O Juíz de paz na roça – Martins Pena

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

1- Os gêneros literários

1.1- Literatura e teatro

1.2- Características do gênero dramático

1.3- A estrutura da peça teatral

1.4- Os componentes de uma peça

2- A comédia

3- A farsa

4- O teatro no Romantismo brasileiro

4.1- Martins Pena – Dados biográficos

4.2- O teatro de Martins Pena

5- O juiz de paz na roça – Comentário crítico

5.1- O espaço e as personagens

5.2- O tempo

5.3- A linguagem

 

CONCLUSÃO

NOTAS

REFERÊNCIAS

 

INTRODUÇÃO

teatro São Pedro 2Teatro São Pedro

            O texto a ser representado em palco possui elementos da prosa de ficção assim como características que lhe são peculiares. Desta forma, objetivamos fornecer ao leitor do Ensino Fundamental e Médio subsídios para que possa melhor compreender os segredos do texto dramático.

            A leitura deste estudo não substitui a leitura do texto original, mas propiciará uma melhor compreensão no que diz respeito aos componentes essenciais de uma peça teatral, ou seja, do gênero dramático. Assim, é que voltaremos nossa atenção para o cenário, as personagens, o tempo, a ação, a  linguagem e as mensagens críticas que vazam do texto. Antes, porém, estaremos comentando sobre as características do gênero, do estilo do autor e do teatro na época em que vigoravam os ideais românticos.

  1. OS GÊNEROS LITERÁRIOS

          Classificar os gêneros literários em épico, lírico e dramático remonta aos tempos de Platão e Aristóteles.

          Por gênero lírico entendem-se as manifestações do “eu”, portanto, da subjetividade, dos sentimentos, das emoções. É a manifestação do mundo interior, tanto que a função predominante da linguagem é a emotiva.

     O gênero épico caracteriza-se pela narração vinculada aos fatos históricos e à realização humana. É a transformação do mundo exterior em obra de arte, utilizando-se da função referencial da linguagem.

      O gênero dramático, que se manifesta mais através do trágico e do cômico, representa o conflito do homem em seu mundo. A função predominante da linguagem é a conativa, ou seja, apelativa, centrada no receptor da mensagem, visando a uma tomada de posição desse receptor. É o texto sedutor, persuasivo.

1.1- Literatura e teatro

            A literatura é um instrumento de comunicação que se utiliza da palavra e, assim sendo, cumpre um papel social que é o de “transmitir os conhecimentos e a cultura de uma comunidade”.  Segundo o poeta norte-americano Erza Pound, “literatura é linguagem carregada de significados. . . até o máximo possível”. Isto quer dizer que a palavra dentro do texto literário pode adquirir inúmeros significados, cabendo ao leitor as diferentes interpretações.

            Como todo o tipo de arte, a literatura está vinculada à sociedade na qual tem sua origem. Partindo do real e das experiências sociais, o artista recria a realidade dando origem a uma realidade fictícia e, através dela, transmite seus sentimentos e ideias ao mundo real, palpável. Por isso, muitas vezes, a literatura assume formas de denúncia, de crítica. Outras vezes, faz a transcrição da realidade muito mais presa à imaginação, à liberdade criativa obrigando o leitor a também usar sua criatividade. O leitor torna-se participante ao recriar o texto, já não é mais aquele que apenas recebe informações. Da leitura pode originar uma tomada de posição.

          Jogando com as palavras, ritmos, imagens e sons, a literatura conduz o leitor a mundos imagináveis, recria o belo e causa prazer.

            O texto teatral possui aspectos literários como tempo, espaço, ação, personagens, mas deverá ser representado no palco. A diferença básica entre o texto literário e o teatral é que a este importa a ação e aborrece a narração, enquanto aquele tem como aspecto primordial  o ato narrativo. O texto dramático está fundamentado na ação. É a transcodificação do texto escrito. Segundo Vítor Manuel de Almeida(1976. p. 604), o texto  teatral  é “integrável no modo literário do drama, pertence à literatura e deve ser objeto da Teoria Literária”. Mas, ao analisarmos uma peça teatral devemos estar atentos ao plano da representação, como a montagem do cenário, o jogo de luz e de som, a mudança de cena, de ato e outros detalhes pertinentes.

            O texto teatral é a concretização oral do texto literário e, como ambos se utilizam da palavra como veículo de comunicação, pode-se dizer que o texto teatral participa das expressões literárias extrapolando seus limites quando representado no palco e, por isso, seu estudo envolve os aspectos que atingem a representação.

1.2- Características do gênero dramático

            teatro São PedroO texto dramático ou teatral é escrito para ser representado no palco. Caracteriza-se,  portanto, pelo seu radical de representação. Nesse tipo  de texto não há narrador, pois a história “acontece”  no palco. Diante dos espectadores, os atores representam o papel das personagens sem a interferência de um narrador ou do autor. A  presença do autor só se faz nas indicações cênicas que orientam a montagem da peça.

            As indicações cênicas ou rubricas são as informações entre parênteses, ou não, que possibilitam a montagem da peça. No palco, ou seja,  durante a apresentação da peça, essas rubricas desaparecem, permanecendo apenas o diálogo entre as personagens  num cenário e num tempo previamente determinados:

Ato  Único
CENA  I
Sala com uma porta no fundo. No meio uma mesa junto à qual estarão cosendo Maria Rosa e Aninha.

        Levando-se em consideração as rubricas e os diálogos, conclui-se que um texto escrito  para ser representado possui dois textos quando lido: um secundário (rubricas)  e outro principal (diálogos). Ao assistirmos à peça, o texto secundário é abolido pela presença ao vivo dos comediantes, do cenário, das luzes, dos sons e do diálogo.

            João Cabral de Melo Neto, ao compor seu poema épico “Morte e vida severina” não o fez com a pretensão da representação, portanto, ao lê-lo, o leitor só encontra o texto principal. Mas seu poema possui características dramáticas e acabou virando peça teatral. Já Martins Pena escreveu para que seu texto fosse levado a palco e, por isso, enquadra-se plenamente nas características do gênero dramático.

            O receptor de um texto dramático pode ser o leitor ou o espectador. Este verá o texto sendo representado, portanto, com maior  força expressiva uma vez que contará com as luzes e  os sons, com  as expressões fisionômicas , gestos e voz dos atores, enquanto o leitor terá de imaginar  a representação como um todo.

            A montagem da peça ficará a cargo de um diretor de cena que se encarregará de, num difícil trabalho metalinguístico, ler e interpretar as rubricas e os diálogos para estabelecer as condições ideais de representação da peça.

1.3- A estrutura da peça teatral

            O texto dramático, assim como o narrativo, procura representar a vida o mais próximo possível de sua totalidade. A diferença é que no texto dramático, a profusão de personagens, de objetos e as inúmeras deslocações no espaço existente no texto narrativo desaparecem, limitando-se ao espaço do palco e a um número restrito de personagens, o essencial para a montagem da peça.

            Uma peça monta-se em partes que se justapõem harmoniosamente formando uma unidade pretendida. As partes principais recebem o nome de atos, geralmente três ou de um único ato como O juiz de paz na roça.

            Um ato pode se repartir em cenas, ou seja, cada unidade da ação em que se estrutura o ato. O único ato da peça em estudo divide-se em vinte e três cenas. Cada  cena é uma unidade dramática dotada de ação completa no seu desenvolvimento ( começo, meio e fim ), embora dependente do ato e da peça como um todo.

1.4  – Os componentes de uma peça teatral

         Os componentes fundamentais de uma peça teatral são: a ação, o cenário e o diálogo.

        Na ação dramática, cada personagem desempenha uma função definida e necessária. Não há personagens supérfluas. A ação encaminha-se para a instauração de um conflito, pois a vida é representada nos seus momentos de crise. É pela ação que as personagens produzem a imitação da vida, segundo Aristóteles(s/d  p.246).  Esta unidade dramática pode ser exterior ou interior (psicológica). Em O Juiz de paz na roça,   prevalece a ação exterior, ou seja, a parte das personagens que se transmuta em ação pelo diálogo, pelos gestos, pelas expressões fisionômicas.

            O cenário na ação dramática é limitado. Diferentemente do texto narrativo em que as personagens têm um espaço  mais amplo, aqui o cenário restringe-se ao palco.  No único  ato da peça em estudo, o espaço resume-se em uma  sala da casa do  senhor Manuel João e sua família e numa sala da casa do  Juiz de paz. Estes dois espaços alternam-se apenas duas vezes. A peça começa na casa do roceiro e termina com uma confraternização na casa do Juiz. As descrições do espaço são abolidas, já que a montagem do palco, por si só, diz tudo. No texto lido, as rubricas indicam apenas os detalhes necessários para a montagem do cenário. Em O juiz de paz na roça, o espaço é a zona rural, alguma localidade próxima à Corte, ou  seja, próxima  à cidade do Rio de Janeiro.

             O diálogo é de vital importância no texto dramático, pois é  somente através dele que os indivíduos em ação revelam-se uns aos outros. As personagens falam através do discurso direto, num espaço organizado em função de si próprio e num tempo que pode variar em presente e/ou passado. Em  O juiz de paz na roça, os diálogos são um tanto quanto cultos, levando-se em consideração as personagens que os proferem. Este aspecto será visto adiante.

  1. A COMÉDIA

            O juiz de paz na roçaA comédia visa ao riso por meio de situações, gestos, palavras e características das personagens que podem ter feições grotescas ou ridículas, com trajes e trejeitos que conduzem ao cômico. O riso é a sua energia e deve ser combinado com a intriga ou com a observação moral.

            A comédia é um evento ou uma série de eventos ridículos, cômicos ou divertidos que se destinam a fazer rir. Segundo Aristóteles ( s/d  p.246), a “comédia é a imitação de maus costumes, não contudo de toda a sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominoso que é o ridículo.

          De acordo com as afirmações de Vítor Manuel (1976, p.378), a comédia “caracteriza-se pelo movimento ascensional do mundo da experiência, através de complicações ameaçadoras” até o desfecho com um final feliz. A comédia mescla-se num extremo com a ironia e com a sátira e, num outro extremo, com o romance, conforme vimos na parte 2.1 deste estudo. O objetivo da comédia é  despertar o riso através da alegria, da frivolidade e da irreverência. Pretende transmitir uma mensagem séria através do cômico. Seu estilo é leve, familiar e satírico. O termo “comédia” aplica-se a uma peça teatral de índole ligeira e divertida, geralmente com final feliz como se vê em  O juiz de paz na roça.

  1. A FARSA

             A teoria literária costuma mostrar os gêneros literários dentro de uma hierarquia que se faz tomando em consideração os vários conteúdos e estados de espírito humano. Dessa forma,  ficariam como gêneros maiores  a  epopeia que imita a ação heroica e grandiosa e a tragédia que imita a inquietude  e a dor do homem ante o destino. São, portanto, a epopeia e a tragédia consideradas gêneros maiores que a  comédia e a farsa, pois estas imitam ações, interesses e estados de espírito de ordem menos elevada.

            Enquanto a tragédia e a epopeia apresentam como personagens principais reis, altos dignatários, heroicos capitães e grandes senhores, a comédia e a farsa escolhem-nas  na classe média  ou burguesa e  entre o povo.

            A farsa é definida como peça teatral cômica de um único ato, enredo curto e poucas personagens. A ação é vivaz, irreverente e burlesca, carregando consigo elementos da comédia  de costumes. Pode-se daí entender  porque alguns estudiosos da obra de Martins Pena afirmam que, muitas vezes, suas comédias de costumes descambam para a farsa.

            Martins Pena leva para o palco o povo simples, a língua desse povo e é também por esta razão que suas peças são tão bem aceitas. O brasileiro se vê nas personagens, pois há uma “seiva de brasilidade dessa farsa, que parece brotar da nossa rua”. Há em sua obra as raízes efetivas do espírito brasileiro, do espírito democrático brasileiro.

  1. O TEATRO NO ROMANTISMO BRASILEIRO teatro brasileiro

              No início do século XIX, a vinda da família real para o Brasil em muito favoreceu o desenvolvimento do teatro brasileiro e, com o advento do Romantismo, o teatro nacional tomou impulso novo, começou a ter um  papel na existência comum das cidades.

            O movimento romântico é de fundamental importância no desenvolvimento da nossa arte literária e da arte cênica. Num momento em que se buscava uma consciência nacional, surge o romance que passa a registrar o momento histórico, os costumes da sociedade da época. Basta ler, por exemplo,  Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida;  A moreninha, de Macedo;  Senhora  ou  Luciola, de Alencar. Nelson Wernek Sodré(1976. p.213) afirma que durante o Romantismo,

o romance aparece, pois, na fase em que existe um público, ainda que reduzido, para assegurar-lhe vigência. Vem atender uma necessidade, uma exigência, uma solicitação natural e espontânea do meio, quando o Brasil atinge a etapa de desenvolvimento em que a atividade literária  se torna possível, quando a vida urbana estabeleceu as condições mínimas para a sua existência(SODRÉ,1976, p.213).

            Assim como o romance, o verdadeiro teatro, o autêntico teatro brasileiro inicia-se no Romantismo. Ainda que preso aos moldes europeus, há uma notável tentativa de temas e ambiência nacionais. Os autores que iniciam a trajetória de um teatro genuinamente brasileiro são Gonçalves de Magalhães e Martins Pena. Aquele, mais uma vez, com o mérito de ser o pioneiro, mas sem grandes qualidades, inaugura o teatro brasileiro romântico com a tragédia Antônio José ou O poeta da inquisição, encenada pela companhia do ator João Caetano, em março de 1838. Já Martins Pena é o  mais importante autor teatral do Séc. XIX. “Suas comédias de costumes, cheias de vitalidade, apresentam tipos cômicos populares: o matuto, o ingênuo, o estrangeiro esperto e embromador, a velha rabugenta, o malandro simpático e outros temas e situações até hoje presentes no teatro cômico brasileiro”( MAIA, 1975, p.349). Também encenada pela primeira vez em outubro de 1838, pela companhia do ator João Caetano, sua peça  O juiz de paz na roça inaugura a comédia de costumes no Romantismo brasileiro

             Foi também pelo teatro que o Romantismo brasileiro ganhou o público. O gosto pela comédia antecipou o gosto pelo drama. Como em outros gêneros, também no teatro coexistem, durante o movimento romântico, a “eloquência, o exagero, a deformação, o descomedimento sentimental com o vulgar, com o quotidiano, com   o costumeiro, com o simples levado aos limites do simplório” (SODRÉ, 1976. p.222).

            Esta tendência manifesta-se, inclusive, na poesia e na prosa de ficção e Martins Pena com suas comédias comprova tudo isto.

4.1- MARTINS PENA – DADOS BIOGRÁFICO

            Martins PenaLuís Carlos Martins Pena ( 1815-1848 ) nasceu no Rio de Janeiro. De origem humilde e, órfão muito cedo, estudou Comércio e Belas Artes, carreiras que abandonou pelo teatro. Chegou a dominar, por esforço próprio, o francês e o italiano. Começou a escrever comédias ainda muito jovem, no que foi estimulado por João Caetano. Redigiu também folhetins sobre espetáculos teatrais e de ópera para o Jornal do Comércio e uma novela, inédita.

            Na burocracia diplomática subiu de amanuense da Mesa do Consulado a Adido de nossa Legação em Londres para onde viajou em 1847. Atacado de tuberculose, regressou ao Brasil, mas não conseguiu aqui chegar com vida. Faleceu em Lisboa, aos trinta e três anos . Algumas de suas peças não foram editadas e dentre as conhecidas do público, destacam-se:  O juiz de paz na roça (1838); A família e a festa na roça (1840); O Judas em sábado de aleluia (1844);  Os irmãos das almas (1844);  O noviço (1845).

            Martins Pena é o patrono da cadeira de número vinte e nove da Academia Brasileira de Letras.

4.2- O TEATRO DE  MARTINS PENA

                                                           “o ilustre  mestre da comédia brasileira”

        O caráter geral da obra teatral de Martins Pena é “o da clássica comédia de costumes” que tenta a reprodução, mais ou menos realista, dos costumes sociais. Registrou no palco, como um repórter, a vida fluminense da primeira metade do século XIX numa obra em que predominam os tipos populares, o colorido e o humor. Conseguiu captar o linguajar dos homens do interior e da capital e o transpôs para o palco provocando o riso, a descontração e a crítica.

            O ponto de partida para a criação de suas peças era sempre a realidade observada que, para ser adaptada comicamente, exigia do autor uma boa dose de sátira alegre. Através dessa sátira, ridicularizou as hipocrisias, as convenções tolas, a negligência e o poder dos políticos, os abusos de poder, a falsa religiosidade, a desonestidade e outros males de qualquer sociedade em qualquer época. Tudo isto é vazado através de um diálogo simples, saboroso e a crítica é bem tolerante.

           memórias de um sargento de milícias Martins Pena, ao fazer  no palco a reconstituição dos costumes de uma sociedade, tempera-os com a caricatura da comédia,  faz o que a imprensa consegue com os traços, com o desenho. Coloca os problemas do cotidiano levando-os ao ridículo, deformando-os pela caricatura, um dos aspectos interessantes da escola romântica em todo o país. Prova disso pode ser encontrada também no romance Memórias de um sargento de milícias em que o autor Manuel Antônio de Almeida, através do narrador, ao caricaturar situações e personagens, esboça a sua crítica social bem humorada dos costumes de época.

          a moreninha Os quadros fluminenses mostrados por Martins Pena em suas peças são mais vivos e mais comuns que aqueles apresentados , por exemplo, em  A moreninha  por Joaquim Manuel de Macedo. São, porém, mais parecidos com aqueles  vistos  nas  Memórias, de Almeida. Não há a idealização exagerada e, muitas vezes,  sem critérios dos românticos, talvez pelo convívio direto com o público,  privilégio de que goza o teatro.

            Manuel Antônio de Almeida e Martins Pena mostram o povo simples das ruas do Rio de Janeiro, das cercanias da cidade. Na crônica de costumes do primeiro e nas comédias de costumes e farsas do segundo, vê-se a criação de tipos e situações com uma sutil sátira social e um realismo ( às vezes ingênuo em Martins Pena ) que faz com que a obra dos dois românticos se destaquem entre aquelas produzidas na primeira metade do século XIX.

  1. O JUIZ DE PAZ NA ROÇA – Comentário crítico

            Segundo Alfredo Bosi (1970, p.160), “o intuito básico de Martins Pena era fazer rir pela insistência na marcação de tipos roceiros e provincianos em contato com a Corte. O tom passa do cômico  ao bufo, e a representação pode virar farsa a qualquer momento: o labrego de Minas ou o fazendeirão paulista seriam  fonte de riso fácil para o público fluminense”.  Esses tipos são explorados na vestimenta, na linguagem, nas superstições, nas crendices, nos enganos, nos erros, na ignorância, na simplicidade, enfim, em todos os aspectos que lhe são característicos. Veja-se, por exemplo, a figura ridícula de Manuel João:

                                CENA  VII
Entra Manuel João com a mesma calça e jaqueta de chita, tamancos, barretina da Guarda Nacional, cinturão com baioneta e um grande pau na mão.
Manuel João, entrando – Estou fardado. Adeus, senhora, até amanhã. (Dá um abraço).

guarda nacional             Comparada à imagem ao lado, não deixa de ser caricaturesca, grotesca mesmo, a figura do roceiro metido em farda da Guarda Nacional, com a mesma calça com que trabalhara desde as quatro horas da manhã, barretina, de tamancos e com um grande pau na mão. O realismo com que é apresentada a cena, até mesmo a despedida da família, registra o cotidiano e pinta o retrato de tipos idênticos pelo Brasil afora naquela época.

            Segundo Sílvio Romero (1985, p.1362), Martins Pena “não era temperamento filosófico. Sua  visão dos homens e da sociedade não manifesta preocupações teóricas do pensamento. Nenhuma sombra sobre o eterno problema das coisas que vão pousar em sua obra.” Também seu estilo não tem outra tendência que não a de observar o ridículo dos homens, sem tirar daí alguma consequência. Sua alma “galhofeira e inteligente” faz rir “pelo gosto de rir, não como um moralista que busca doutrinar ou o pessimista que procura castigar, ou como o misantropo que se delicia em fazer sofrer”(ROMERO).  Observemos a cena em que Manuel João descobre o namoro e o casamento da filha com José, o recruta que lhe fugira da casa. Não há maiores censuras tampouco castigos ou ofensas. O perdão vem fácil:

                                    CENA   XX
Entram  José e Aninha e ajoelham-se aos pés de Manuel João.
Ambos – Senhor!
Manuel  João –  O que é lá isso?
Aninha – Meu pai, aqui está o meu marido.
Manuel João – O teu marido?
José – Sim senhor, seu marido. Há muito tempo que nos amamos e, sabendo que não nos daríeis o vosso consentimento, fugimos e casamos na freguesia.
Manuel João – E então? Agora peguem com um trapo quente. Está bom, levantem-se; já agora não há remédio. ( Aninha e José  levantam-se. Aninha vai abraçar a mãe.)
Aninha – E minha mãe, me perdoa?
Maria Rosa – E quando é que eu não hei-de perdoar-te? Não sou tua mãe? (Abraçam-se) ( p. 59).

            Observa-se pelo longo trecho transcrito que, apesar da aparente gravidade da situação, não há sofrimentos, nem mágoas, nem ressentimentos. Tudo se resolve com a maior facilidade. Tanto que, ao procurarem o juiz de paz para relato do ocorrido, este também aceita a situação com a maior naturalidade e ainda oferece sua casa para uma confraternização.

leitãozinhoJuiz – Sr. Escrivão, faça o favor de ir buscar a viola. ( Sai o Escrivão ). Não façam cerimônias; suponham que  estão em suas casas . . . Haja liberdade. Esta casa agora não é do  juiz de paz – é de João Rodrigues. Sr. Tomás, faz-me o  favor?   Tomás chega-se para o Juiz e este o leva para um canto.) O leitão  ficou no chiqueiro? (p.61).

            cesta com ovosA facilidade com que tudo se resolve lembra-nos as Memórias de um sargento de milícias em que tudo é solucionado  de maneira favorável para Leonardo, o protagonista, geralmente pela interferência daqueles que o querem bem. Em O juiz de paz na roça, o juiz soluciona todas as pendengas ou demandas com a maior facilidade desde que as partes lhe  presenteiem com um leitão, algumas dúzias de laranjas ou bananas, umas galinhas, um cesto com  ovos. É ridículo. É cômico.

          Este tipo de juiz de paz é composto da venalidade, da arbitrariedade e do “não querer  querendo” que o próprio cargo lhe faculta. Com a mão direita exerce o poder do juiz, recrutando pessoas humildes para a Guerra dos Farrapos e com a mão esquerda segura os “presentes” que recebe ou que, disfarçadamente, sugere  que lhe sejam dados em troca de um parecer favorável para as partes.

            guerra dos farraposA Guerra dos Farrapos é o fato histórico assinalado na peça. Também conhecida como Revolução Farroupilha foi uma das mais importantes revoltas contra o governo central do Brasil  no período regencial. De 1835 a 1845, as províncias do sul do Brasil – São Pedro do Rio Grande do Sul ( atual  Rio Grande do Sul) e Santa Catarina – lutaram para obter maior autonomia. O acontecimento histórico é trazido à cena com uma pitada de crítica ao falso patriotismo:

Escrivão – Venho da parte do senhor  juiz de paz intimá-lo para levar um recruta à cidade.
Manuel João – Ó homem, não há  mais ninguém que sirva para isso?
Escrivão -Todos se recusam do mesmo modo, e o  serviço, no entanto, há-de se fazer.
Manuel João – Sim, os pobres é que o pagam.
Escrivão – Meu amigo, isso é falta de patriotismo. Vós bem sabeis que é preciso mandar gente  para  o Rio  Grande, quando  não,  perdemos  esta província (p. 52).

           A continuação deste diálogo na CENA V  evidencia, através das palavras do roceiro, um aspecto  ainda  hoje  muito  presente  nas  políticas  adotadas  pelos  poderosos. Os humildes, os homens comuns é que vão para as frentes de combate enquanto  os donos do poder  permanecem em seus palacetes e quartéis em total segurança. Basta ver o que a mídia tem mostrado a respeito. O povo sofre, inocentes morrem, cidades são bombardeadas, mas os comandantes não saem de suas áreas de segurança. Ao se referir às batalhas no Rio Grande, Manuel João diz: “Quem as armou que as desarme” o que deveria ser uma grande verdade também para os nossos tempos.

          Martins Pena é um espírito cômico numa sociedade ainda nova, cheia de vícios, mas não totalmente corrompida. Considerando sua obra como um todo, a gente que ele nos mostra, a sociedade que povoa suas peças, essa multidão de onde avultam juízes de paz, escrivães, grandes e pequenos lavradores, caipiras, capitães-mores, estudantes, mocinhas atrevidas, meirinhos, empregados públicos, roceiras namoradoras, guardas nacionais, frades, noviços, caixeiros traficantes, compadres mexeriqueiros, entre tantos outros tipos, nada mais é que um mundo marcado pela mediocridade completa . Tudo é pautado no mediano. Nenhuma de suas personagens sobressai-se por ser totalmente boa ou totalmente má, por ser um herói de verdade e de grandes atos, ou por ser o maior dos vilões. O tom crítico de seus textos é amenizado pela comicidade fazendo com que pessoas simplórias e exploradas não apareçam como vítimas. Veja-se uma parte da CENA IX, em casa do juiz:

(Juiz lendo carta recebida)Tomo a liberdade de mandar a V. S.  um cacho de bananas-maçãs para V. S.  comer com a sua boca e dar também a comer à Sra. Juíza e aos Srs. Juizinhos.
Juiz- Bom, tenho bananas para a sobremesa . . . O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos etc. etc. (p.53).

            Observa-se o tom crítico em relação ao roceiro e ao juiz. O primeiro, simplório e ignorante, chega a estender o título de juiz  ( e talvez até a autoridade) à  esposa  e aos  filhos. O segundo, esperto e arbitrário, tira proveito da sua posição e do poder que o título lhe confere. As cenas que mostram as demandas registram o grau de mediocridade e ignorância das pessoas humildes da zona rural. Não há por parte delas o menor senso crítico nem consciência de seus direitos.

Escrivão, lendo -Diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa Joaquina, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande a Gregório degradado para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar uma embigada em sua mulher, na encruzilhada do Pau Grande, que quase a  fez abortar, da qual embigada  fez cair a dita sua mulher de pernas para o ar. Portanto pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório para Angola E.R.M. (p.54).

          A comicidade da cena fica também no jogo das palavras que trazem uma conotação maliciosa, se não da parte da personagem, pelo menos da parte do espectador/leitor. Esta é outra característica do estilo de Martins Pena que não passou da “pilhéria das situações equívocas, da graça dos ditos mais ou menos pesados, do trocadilho mais ou menos picaresco”( ROMERO,1985. p.1362). Note-se o tom chocarreiro das palavras de Manuel João à mulher quando chega em casa:

… Limpei o mandiocal que estava muito sujo . . .Limpei a vala da Maria do Rosário, que estava muito suja e encharcada . . . (p.51).

            Uma outra demanda, na CENA XI, é aquela que diz respeito ao leitão que, furou “a cerca do Sr. Tomás pela parte de trás, e com a sem -cerimônia que tem todo porco, fossasse a horta do mesmo senhor”(p.55). Além do sentido malicioso dos termos, fica evidenciado, mais uma vez, a pequenez das causas que levam à demanda. E a maneira como o juiz resolve a pendenga é a sua forma mais clássica:  tirar proveito das situações apresentadas:

 Juiz – Senhor Escrivão, chame o meirinho. (os dous apartam-se) Espere senhor Escrivão, não é preciso. ( Assenta-se) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma  pessoa. Não digo que mo deem (p.55).

            O jogo de palavras ou o trocadilho são muito interessantes num requerimento enviado ao juiz, ainda na CENA XI, a que se ocupa propriamente das demandas:

égua e poltrinho

Escrivão, lendo – Diz Francisco Antônio,   natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. ‘Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de milha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher’ (p.56).

            Veja-se que somente  na última vez em que se refere ao filho da égua é que o requerente diz que a mesma é de sua mulher. Das vezes anteriores, faz o trocadilho e provoca, com isso, o riso.  A facilidade com que joga com as palavras faz de Martins Pena o mestre da sátira no teatro romântico brasileiro.

            Nesta comédia, as cenas mais engraçadas são aquelas que se passam nas audiências do juiz de paz. Este despacha requerimentos cheios de besteiras e de insensatez e, esperto como é, faz-se presentear pelas partes interessadas e é ridículo o bastante para se achar competente  até para mudar a Constituição. A figura do juiz,  bem como a dos roceiros, é burlesca, é caricaturesca  como já o vimos com Manuel João. Em sua sala de despachos, o juiz apresenta-se de forma ridícula:                                     

                                 CENA IX
 Sala em casa do Juiz de paz. Mesa no meio com  papéis; cadeiras. Entra o  juiz de paz vestido de calça  branca, rodaque de riscado, chinelas verdes e sem gravata (p.53).

            Este tipo de juiz  de  paz, tanto no aspecto da aparência física  quanto no que diz respeito à moral  e à  “competência”,  tornou-se  mais ou  menos clássico entre os brasileiros e um dos melhores  da comédia  no  século XIX. É  cômico o fato do juiz  embaraçar-se  quando aparece uma causa mais difícil. Não  sabe que despacho dar,  no que é questionado pelo  escrivão: “-Vossa Senhoria não se envergonha sendo um juiz de paz?” Ao que tem como resposta:

Juiz -Envergonhar de quê? O Senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juízes de direito há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juízes de paz . . . E além disso, cada um faz o que sabe…(p.60).

            As palavras do juiz põem à mostra em que estágio se encontravam as leis e os homens responsáveis por elas no Brasil daquele tempo e mostram bem o espírito de galhofa do autor. A  sátira fica instaurada.

            Martins Pena  não teve um espírito poético. Não frequentou as regiões das paixões terríveis, não falou do amor como falaram  Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu ou Castro Alves, na poesia, ou como Alencar e Macedo, na prosa. Não chegou ao lirismo das “altas regiões etéreas das douradas cismas”.  Vê-se, por exemplo, o relacionamento amoroso entre Aninha e José. Não há o desespero dos grandes apaixonados. Se no encontro dos dois, ele, esperto, tenta beijá-la, é reprimido por ela com o argumento de que os rapazes que conhecem a Corte, voltam de lá perdidos. A proposta de casamento e de fuga feita a ela com promessa de levá-la para a Corte está muito mais relacionada com o temor do rapaz de ser preso como recruta para a Guerra do que propriamente com o amor. Casando-se, estaria dispensado de servir à pátria, como ocorreu:

Manuel João -Este rapaz não pode ser soldado.
Juiz -Oh, uma rebelião? Sr. Escrivão, mande convocar a Guarda Nacional e oficie ao Governo.
Manuel João -Vossa Senhoria não se aflija, este homem está casado.

            José é definido pelo juiz como um “biltre”, ou seja, um homem vil, abjeto, infame. Mas isto não é motivo para pendengas. O melhor é festejar o casamento e tudo termina em um  “fado bem rasgadinho . . . bem choradinho” (p.61) em casa do juiz. Fica aí ironizado o aspecto da esperteza daquele que, provinciano, conhece os valores da cidade (a Corte) e tenta colocá-los em prática com mocinhas simplórias da roça. Ironizado está também o casamento por interesse, seja ele qual for.

           Outra questão posta em evidência na peça, embora sem nenhum destaque, ficando mais a cargo da perspicácia do leitor/espectador, é a situação da mulher na sociedade daquele tempo. A mulher serve à casa e ao marido, esta é a  sua função. A mulher cose, cozinha, colhe café, faz o jantar, prepara a jacuba para o marido. Não há nenhuma referência mais importante a seu papel.

        O espírito de uma sociedade pode ser observado através da obra de um autor. Martins  Pena  foi hábil em mostrar a sociedade brasileira de seu tempo,  mas o fez muito mais através das situações em que colocava suas personagens do que propriamente pelo enredo. Estes eram simples, geralmente, muito simples.

            O juiz de paz na roça “é a pintura crítica das cousas judiciária de nossas povoações do interior, pelo menos de 1840, e ainda hoje é  de uma  veracidade irrecusável”( ROMERO, 1985, p. 1359). É, ainda, a crítica dos costumes das povoações  rurais, metidas em pendengas por pequenas causas e caindo, por isso mesmo, em situações ridículas. É o povo simplório e simples, que se deixa explorar com uma ingenuidade de fazer dó.

       Martins Pena reproduz com fidelidade o seu tempo, com os vícios e as peculiaridades cômicas da gente que formava aquela sociedade. Não focalizou os perigos, os riscos de vida, o trágico. Ficou no cômico, levou o público à  sátira e ao riso sem esperar daí nenhuma consequência. Valorizou a cor local, mostrou o brasileiro aos brasileiros, fotografou espontaneamente a primeira metade do Séc. XIX. Seus escritos são documentos valiosos, que reconstituem a “fisionomia moral” da época. No entanto, a lição que nos deixa sobre a sociedade brasileira não é nada lisonjeira.

      Em termos de registro da sociedade da época, Martins Pena leva uma grande vantagem sobre os seus contemporâneos Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias

5.1- O espaço e as personagens

         Em O juiz de paz na roça, o espaço é típico da zona  rural, próximo à Corte. Manuel João e sua família são lavradores, trabalham  na roça criando galinhas, plantando e colhendo café:

    Manuel João – … Olá, Agostinho, leva as enxadas para dentro e vai botar este café no sol… (p. 51).

       colheita do café Outra referência ao cultivo do café vê-se quando o roceiro diz à filha Aninha: “Quando acabares de jantar, pega em um samburá e vai colher o café que está a volta da casa”(p.51). Pode-se observar que a situação dos lavradores não é das melhores: Manuel João trabalha descalço, não pode pagar mão de obra que o ajude na lida com a terra, veste-se mal.  Não usam talheres durante as refeições, alimentam-se muito mal (carne seca muito dura, feijão e laranjas azedas). Talvez, por isso, o juiz esconda o prato na gaveta da mesa ao chegar o escrivão. Para o negro, menos ainda: “Pois coma  laranja com farinha que não é melhor do que eu”(p.51).

            O espaço determina os tipos humanos que nos são apresentados: pessoas simples, sem nenhum preparo, sem senso crítico, que se deixam explorar. Ironicamente, deste meio sai alguém que serve à Guarda Nacional, no caso, Manuel João que deixa prevalecer a autoridade do juiz de paz.

            Os lavradores, que fazem os requerimentos, mal vestidos, descalços ou que calçam meias e sapatos somente para entrar na sala do juiz, são pessoas que, com a simplicidade peculiar do homem da roça naquele tempo,  deixam-se explorar sem nenhuma consciência do fato.

          A “freguesia” a que se refere José, quando fala do casamento, parece ser uma aldeia, uma vila em que há um vigário, uma venda, a do Sr. Manuel do Coqueiro e, com certeza, o que há em qualquer  vilarejo, mas sem que se faça a isto alguma referência.

            Por ser um espaço típico da roça, canta-se e dança-se ao som da viola, costume típico das regiões interioranas do Brasil naquela época e que se vê ainda hoje.

5.2-  O TEMPO

            O tempo, na peça, corre cronologicamente, até mesmo por ser uma comédia e, por isso, de enredo muito simples. Os acontecimentos seguem o esquema de começo, meio e fim e ocorrem no presente, sem recuos para lembranças.

        A referência à Guerra dos Farrapos torna evidente que os fatos ocorrem num espaço de tempos que se situa entre 1835-1845. Se em  Memórias de um sargento de milícias, de Almeida, os fatos se passam no período que marca a presença da Família real no Brasil  ( primeiras duas décadas do Século XIX ), em O juiz de paz na roça os acontecimentos dão-se durante a regência ou no início do Segundo Reinado.

5.3- A LINGUAGEM

        Os diálogos em   O juiz de paz na roça são veiculados numa linguagem não muito própria dos habitantes da roça, prevalecendo a linguagem culta do autor, com colocações pronominais corretíssimas, seja em próclise ou em ênclise: “E que me importa eu com isso?”(p.52) ou “… se o juiz de paz cá viesse buscá-lo, não tinha mais que iscar a Jibóia e a Boca-Negra.”(p.52) . O uso das formas verbais é também perfeito, não bastasse a utilização da segunda pessoa, como se pode ver na fala de José:

José – Sim Senhor, seu marido. Há muito tempo que nos amamos , e sabendo que não nos daríeis o vosso consentimento, fugimos e casamos na freguesia (p . 58).

          Os requerimentos dos lavradores também são redigidos numa linguagem que, afora os trocadilhos, são pautados pela língua culta em que os pronomes de tratamento são corretos, os verbos conjugados de forma perfeita, ainda mais no que diz respeito ao imperativo: “Portanto, pede a Vossa Senhoria que mande o dito Gregório degradado para Angola.” (p.54); “Assim, peço a V. Sa. que mande entregar-me o leitão”(p.55).

            Essa correção na forma de falar e a utilização de um vocabulário mais culto são observadas em todas as falas dos lavradores. Manuel  João sabe dar ordens, colocando verbos e pronomes em tempos e modos corretíssimos, No entanto, para afigurar a catástrofe que era a Justiça no Brasil da época, o escrivão é quem mistura as pessoas verbais, falando ora na segunda, ora na terceira pessoa e o juiz é quem se  atrapalha, às vezes, quando algum dos lavradores usa uma palavra que ele, juiz de paz, não conhece, como é o caso de “circunlóquios… que nome mais em breve! O que quererá dizer?”(p.53). Para um juiz despreparado e incompetente que não sabe, em alguns casos, que despacho dar aos requerimentos, isso não é de se estranhar.

            A linguagem de Aninha, Maria Rosa, Manuel João, José e demais lavradores soa um tanto falsa, inverossímil, uma vez que despreparados são para usarem a língua portuguesa no padrão culto. Mas Martins Pena, em outras peças, consegue com habilidade colocar na boca de suas personagens, a linguagem que lhes são características, seja o cenário a roça ou a Corte. Mesmo assim, devido à comicidade das situações, ao ridículo em que coloca as personagens em  O juiz de paz na roça, os diálogos, sejam falados ou escritos (requerimentos lidos), soam de forma agradável e provocam o riso.

CONCLUSÃO

            O texto dramático traz consigo elementos do texto narrativo, mas deverá ser representado no palco. É escrito com detalhes que são característicos do texto a ser encenado.

            O teatro nacional sofreu realmente um grande impulso durante o Romantismo quando passou a focalizar a realidade e os motivos brasileiros.

            Martins Pena foi o grande mestre do nosso teatro na primeira metade do século XIX. Num momento em que se buscava uma consciência nacional e um rompimento com as formas clássicas, ninguém melhor do que ele conseguiu abandonar os velhos modelos  para se voltar para a realidade brasileira, mostrando-a de forma cômica, engraçada mesmo, mas à luz da observação do real.

            Suas comédias mostram o Brasil da Regência e dos primeiros anos do Segundo Reinado. Começa pelos costumes do homem da roça como é o caso de O juiz de paz na roça, A família  e a festa na roça, registrando a linguagem, os trajes, os hábitos, os costumes. Com o mesmo senso de humor, que parte para a ridicularização e para a caricatura, focaliza, em outras peças, o homem da cidade mostrando-lhes os vícios e os defeitos, deixando sempre implícito  o elogio aos bons costumes.

                Na peça em estudo, Martins Pena  satiriza a arbitrariedade e a venalidade do juiz de paz, modelo do que ocorria no Brasil, como ironiza a ignorância dos roceiros simplórios que se deixam  explorar, sem a menor consciência do fato.

            O talento de Martins Pena não tem complicações, seu estilo é simples, não causando nenhuma dificuldade de entendimento. Observador por instinto, não é tendencioso nem moralista. As cenas familiares de suas comédias de costumes são verdadeiras, escritas com singeleza. Focaliza a sociedade sem censura, sem usar um tom grandiloquente, sem filosofias. Mostra essa sociedade que existe pelo Brasil afora através da linguagem, dos gestos e dos trejeitos das figuras que põe em cena.

            O iniciador do verdadeiro teatro brasileiro pertence à primeira geração dos românticos.  Era uma inteligência notável, sabia observar e reproduzir facilmente  o que via com graça, com espírito. É um dos pontos centrais da história do desenvolvimento da arte dramática do Brasil.

REFERÊNCIAS

1- ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo:  Ática, 1979.

2- ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Rio de Janeiro: Tecnoprint. s/d.

3- BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.

4- MAIA, João Domingues.  Literatura : textos e técnicas. São Paulo: Ática. 1995.

5- PENA, Martins. O noviço. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995.

6- ______. O juiz de paz na roça. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995.

7- ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira.  Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.

8- SODRÉ,  Nelson Wernek. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1976.

9- SILVA, Vítor Manuel de Almeida. Teoria da literatura. Coimbra:  Almedina. 1976.

 

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