori, desconhece tudo, fica intrigado e instigado a proceder à leitura. Assim, somente depois de concluída essa leitura, de ter descoberto os caminhos e de ter convivido com essas personagens  é que as relações poderão ser por ele estabelecidas.

         deserto de GobiDessa forma, comparando-se esse mapa com o mapa oficial da Mongólia, apresentado no início desses estudo, comprova-se a identidade. Realmente, lá estão os Montes Altai a Oeste; o Deserto de Gobi a Sudeste, a capital Ulan montes altaiBator (Ulaanbaatar) encravados entre a Rússia e a China. Localidades como Ölgiy, Khovd, Darkhan, Dalanzdgad, Tolbo; os lagos de Tolbo, Döröo Nuur, Khövsgol; a geleira de Tsambaragav entre outros vilarejos, rios, lagos, cidades, montanhas que podem ser conferidos na realidade.

Mas, graças à frase de Baitolda, o Ocidental insistia em seguir para o sul, para Döröo Nuur, numa última tentativa de encontrar o desaparecido  (p.162).
Ölgiy lembra mais um vilarejo mulçumano da Bósnia ou do Uzbequistão – que eu não conheço mas imagino – do que propriamente uma cidade mongol. Noventa por cento da população não falam a língua do país. É uma cidade cazaque (p.178).

        O último fragmento transcrito assegura a existência de mais de uma língua falada na Mongólia, além de se referir ao segundo maior grupo (4% da população) não mongol, os cazaques.

Purevbaatar diz que precisamos ir. Está furioso. Me diz que não aguenta os cazaques,  que são todos uns safados (p.159).
Havia uma diferença, irremediável, entre mongóis e cazaques (p.162).
Você nunca deve confiar nos cazaques. São todos uns mentirosos, Purevbaatar falou, enquanto preparava o jantar. Não tenho nada contra eles, contando que não se metam comigo (p167).

          Apesar de não haver um estado de tensão entre os grupos étnicos, percebe-se que há uma certa rivalidade (ou animosidade) entre mongóis e cazaques. Por outro lado, conforme o que se lê no diário do desaparecido há uma espécie de violência no ar, mas que é um tabu. Não se fala dela e, pelo  que pesquisamos, as autoridades mongóis não publicam os índices de criminalidade, embora essa tenha aumentado muito desde 1990, especialmente o crime organizado e os assaltos por grupos armados. Na região de Ulan Bator, os turistas, principalmente os que portam dólares, sofrem esses assaltos e os riscos são grandes.

É a primeira pessoa que me fala abertamente da violência, que está no ar mas  é um tabu. Fico com a impressão de que, na paz dessas paisagens despovoadas, a qualquer momento pode explodir a violência mais sangrenta, do atrito entre indivíduos alterados (p.106/107).

          O nomadismo favorece o surgimento dessa violência, agravada pelo uso da bebida alcoólica que faz alterar os ânimos entre os mongóis e pela paisagem desértica que possibilita a surpresa. Já não se trata só de grupos armados ou roubo, mas uma espécie de brutalidade que explode entre eles.

Há uma violência contida entre os mongóis, que pode desencadear a qualquer instante. É uma violência louca, uma manifestação   da ignorância e da brutalidade que o nomadismo dilui entre as paisagens mais belas do planeta. Mas diante da placidez das paisagens, quando a violência irrompe, é uma surpresa (p. 171).

          A variação constante da paisagem mongol é outro fator que chama a atenção das personagens e que pode ser comprovada, bem como o isolamento de quem anda por estas paragens.

É a paisagem mais linda que já vi. Não há vivalma. Embora não haja grande variedade de vegetação, somos surpreendidos a cada minuto pela mudança de relevo. Basta fazer uma curva para tudo mudar de figura, e o que era vale vira montanha e o que era deserto vira estepe (p.116).

        interior da iurtaOutro aspecto que deve ser relacionado entre realidade e ficção é aquele que diz respeito às diferenças de classes sociais: pobres, muito pobres; ricos, muito ricos, possuidores de privilégios como carros, parabólicas, vídeos, gado, dólares.

Uma antena parabólica está fincada ao lado de um mastro branco com uma hélice na ponta, que gira captando a energia eólica. Purevbaatar logo me diz, com desprezo: ‘São nômades ricos. Não têm a ver com o que vamos encontrar pela frente…(…) O interior da iurta é confortável e, segundo Purevbaatar, excepcional para os padrões locais. Há duas camas, um televisor em cima de uma cômoda, tapetes pendurados pelas paredes (p.116/117).

       Essa disparidade em relação às classes sociais não é para nós, leitores , nenhuma grande novidade. Os ricos com privilégios e os pobres com dificuldades para comprar o pão. Talvez venha daí uma fome crônica como, por exemplo, observa-se no motorista Bauaa que, na ficção, leva o guia e o Ocidental pelo interior da Mongólia.

Não há hora para as refeições, e Bauaa parece ter o estômago furado, como de resto a maioria dos mongóis que encontrei até agora. Bauaa tem o corpo seco. Deve ter a síndrome de quem já passou fome (p.137).

       As diferenças sociais agravaram-se mais, ou melhor, tornaram-se mais evidentes a partir da abertura do país com a queda do comunismo, fato histórico comprovado. Com a abertura, houve um processo natural de desburocratização para a entrada de pessoas no país, o que favoreceu e fez aumentar o turismo. Então, em especial, os jovens passaram a perceber e a sofrer as consequências das diferenças.

Os estrangeiros também parecem incomodar  os jovens mongóis. A abertura do país com a queda do comunismo lhes permitiu confrontar a própria pobreza com a riqueza dos turistas (p.172).

      Em relação aos costumes, observa-se que há uma espécie de imobilidade. As tradições são mantidas a partir da decoração das portas, portões, móveis, tapetes, culinária, comportamento. Há uma espécie de obsessão pela estabilidade e pela tradição. Na verdade, os sistemas e os costumes são os mesmos; os indivíduos é que fazem a diferença.

Você me pediu para fazer o mesmo percurso que fiz com ele há mais de seis meses. Acontece que esse percurso depende das pessoas que encontramos no caminho. Num país de nômades, por definição, as pessoas nunca estão no mesmo lugar. Mudam conforme as estações. Os lugares são as pessoas…(p.115).

        O nomadismo é uma realidade; as pessoas estão em constantes mudanças de espaço, mas a mutação é aparente, pois obedecem a regras fixas e deixam-se levar pelas leis da sobrevivência.

O nomadismo em si não tem nenhuma graça. A mobilidade é só aparente, obedece a regras imutáveis e a um sistema e a uma estrutura fixos. São as pessoas. Talvez por causa da vida dura e isolada, sem surpresas ou novidades, as visitas em geral sejam tão bem-vindas. O nomadismo é uma estrutura regulada pela necessidade e pela sobrevivência nos seus fundamentos mais essenciais. Não há liberdade… (p.139).

        Como o nomadismo é intenso, as tradições são mantidas a partir das iurtas ou gers que, como já sabemos, são tendas circulares, desmontáveis, com estrutura de hastes de madeira, cobertas de camadas de feltro e de tecido impermeável e lona, que funcionam como isolante no frio e no calor que são intensos.

Há todo um cerimonial e uma série de regras de comportamento para quem entra numa iurta, a começar pela interdição de bater na porta, que é sagrada. Bater indica hesitação do viajante e, por conseguinte, constitui uma ofensa aos moradores, como se ele não os considerasse dignos de recebê-lo (p.39).

        A forma de cumprimento entre pais e filhos ou parentes próximos quando chegam numa iurta e quando vão embora é outra tradição que se mantém. Não há essa efusão de beijos e abraços, risos e vozes entrecruzadas como para nós ocidentais. A demonstração da alegria do reencontro é contida, mas ficam evidentes o carinho e a afeição de uns para com os outros. As mães cheiram os filhos, os pais seguram-no pelo braço, reservadamente. Parece um ritual.

ais e filhos na MongóliaOs pais queriam se despedir do filho fora da cidade, onde pudessem ter mais intimidade, estar mais à vontade e em paz. Queriam ficar perto do filho até o último instante, criar um ritual…Na Mongólia, as mães cheiram os filhos no rosto, em vez de beijá-los. Purevbaatar se curvou, e a mãe o cheirou dos dois lados do rosto, na altura das orelhas. O pai apenas lhe segurou os braços, pelos cotovelos, como se o apoiasse….Havia intensidade no olhar, mas os gestos eram econômicos (p113).

         culinária mongolA manutenção das tradições surge também na culinária, os pratos típicos: leite com chá, chá salgado, sopa de massa de trigo e pedaços de carne com banha, iogurte de cabra, bolinhos fritos, que são servidos a qualquer visita e esta não pode recusar, pois isto seria uma grande desfeita, uma falta de consideração e de respeito para com os donos da casa.

         Outro aspecto cultural mantido é a celebração do Naadam, a festa nacional que se realizamulheres da mongólia nos dias 11 e 12 de julho, quando nômades de todas as partes da Mongólia convergem-se, a cavalo, vestindo suas roupas de gala, para as cidades e vilarejos. Há os campeonatos de lutas, arco e flecha, corrida de cavalo. As mulheres só participam do arco e flecha; a corrida de cavalo é reservada para as crianças; a luta que é o esporte nacional é para os grandes campeões. Nas localidades onde não há estádios, a festa é realizada num espaço gramado, delimitado por quatro tendas azuis e brancas. O melhor do Naadam geralmente acontece à tarde quando os cavaleiros são esperados. Mas a essa altura muitos já estão bêbados e pode surgir uma briga, uma confusão que faz explodir a violência, a manifestação da brutalidade e da ignorância de que já falamos.

 estrada de terra na MongóiaNa Mongólia, a necessidade de manutenção das tradições pode ser observada até mesmo nas estradas. Pudemos comprovar no estudo feito anteriormente que a maioria das estradas é de terra; as ferrovias são poucas, as rodovias também. Os caminhos se fazem pela repetição, como tudo é repetição no país. Aliás, “a repetição é condição de sobrevivência. É essa também a cultura dos nômades.”

As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes (…). Os motoristas insistem em segui-las, como quem toma o caminho seguro, tradicional.  O bom motorista é aquele que sabe achar sua pista no deserto. A boa pista (p.138).

          A cultura na Mongólia caracteriza-se pela repetição, não pela criação. Decidir-se por uma pista nova no deserto, por exemplo, é um risco mortal, é extraviar-se. Daí vem a imobilidade dos costumes de que já falamos. O apego às tradições é uma forma de sobrevivência. A vida dura e regrada, regulada pelas necessidades básicas da natureza, impõe as condições. Há uma  obsessão pela estabilidade em que a mutação é só aparente; o constante deslocamento faz-se através da repetição das mesmas coisas, dos mesmos caminhos, dos mesmos lugares, dos mesmos comportamentos.

3 – A HISTÓRIA NA HISTÓRIA

        Na medida em que vai arquitetando sua narrativa, o autor de Mongólia cria toda uma estrutura de modo a intercalar a ficção com a História oficial da Mongólia que lhe serve como cenário. Como se não bastassem as pinceladas que vão sendo encontradas a respeito dos fatos históricos, Bernardo Carvalho introduz uma parte no livro, antecipada por três asteriscos (***), como se fosse um capítulo especial, em que, à par da ficção, faz uma espécie de cronograma  da história oficial da Mongólia, a começar pelo Império Mongol.

        Os mongóis, que sempre foram nômades e no século XIII chegaram a constituir o maior e mais temido império da história da humanidade, o qual se estendia do Pacífico à Europa Oriental, tiveram de se resignar a viver sob o domínio chinês por mais de duzentos anos, até o início do século XX (p.92).

         A partir daí,  o autor,  aparentemente através da voz do narrador, faz um  apanhado geral da história da Mongólia no século XX (p.92/95):

*queda da dinastia Qing, na China, em 1911, propiciando aos mongóis do norte  proclamarem sua independência que não foi reconhecida por Pequim;

*em 1914, acordo entre a China e a Rússia dando autonomia relativa à Mongólia, dividindo o território, oficialmente, em duas unidades: a Mongólia Interior, ao sul, que se tornava parte da recém-criada República da China e a Mongólia Exterior, ao norte, que passava  à zona de influência dos russos;

*em 1919, os chineses voltam a invadir a Mongólia Exterior;

*a partir dos anos 20, iniciam-se os expurgos, coincidindo com a ascensão de Stalin e o regime de terror que impôs a toda a União Soviética;

*Revolução de 1921: os mongóis proclamam o Governo do Povo da Mongólia;

*em 1924, a Mongólia se torna o segundo país comunista do mundo;

*o Marechal Choibalsan, um dos heróis da Revolução de 1921, chega ao poder em 1928 e governa a Mongólia com mão de ferro até 1952. Era um fantoche de Stalin, mas recusou-se a fazer de seu país uma república soviética como exigia Moscou em 1940;

*com Choibalsan no poder começaram os massacres contra o Budismo, apesar de o marechal ter sido monge budista ( em 1921, um terço da população mongol vivia nos mosteiros, pois toda família tinha de mandar pelo menos um filho para ser aí educado; numa família com cinco filhos, às vezes, até três deles deveriam se tornar monges);

*em 1928, ocorre o primeiro grande massacre de lamas;

*em 1929, começam as grandes desapropriações;

*em 1932, uma onda de prisões e execuções assolou o país;

*em 1937, houve um banho de sangue provocado pelos comunistas quando cerca de trinta mil lamas foram executados sumariamente ou enviados para os campos da Sibéria; ainda em 1937, sob as ordens de Stalim, os comunistas fecharam os últimos mosteiros budistas na Mongólia. Nos anos 30, mais de cem mil pessoas foram vítimas do terror comunista na região. (A  longa história do lama cujo manuscrito deixado é motivo de busca por parte do desaparecido ocorre na ficção por essa época dos Grandes Expurgos, em 1937);

         Um pouco antes de tomar conhecimento desses dados, o leitor já havia se deparado, através do diário do desaparecido, com uma informação importante:

*nos anos 50, durante a coletivização do campo, os comunistas deram à Mongólia uma nova configuração  que  contava com dezoito províncias ou aimags (p.89);

         Mais adiante, ficamos sabendo que:

Darkhan 2*em 1961, Darkhan foi construída pelos russos, a segunda maior cidade da Mongólia com a finalidade de ser um polo industrial. O diário do desaparecido faz menção à construção de uma rodovia que ligaria esta cidade à capital Ulaanbaatar (p.153).

 *a queda do comunismo em 1990 é por inúmeras vezes referida, seja pelo narrador ou pelo desaparecido ou pelo Ocidental nos seus diários.

         Os fatos históricos mencionados vêm entremeados à ficção e, a julgar pelas vezes repetidas em que há referência à queda do comunismo em 1990, conclui-se que o tempo da ficção é muito próximo. Embora não haja uma data que nos possibilite determinar com exatidão o tempo da narrativa, percebemos que é atual. O enredo gira em torno da viagem de dois brasileiros à Mongólia. O primeiro, um fotógrafo, desaparece no inverno nos Montes Altai; o segundo, um diplomata,  vê-se obrigado, por forças do cargo que ocupa e por receber ordens superiores, a ir em busca do desaparecido. Os dois deixam seus diários de viagem. Toda a trama será arquitetada a partir da leitura desses diários por uma terceira personagem que monta a história. Sobre esse jogo é que estaremos falando na segunda parte deste estudo, que será publicada em separado.

4 – HOMENS E MULHERES MONGÓIS

homens e mulheres mongóis 2      À época de Gêngis Khan, homens e mulheres mongóis eram treinados para as batalhas que poderiam surgir. As mulheres sabiam manejar o arco e a flecha e lutavam bravamente ao lado dos homens. Estes eram valentes e destemidos.

        No entanto, as mulheres, desde sempre, sofriam por se verem na condição de serem criadas para “acatar os desejos dos homens e se manter em silêncio diante deles” (p. 81). Em relação a esta tradição, o romance de Bernardo Carvalho tece comentário sobre a repressão sexual existente em relação às filhas dos nômades mais humildes que são estupradas em suas próprias tendas por algum rapaz das redondezas sob o olhar dissimulado da família que finge nada perceber. Porém, quando a barriga dessa moça começa a crescer, ela é escorraçada de casa e vai viver distante para  criar o filho sozinha. As condições de sobrevivência são mínimas e ela tem que fazer a vida entregue ao seu destino. A partir daí, fica sujeita a ter que se deitar com qualquer viajante que por ali passar. Considerada  pária da sociedade, vai acumulando filhos e estes a ajudam a suprir a ausência do homem no trabalho e nas constantes mudanças.

      mulher mogol trabalhado 2Mas a questão “trabalho” em relação às mulheres em  muito chama a atenção do leitor de Mongólia.  Desde sempre, o trabalho delas é crucial. Elas são responsáveis pela lida da casa; cuidam das crianças; montam e desmontam as iurtas nos constantes deslocamentos; buscam água no rio; tecem as roupas, os tapetes, os enfeites das casas e dos cavalos; processam o leite, o queijo, a carne, isto é, são responsáveis pela alimentação básica da família. Muitas cuidam dos rebanhos e ainda têm de voltar para casa para preparar a refeição, enquanto os homens bebem ou dormem ou veem televisão (quando têm) ou brigam ou nada fazem.

Faz um calor danado, venta como numa tempestade de areia, e os homens estão bêbados, prontos para se atracarem… na Mongólia, como eu posso ver, só as mulheres trabalham. De fato, trabalham como mulas, enquanto os homens bebem (p.125).

       Em reportagem, intitulada “Mongólia – mulheres de fibra”, publicada pela revista Marie Claire (maio, 2004), Lívia Monami, com base na sua convivência de vários dias com o povo mongol, afirma:

     Quando cheguei à Mongólia, esperava encontrar homens guerreiros, ativos e corajosos como Gêngis Khan. Mas só encontrei homens preguiçosos, confusos e desorientados. Eles eram bondosos e hospitaleiros, mas sem a energia avassaladora do conquistador. Eu me perguntava o que o grande líder mongol havia transmitido para seu povo até me dar conta de que sua bravura está presente nas mulheres (NOMANI, 2004).

         A mulher mongol desenvolveu a capacidade de manter a economia de base de seu país e, enquanto isso, a população masculina fica livre para o ócio ou para a luta e a caça. Lívia Manomi ainda afirma que, na Mongólia, a mulher por “sua capacidade de enfrentar a vida, sua incrível resistência, seu caráter orgulhoso, juntamente com uma atitude gentil e inteligência aguda” não é exceção. Essas qualidades ela as encontrou nas mulheres todas com quem conviveu.

        Segundo depoimento de Oyuna, uma mulher mongol de cinquenta anos, residente em Ulan Bator, a Lívia Monami,

Na época de Gêngis Khan, os homens eram cavaleiros valentes, lutadores notáveis, fascinantes, dignos e saudáveis. Hoje só temos homens desempregados, fracos e derrotados, que ficam na frente da TV esperando que suas mulheres voltem do trabalho para cozinhar(NOMANI, 2004).

        Conclui-se que o homem mongol foi, ao longo do tempo, perdendo sua função e sua posição na família e na sociedade, enquanto a mulher desenvolveu capacidades e assumiu funções que antes eram delegadas ao homem. Hoje, ela tem diploma colegial ou universitário e constitui força de trabalho. Este fator pode ser comprovado na ficção de Bernardo Carvalho.

        As mulheres e os dois rapazes que ordenhavam as camelas se juntam a nós. Trazem duas crianças no colo… A filha caçula de Dashbatjat estuda na universidade de  Ulaanbaatar e veio passar as férias com os pais (p.125).

         Hoje, a proporção de mulheres nas universidades mongóis varia entre 70% a 80%. Na obra em estudo, no entanto, esse dado não aparece pelo fato de as personagens estarem viajando pelo interior, pelo deserto, pelas montanhas e em contato com uma classe mais humilde que vive da atividade pastoril. Mas o certo é que as mulheres mongóis ocupam o mercado de trabalho atuando nas empresas privadas ou são médicas, professoras, diretoras e, não raro, as provedoras e chefes da família.

       O romance de Bernardo Carvalho faz um painel dos valores, comportamentos e costumes dessa sociedade deixando claro o valor do papel que homem e mulher desempenham na manutenção das tradições e dos laços familiares, mas destacando o esforço em escala maior empreendido pela personagem feminina.

         Mongólia é um romance intrigante, seja pelo exótico da paisagem, dos costumes e da tradição,  seja  pelo distanciamento do leitor em relação a tudo isto, seja pela forma como foi engendrada a obra romanesca. Por isso, é que na Segunda Parte, estaremos concluindo este estudo abordando o entrecruzamento dos três diários e a voz do narrador.

REFERÊNCIAS

1.CARVALHO. Bernardo. Mongólia. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

2.MONAMI. Lívia. Revista Marie Claire, maio, 2004;

3. Revista Geográfica Universal. Rio de Janeiro: Bloch editores. Fevereiro, 1985.

4. Revista Geográfica Universal. Rio de Janeiro: Bloch editores. Novembro, 1991.

5. Revista Geográfica Universal. Rio de Janeiro: Bloch editores. Março, 1997.

6. Revista Terra. São Paulo: Ed. Peixes. Junho, 2001.

 

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