O Alienista – Machado de Assis

 

1- SÍNTESE HISTÓRICA

            Machado de Assis e seu tempo

            Uma das alternativas para se chegar à obra de um determinado autor é situá-lo no tempo de sua atuação. O próprio Machado de Assis um dia disse: “Eu sou um peco fruto da capital, onde nasci, vivo e creio que hei de morrer…” Todos sabemos que o seu campo de atuação foi a cidade do Rio de Janeiro na segunda metade do Século XIX. Belezas e costumes da cidade maravilhosa podem ser visualizados em sua obra, mas o que realmente interessa nesse cenário é o homem que o habita.

            Machado de Assis, conhecedor que era do espírito humano, em nenhum de seus textos cantou glórias à sociedade burguesa. Ao contrário, falou dela com certa dose de ironia, ridicularizando-a, mostrando o egoísmo que imperava nas altas rodas da classe dominante, a frivolidade e a ambição. Nas histórias e nos seres que criou, na análise de muitas de suas personagens, não se encontra o aplauso fácil ou a subserviência, mas o riso de desdém de alguém que, como poucos, conhecia a condição humana.

            Em toda sua obra, Machado de Assis analisa o homem de seu tempo. Embora situando-o no Rio de Janeiro, é o homem que, dividido, atravessa séculos falando, agindo e se comportando como um ser contraditório, fragmentado. Como a dualidade é a característica que iguala o ser humano, o homem entrevisto na obra machadiana mostra-se universal. Essa universalidade torna Machado de Assis um autor atual e sua obra permanece viva. Domício Proença Filho afirma que:

          Sua obra permanece atual na medida em que em textos multissignificativos, evidencia, a partir do seu testemunho sobre o homem e a realidade do seu tempo, questões relacionadas com o homem de todas as épocas, numa temática que envolve, entre outros destaques, o amor, o ciúme, a morte, a afirmação pessoal, o jogo da verdade e da mentira, a cobiça, a  vaidade, a relação entre o ser e o parecer, as oscilações entre o Bem e o Mal, a luta entre o absoluto e o relativo(FILHO, 1986, p. 7).

            As personagens de Machado de Assis são o espelho da alma humana com seus anseios, temores, ambições, egoísmo, sensualidade, paixões. Nunca são apresentadas como um simples “feixe de nervos”, mas como seres morais, fortes ou fracos, retos ou tortuosos em quem a vontade existe ou não existe. O autor, na análise de suas criaturas, mostra-se como senhor de critérios seguros para a apreciação das personagens, como se pode observar em “O alienista” em que tece a personalidade de Simão Bacamarte e de todos aqueles que lhe rodeiam. Mostra, por exemplo, o autoritarismo e a frieza do cientista; a vaidade e a covardia do farmacêutico Crispim Soares; o temor e a revolta da população; a ambição pelo poder por parte do barbeiro Porfírio; a insegurança de Dona Evarista; a bajulação de Martim Brito; a condescendência do padre Lopes; os limites entre a razão e loucura dos dementes da Casa Verde.

      Machado de Assis produziu sua obra numa época marcada por grandes transformações: o assunto social – a defesa do negro; o Positivismo de Augusto Comte, com a sistematização do conhecimento; as influências do Determinismo e do Evolucionismo; o império do ceticismo (década de 80); a anarquia mental; o negativismo religioso; a defesa da República como meio necessário à demolição da estrutura do Estado, entre outras

            O impacto das novas ideias na transformação social do final do Século XIX foi profundo na mentalidade brasileira. Machado de Assis, atento a todas estas transformações, mas voltado para o mundo interior do homem de seu tempo, procurou analisar a alma humana, buscando nas suas reações aquilo que a caracterizava. Criou um estilo próprio em que critica o cientificismo da época e que não segue regras preestabelecidas.

2- MACHADO: ROMÂNTICO OU REALISTA?

            Machado de Assis 2A crítica costuma dividir a obra machadiana em duas fases: romântica e realista. A primeira com Ressurreição, Iaiá Garcia, A mão e a luva (romances); Contos fluminenses e Histórias da meia-noite (contos). Alguns críticos menos avisados consideram que essas primeiras obras são de pouco valor, não atentando para a antecipação de Machado, indício de modernidade, porque o autor não se filiou às normas de escolas literárias, tendo incorporado características que vão do Barroco ao Modernismo.

            É realista por situar-se no Realismo, mas, contrariando os preceitos da época, foi além, demonstrando que seu estilo ultrapassa as normas da escola em voga. Essa mesma crítica literária afirma a ideia de que a segunda fase de Machado de Assis (realista) é a mais madura, é aquela que lhe conferiu o título de maior escritor brasileiro. Foi nessa fase que surgiram os romances: Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1906), e os contos: Papéis avulsos (1882), livro que inclui “O alienista”; Histórias sem data (1884), Várias histórias (1896), Páginas recolhidas (1899), Relíquias da casa velha (1906),  além de poesia e teatro.

            A crítica moderna, entretanto, ignora essa divisão da obra machadiana em fases romântica e realista, observando que o germe do que seria a chamada fase madura está nas primeiras obras. Já nos primeiros contos e romances, o leitor apreciará a análise psicológica; o jogo de interesses como móvel da sociedade burguesa; o humor; o jogo entre essência e aparência; o pessimismo; a metalinguagem; a intertextualidade; a ambição, a hipocrisia e o adultério como marcos nas relações humanas; o estilo apurado e conciso que se faz através da sinuosidade que rompe com os princípios aristotélicos de princípio, meio e fim. São características do estilo de Machado de Assis que se vê nas chamadas fases romântica e realista, o que nos faz concluir que não há uma ruptura abrupta de uma suposta fase para a outra. Tudo o que se fez a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas vinha sendo sedimentado nas obras anteriores.

3- CARACTERÍSTICAS GERAIS DO ESTILO MACHADIANO

            Além do que dissemos anteriormente a respeito do estilo de Machado de Assis, fazem-se necessários alguns comentários que nos levarão a um entendimento maior de sua obra.

            Há em Machado elementos impressionistas como a recordação do passado através da memória; elementos clássicos como a concisão e a contenção lírica; a atitude crítica e a objetividade dos realistas; a modernidade através do rompimento com o linear; o elíptico, a alusão por meio do não-dito, da obra aberta que permite várias interpretações.

     Na construção do elíptico, do fragmentário, Machado de Assis promove suas digressões através de alguns artifícios como:

a) Intertextualidade, citando obras e arquétipos universais. Entre os vários exemplos em “O alienista”, vemos a citação de Cícero, Apuleio, Tertuliano, o Cântico dos cânticos, de Salomão, bem como menciona um trecho do Gênesis(10,9) de forma paródica:

Talvez um sorriso lhe descerrou os lábios, por entre os quais filtrou esta palavra  macia como o óleo do Cântico(p.108).
Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. (p.101).

b) Conversa com o leitor, fazendo com que o narrador intervenha na história, com a finalidade de trazer o leitor à realidade de que está a ler uma obra de ficção:

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua (p.136).

c) Metalinguagem, ou seja, o comentário da obra dentro da obra. Assim sendo, Machado de Assis, além de ir, através do narrador, explicitando os recursos por ele utilizados na elaboração da obra, faz com que o leitor não se esqueça do criador do texto, lembrando que, por detrás do narrador, está o autor no comando da criação literária:

O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense, é de tal ordem, e tão inesperado que merecia nada menos que dez capítulos de exposições, mas contento-me com um, que será o remate da aventura(p.141).

            O problema central da obra machadiana é a questão do eu, da identidade. Em meio aos questionamentos do ser, surgem os desdobramentos da personalidade e os limites da razão e da loucura, temas centrais do romance Quincas Borba e do conto “O alienista”.

d) O Humanitismo, discutido em Memórias póstumas de Brás Cubas e colocado em prática em Quincas Borba, pode ser visto como uma sátira às teorias cientificistas do final do século, principalmente à teoria da seleção natural de Darwin, a luta pela sobrevivência, a lei do mais forte que faz sucumbir os mais fracos

casa verde

       Analisado sob este aspecto, no conto “O alienista”, a Casa Verde pode ser vista como o poder que subjuga. O médico alienista, que representa a ciência, a lei e a ordem, é a força que faz os habitantes de Itaguaí se submeterem à tirania dos seus conhecimentos científicos. As pessoas passam a ser “normais” ou “anormais” conforme as convicções do médico, Simão Bacamarte, o que gera o pânico e a insatisfação.

Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo (p.132).
Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo… que não fosse logo metido na Casa Verde(p.134).

e) A busca pela perfeição: A impossibilidade do homem de se realizar por inteiro gera um vazio e uma ansiedade muito grandes. Nesta busca da perfeição, o homem constata a extensão de sua fragilidade e acaba por reconhecer a precariedade de sua condição. As personagens machadianas, caracterizadas pela divisão, demonstram essa limitação quando se debatem na luta entre o interno e o externo. A imperfeição dá ao homem a noção dos seus limites; a perfeição, por outro lado, vem como revelação e denúncia da vaidade humana. Assim é que Bacamarte, tido e havido como “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, trancou-se na Casa Verde para o estudo de si mesmo, depois de nada conseguir provar com suas teorias científicas.

f) Essência versus aparência: A convivência humana demonstra ser baseada nas contradições. Em seus textos, Machado de Assis faz comparações que levam ao entendimento de que os homens se mostram ou se escondem na eterna luta entre o ser e o parecer. Além da disputa entre o ser e o seu semelhante, como se vê em “O alienista”, aparece ainda a luta do homem consigo mesmo, debatendo-se, dividindo-se a todo instante. Segundo Nádia Gotlib,

os contos machadianos traduzem perspicazes compreensões da natureza humana, desde as mais sádicas às mais benévolas, porém nunca ingênuas. Aparecem motivadas por interesse próprio, mais ou menos sórdido, mais ou menos desculpável. Mas é sempre um comportamento duvidoso que nunca é totalmente desvendado nos recônditos segredos e intenções (GOTLIB, 1986, p. 87).

g) O Pessimismo, oriundo da convivência humana, fez Machado de Assis apresentar o homem em seus aspectos mais negativos, daí o escritor mostrar o momento crucial da indecisão: ser ou não ser? ganhar ou perder? mostrar-se ou esconder-se? optar pelo Bem ou pelo Mal? Suas personagens, boas ou más, devem ter força suficiente para agirem e reagirem diante da vida e de suas contradições numa crítica ao Determinismo. A preferência recai sobre personagens que surpreendam o leitor como Simão Bacamarte em “O alienista”. Em decorrência do autoritarismo do médico, revelam-se a angústia, o medo, as dúvidas e o pessimismo das demais personagens do conto, como é o caso do boticário ao saber que o barbeiro iria à casa do alienista:

E redobraram-lhe as angústias. Com efeito, a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda a descrição possível. Nunca um homem se achou em mais apertado lance: -a privança do alienista chamava-o ao lado deste, a vitória do barbeiro atraia-o ao barbeiro. Já a simples notícia da sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma, porque sabia a unanimidade do ódio ao alienista; mas a vitória final foi também o golpe final(p.129).

h) A ironia machadiana é muito refinada, sutil, considerada por muitos, herança do humor inglês, e vem, muitas vezes às avessas. Critica e ri seu riso “encolhido” quando cria uma personagem que lhe serve como móvel para ironizar a condição humana e o cientificismo da época. Como o seu principal objeto de análise é o homem, o autor detém-se nas minúsculas reações do comportamento do homem. Em outras palavras, encontra no seu semelhante as suas próprias tendências, ou seja, as suas qualidades e os seus defeitos. Fala do homem como se falasse de si próprio. Disseca a interioridade do ser através da percepção. Um exemplo são as teorias defendidas por Simão Bacamarte na Casa Verde de “O alienista”. Quem estaria por detrás de Bacamarte senão o autor em suas experiências com o homem. A ironia aparece no fato de o “louco” ser considerado “são” e o “são”, “louco” ou de que o próprio Simão Bacamarte seria o único louco da cidade, conforme o presidente da Câmara: “Quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (p.28), o que parece ficar comprovado no final.

Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; paraceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; (…) (p.114).

            Outro exemplo de ironia está no discurso de Martim Brito: “Deus quis vencer a Deus e criou Dona Evarista”(p.119) que representa a crítica à bajulação vista em tantos outros textos do autor em estudo. Ainda em “O alienista”, encontramos outra excelente pincelada da ironia em relação ao comportamento humano: “Não há remédio para os males da alma: esta senhora definha porque lhe parece que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se”(p.108). A sugestão aqui é ao que se refere à capacidade que tem o ser humano de substituir um objetivo por outro, ou até mesmo de superar um problema de ordem existencial em troca de um bem material; de preencher um vazio com algo aparentemente supérfluo, como a viagem de Dona Evarista ao Rio de Janeiro em troca das atenções e do amor do marido.

           A ironia revela-se, ainda, no fato de Dona Evarista, apesar de reunir todas as condições “fisiológicas e anatômicas” necessárias, não ter dado filhos ao alienista que a escolhera amparado pelas teorias científicas.

             Em busca da universalidade tão almejada, ou seja, do homem universal em todas as épocas, e em todos os lugares, Machado de Assis captou na sociedade carioca de seu tempo, os temas de sua obra. Sem jamais recair sobre o típico ou pitoresco, sobre o exótico (dos românticos) ou a cor local (dos realistas), o “bruxo do Cosme Velho”, como ficou conhecido, buscou a essência humana, o filosófico, o psicológico.

4- CONTO PSICOLÓGICO

           Os contos psicológicos são aqueles em que Machado de Assis fundamenta estranhas teorias sobre o comportamento humano, como em “O segredo do Bonzo”, “Teoria do medalhão”, “A igreja do diabo”, “A sereníssima república”, “O alienista”, entre outros.

            Nesse tipo de conto, “implicando uma visão profunda, e mesmo filosófica da existência, o autor oferece a síntese generalizada das observações que a vida lhe permitiu fazer acerca dos homens e do mundo” (MOISÉS, 1971, P,129).  O objetivo é fazer com que haja a concretização de uma ideia, mesmo através dos elementos comuns a todos os contos: personagens, enredo, espaço e tempo. Essa ideia vai se emergindo identificada com a ação e com as personagens. O autor não a lança aprioristicamente, mas vai expondo-a à medida em que narra.

            Como a ideia do conto vai se lançando por meio das personagens, estas, muitas vezes, tornam-se símbolos, já que o contista as utiliza como meios expressivos da convicção veiculada pelo texto. Simão Bacamarte é o símbolo do saber duvidoso que não se revela. Ao mesmo tempo, revela-se como uma personagem cheia de magnetismo que envolve facilmente as pessoas, característica que lhe é conferida pelo próprio nome.

            No conto “O alienista”, a ideia central está no estudo da loucura por Simão Bacamarte. Como se sabe, o alienista resolveu isolar na Casa Verde todos os loucos de Itaguaí e adjacências para teorizar a loucura, classificando-a de acordo com suas causas, manias, classes (furiosos e mansos), hábitos, delírios:

Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio…
A mania das grandezas tinha exemplares notáveis…outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente…
Não falo dos casos de monomania religiosa…(p.105)

            O alienista- hostiltalO estudo da loucura leva Simão Bacamarte a, praticamente, esvaziar a Vila de Itaguaí, o que provoca o pânico generalizado. Mais tarde, o alienista liberta os supostos loucos e leva para a Casa Verde exatamente aqueles que nunca saíram do estado pleno de equilíbrio mental. Finalmente, o médico tranca-se sozinho no hospício, servindo-se de cobaia para a efetivação de suas pesquisas e experiências científicas. São ações que ele vai praticando no decorrer da narrativa. Segundo Todorov(1970, p. 121), “a narrativa psicológica considera cada ação como uma via que abre acesso à personalidade daquele que age, como uma expressão senão como um sintoma. A ação não é considerada por si mesma”. Portanto, ela é reveladora.

            No conto em estudo, todas as peripécias, inclusive aquelas que tendem ao sarcástico ou ao cômico, como a do barbeiro assumindo o poder em Itaguaí, estão aliadas com o objetivo de mostrar ao leitor que Simão Bacamarte assume as funções que estão na própria ideia de ciência. Ocorre que esta ideia é muito rica e polivalente o que possibilita várias interpretações. Ironicamente, uma delas é a de que o autor quer dizer que nada se sabe da espécie humana. Uma outra seria que a Ciência é cega em face do homem. Afinal, quem é louco? Quem não o é? Onde está a verdade? E o que ela vale? Quem é o alienado? Seríamos todos nós?

            Enquanto Simão Bacamarte procede ao estudo da loucura, Machado de Assis, através do narrador e das personagens, vai analisando a alma humana, descortinando-lhe a ambição, a mesquinhez, o egoísmo, o autoritarismo, o sarcasmo, o jogo de interesses e outros sentimentos menores que denigrem a imagem do homem. As ações da narrativa são o meio para o autor atingir o seu fim.

5- O NARRADOR TRANSCRITOR

             Machado de Assis trabalha, primorosamente, tanto a primeira quanto a terceira pessoas verbais. Observa-se nos romances e em grande parte dos contos a preferência pelo relato em primeira pessoa com alguma intenção secreta. Como o seu objetivo é a análise do ser, torna-se mais conveniente um homem falar de si mesmo, daí que o “eu” do narrador facilmente incorpora-se ao “eu” do leitor. Estabelece-se um elo maior entre aquele que conta e aquele que lê.

            Já o foco narrativo em terceira pessoa favorece a onisciência do narrador, uma vez que este enxerga mais longe, penetra na interioridade das personagens, devastando-lhes regiões obscuras da mente.

           Outro artifício que o autor usa é fazer parecer que o narrador é mero “transcritor”, ou seja, conta o que ouvira contar ou o que lera anteriormente. É o caso do narrador em “O alienista” que atribui o conhecimento que tem dos fatos às crônicas de Itaguaí. Fazendo assim, além de se liberar de qualquer responsabilidade sobre o relato, o narrador utiliza-se da crônica histórica.

As crônicas de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas (p.101).
O momento em que D. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido é considerado pelos cronistas do tempo como um dos mais sublimes da história moral dos homens…(p.117).

            O narrador transcritor sente-se na necessidade de explicar ao leitor como foi que tomou conhecimento dos fatos e, na medida em que se coloca como transcritor da história lida nas crônicas, o narrador dá a si mesmo o direito de utilizar uma primeira pessoa que, às vezes, se intromete nos fatos, dá palpites, faz comentários:

 Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer que o barbeiro ia à casa do alienista…Com efeito, a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda descrição possível(p.129).
Os velhos cronistas são unânimes em dizer que a certeza de que o marido ia colocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do boticário; o notam, com muita perspicácia, o imenso poder moral de uma ilusão(p.130).
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala… Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro… Os pés…eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: – só lhe notava luxo naquilo que era de origem científica (p.143).

            A falta de completa imparcialidade do narrador ao usar a primeira pessoa ou ao dar sua opinião sobre fatos e personagens, como nos trechos transcritos, é um artifício do narrador transcritor. A impossibilidade da total neutralidade é um móvel secreto deste tipo de técnica que, em lugar de um discurso completamente imparcial e impessoal, o narrador prefere anular-se ao revelar que está transcrevendo ou torna-se intruso ao usar a primeira pessoa do verbo.

            A técnica do narrador transcritor utilizada por Machado de Assis em “O alienista” confere verossimilhança e credibilidade aos fatos exatamente porque reúne provas e indícios de realidade, de documento. O fato de buscar as crônicas da cidade faz com que o leitor remonte à história “real” de Itaguaí. As personagens e a Casa Verde passam a ter existência “comprovada”. A crônica histórica (os relatos lidos pelo narrador transcritor) dá a ele subsídios para criar a sua narrativa e convencer o leitor.

6- O ALIENISTA- CONTO OU NOVELA?

            O conto  “O alienista”, pela sucessão de fatos, de ações,  assemelha-se à novela. Além de longo, apresenta-se dividido em capítulos, o que seria mais comum ao romance e à novela e não ao gênero em estudo.

            O romance caracteriza-se pela narrativa longa; a novela por ser intermediária entre o romance e o conto e este por ser uma narrativa curta. Por narrativa curta, entenda-se aquela que possui uma unidade de ação ou conflito.

            Em “O alienista”, apesar da extensão da história e da grande quantidade de personagens e ações, estas estão todas centradas e condicionadas a Simão Bacamarte e às suas pesquisas científicas.

            Se as personagens andam pela Vila de Itaguaí; se Dona Evarista vai ao Rio de Janeiro, as ações estão todas direcionadas à Casa Verde. Nenhuma cena da mulher do alienista na Corte é narrada e aquelas que se passam na Câmara ou nas ruas têm como objetos principais a Casa Verde e o médico. Itaguaí é o único espaço percorrido pelas personagens.

            Portanto, a estrutura da narrativa aproxima-se mais do conto, embora seja difícil limitar a obra machadiana dentro de categorias específicas, pois o autor sempre agiu com plena liberdade e a tudo deu o toque de sua genialidade, até nos gêneros literários.

 7- A CRÍTICA AO CIENTIFICISMO

          Algumas teorias surgidas em decorrência das solicitações materiais da época deram fundamento ideológico à literatura do Realismo/Naturalismo. Machado de Assis, avesso à grande invasão do desenvolvimento científico que chegava e condicionava a obra literária, dá a sua resposta irônica criando as suas próprias teorias.

            Quincas BorbaDaí percebermos em suas obras várias referências às ciências como leis, doutrinas, teses, teorias, experiências. Os melhores exemplos que temos estão na teoria do “Humanitismo” defendida por Quincas Borba no romance homônimo e na figura de Simão Bacamarte, de “O alienista”, o cientista que, encerrado em seu “laboratório”, estuda os vários tipos humanos. A personagem é uma crítica principalmente ao Naturalismo quando busca, desesperadamente, as causas da loucura. Ele próprio diz:

O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhes os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal (p.104).

            A ironia machadiana em relação ao cientificismo questiona também o comportamento humano em relação à solidariedade e à caridade. Ao cientista não importam estes sentimentos menores, maiores são os interesses da ciência.

-A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: ‘Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada’ (p.104).
 Simão Bacamarte, quando da escolha de sua futura companheira, explicava: Dona Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bons pulsos e, excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes (p.101).

            Na escolha da esposa não entram elementos como o amor, a admiração, a atração. Apenas a ciência a justifica. No entanto, Dona Evarista é estéril e eles não têm filhos. As teorias científicas são levadas ao ridículo.

            O conto “O alienista” faz configurar um questionamento acerca dos limites entre a normalidade e a loucura, além de constituir-se na crítica machadiana ao cientificismo. O comportamento de Simão Bacamarte é próprio dos homens voltados à ciência, numa época em que para tudo havia uma explicação científica: “Homem de ciência e só da ciência, nada o consternava fora da ciência”. A crítica é tão radical que põe, inclusive, os sentimentos familiares em segundo plano, de acordo com a visão do médico:

 -Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a  voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
-Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica
(p.110).

         Este desvario científico de Simão Bacamarte inculca o medo nas pessoas que podem, de um momento para outro, por um pequeno deslize, ser consideradas loucas, a ponto de o padre Lopes confessar que “não imaginava a existência de tantos doidos no mundo”(p.105). Ao final, o alienista julga a perfeição de suas qualidades morais e intelectuais sintomas de demência e recolhe-se na Casa Verde como o primeiro exemplar de uma nova teoria: “Reúno em mim mesmo a teoria e a prática” (p.145) disse ele. Até as decisões da Câmara estiveram condicionadas ao interesse da ciência, não que os vereadores acreditassem nelas, mas pelo medo de irem contra as convicções de Simão Bacamarte.

            Interessante observar que, do início de suas experiências até chegar à conclusão final, Simão Bacamarte reconheceu que era preciso repensar os fundamentos de suas teorias a respeito da normalidade e da loucura. Muda métodos e conceitos. Liberta da Casa Verde aqueles que eram considerados loucos e interna os que não se mostraram loucos até então. Ironicamente, vê-se como o único louco em Itaguaí, o que confirma as teorias dos leigos da cidade, ou seja, o alienista é que era o alienado. A sátira de Machado de Assis não perdoa os preceitos científicos da época.

            cientificismoFilósofos, artistas e cientistas, imbuídos dos conceitos materialistas do final do Século XIX, entusiasmados com o Positivismo de Comte, com o Evolucionismo de Darwin e Spencer, com o Determinismo de Taine, com o Experimentalismo de Bernard, buscavam nas novas teorias as matérias para o interesse científico, artístico e filosófico. Essas teorias, opondo-se à metafísica e à religião, buscavam na matéria o alvo de seus estudos e experiências. Machado de Assis, opondo-se a todo esse cientificismo, ri seu “riso encolhido” ao desentronizar a ciência, ao ridicularizá-la, ao questionar seu caráter infalível. Aquele ar de superioridade do cientista é caricaturado pelo “riso filosófico” de Simão Bacamarte, riso que não era mais que a leve contração de alguns músculos, sorriso que “não era coisa visível aos olhos da multidão” (p.125). Esse riso é uma forma de ironizar as teorias da época como também o meio utilizado pelo autor para, através da personagem, exteriorizar seu desencanto diante da miséria do homem.

            O alienista - Simão BacamerteO conto “O alienista” pode funcionar como uma imitação burlesca das teorias cientificistas da segunda metade do século. Machado de Assis critica a crença cega nos moldes científicos e o assentimento nas estatísticas que apareciam como verdades no campo do conhecimento científico-filosófico.

            Palavras como “Ordem”, “Progresso”, “Razão” e “Ciência” passaram a ser a tônica naquele momento histórico, tanto que o lema da nossa bandeira é um reflexo das teorias positivistas de August Comte. Simão Bacamarte, apegado aos modelos da época, levando ao extremo a sua adesão à ordem e à ciência, parte para um tipo de atitude que serve ao autor como móvel para sua crítica, o seu deboche, a sua zombaria.

8- SÁTIRA AOS COSTUMES POLÍTICOS

            A política não entra como tema na obra romanesca de Machado de Assis. Ela está mais presente nos seus artigos publicados nos jornais, mais como uma forma de participação que propriamente como objeto de análise. Machado fala de política sem grandes arroubos, sem grandes ódios, sem grandes demonstrações de amor pelas causas político-sociais.

            No entanto, em seu conto “A sereníssima república”, o autor  faz, segundo Alfredo Bosi(1970, p.203), uma “alegoria política em torno dos modos de resolver ou não resolver o problema da distância entre o Poder e o Povo” . Critica, nesse conto, as teorias “válidas no papel e mancas na prática”, realidade ainda hoje.

            Também em “O alienista” há uma notável crítica aos costumes políticos. Os vereadores de Itaguaí aprovam a criação do hospício a despeito da oposição popular; ignoram os abusos de poder do médico o que causa o pânico na população; agem com espírito de vingança, como no caso do vereador Galvão; legislam em causa própria como quando da proposta de uma emenda para que nenhum vereador fosse levado para a Casa Verde; votam a criação de impostos altamente ridículos (penachos nos cavalos) para que a Câmara pudesse ressarcir o alienista da despesa com os doentes carentes com o dinheiro do povo.

Dali foi à câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à câmara (p.103)

            Machado de Assis ironiza a ambição de poder através da mudança de atitudes de Porfírio, o simples barbeiro que passa aspirar ao cargo de vereador, o que era incompatível com a sua condição socioeconômica humilde. Através   do comportamento oportunista do barbeiro, comandando um movimento popular conhecido como “a revolta dos canjicas”, querendo tirar proveito da situação, o autor critica aqueles políticos que agem de acordo com os próprios interesses, nem que para isto tenham que mudar suas convicções. O autor denuncia os políticos que, ao assumirem o poder, passam a compactuar com os ideais da situação para a manutenção desse poder.

           Através dos políticos de Itaguaí, Machado de Assis satiriza  aqueles que, eleitos pelo voto do povo, logo se esquecem dos direitos e das reivindicações populares. Não refletem os anseios e as aspirações daqueles a quem representam. Iludem, tapeiam, trapaceiam utilizando-se de um discurso hipócrita e autoritário que engana o povo que, muitas vezes, se deixa levar pela força das imagens de uma retórica que impressiona, como é aquela utilizada por Simão Bacamarte e pelo barbeiro. Os políticos de Itaguaí, aparecendo sob um aspecto tão negativo, simbolizam todos os maus representantes do povo, o que vale ainda, e mais, para o Brasil de hoje.

            O alienista, neste conto, funciona como a metáfora do poder, ou melhor, do abuso do poder. Considerado sob este aspecto, o leitor conclui que numa leitura mais ampla, a ideia do conto deixa de ser apenas o desvario científico de um médico “louco” e atinge um aspecto mais aprofundado, ou seja, a crítica ao poder instituído, ao arbítrio.

            bastilhaAo comparar a Casa Verde com a Bastilha, o autor põe em questão os meios utilizados pela sociedade para afastar do seu convívio aqueles que podem representar perigo. Prisão (Bastilha) e hospício (Casa Verde) são instrumentos do poder. Se o político atinge seu status pelo voto popular, o cientista o atinge pelo seu saber científico. Simão Bacamarte põe em dúvida o poder desse saber, assim como os vereadores põem em dúvida a competência política. A ironia e o humor machadianos não perdoam.

 9- OS NOMES NA OBRA MACHADIANA

            Ao ler Machado de Assis nada pode parecer obra do acaso. Nele, as pequenas coisas é que podem ter grande importância, podem até caracterizar o homem. Ao leitor astuto devem chamar a atenção os pormenores, o não dito, as entrelinhas. Machado fala mais com o que insinua. Cabe ao leitor o trabalho de descobrir.

            Impossível ler a obra machadiana sem prestar atenção aos significados dos números, das cores, dos objetos e dos nomes. No próprio nome das personagens estão impregnados os caracteres de suas personalidades. O nome “Simão” revela um magnetismo pessoal tão forte que envolve facilmente as pessoas, além de ser muito meticuloso no trabalho. Se considerarmos que Simão é o primeiro nome de Pedro, o apóstolo, temos que nos atentar também para o significado de Pedro: inteligente, determinado; tem paciência, autoridade e muito senso prático. O médico, no conto em estudo, é colocado como o apóstolo da ciência, aquele que a tudo abandona para se entregar ao seu apostolado até o sacrifício final. Simão Bacamarte é a caricatura do apóstolo de Cristo.

            O sobrenome “Bacamarte” também tem seu poder sugestivo. Segundo o dicionário de Aurélio Buarque, é arma de fogo de cano curto e largo, o que sugere disparos, agressividade. Afinal, o que faz o alienista senão disparar sua “fúria” científica e o pânico aos quatro cantos de Itaguaí, levado pelo seu conhecimento duvidoso, mas autoritário?

            Por que motivo Machado de Assis não teria preferido o nome “hospício” para o laboratório de estudos da loucura? Talvez porque “casa” esteja ligado ao “continente da sabedoria”. Na casa, conforme Cirlot (1984, p.141), “por seu caráter de vivenda, produz-se espontaneamente uma forte identificação entre esta e o corpo e pensamentos humanos (ou vida humana) como reconhecem empiricamente os psicanalistas”. Nos sonhos, servimo-nos da casa para representar os estratos da psique. Cada cômodo da casa tem uma significação geralmente correlacionada a uma função psíquica, em certo sentido alquímico.

            A cor “verde” situa-se na faixa intermediária fazendo a transição e a comunicação “entre as cores quentes e progressivas que correspondem a processos de assimilação, atividade e intensidade … e as cores frias e retrocedentes, que correspondem a processos de desassimilação, passividade e debilitação (CIRLOT, 1986, p.173).  Pode sugerir, de um lado, a figura do médico e, do outro,  a dos pacientes. O verde  é, ainda, a cor ambivalente, cor da vegetação (vida) e a dos cadáveres (morte). Na gama natural, o verde ocupa o lugar do centro, como a Casa Verde passa a ser o centro das atenções, do pavor e da ciência em Itaguaí.

10-A LOUCURA NA LITERATURA BRASILEIRA

            loucuraOs aspectos biopsíquicos passaram a ocupar um papel de relevância na literatura do século passado, quando a escola Realista/Naturalista procurou valer-se da onda de cientificismo que marcou a época.

          No Brasil, a literatura naturalista optou pelo caminho dos estudos de temperamento e pelas narrativas que colocavam as doenças e seus diagnósticos em plano de grande importância, mesmo em detrimento do registro e da documentação do que ocorria no país tanto no aspecto político quanto no social. Aluísio Azevedo, em O homem(1887), envereda pelas trilhas  da patologia iniciadas em  O mulato(1881). Em Casa de pensão(1884) e em O cortiço(1890), registra o fato social sem deixar de mostrar os comportamentos, os considerados desvios, na época, como o homossexualismo e o lesbianismo, a loucura, enfim, os casos que a ciência explica. Surgem obras como A carne, de Júlio Ribeiro(1888); A normalista, de Adolfo Caminha(1893); Hortência, de Marques de Carvalho(1888) e outras.

         Observa-se a preferência naturalista pelos romances “casos clínicos”, onde se evidenciam o cenário familiar, a histeria, a referência aos aspectos fisiológicos, à loucura. Associa-se a literatura ao desenvolvimento de “uma ciência do comportamento” e ao cientificismo em voga. Na ficção, dá-se a palavra aos médicos, aos entendidos das ciências e até aos charlatões que nomeiam doenças, fazem diagnósticos, descrevem sintomas. Há uma invasão da ciência, do saber biológico no campo da ficção. Quanto mais a personagem parecer doente, mais o médico poderá falar. Há, pois, uma preferência por ambientes cheirando a remédios, pelos doentes e por médicos na literatura.

           No Brasil, tudo isso ocorre paralelamente com a fundação da cadeira de psiquiatria na Faculdade do Rio de Janeiro (1881) e com o surgimento dos primeiros estudos sobre alienação mental difundidos pela imprensa, popularizando o saber sobre o tema. Jornais e revistas de todo o país publicam artigos sobre loucura, hospícios, condições hospitalares, isolamento. Assim, a linguagem literária passa a sofrer alterações e, segundo Flora Sussekind (1984, p.124),as páginas dos romances também se deixam invadir pelos ‘temperamentos doentios’, médicos, diagnósticos e discussões sobre as causas e tratamentos apropriados para as doenças.  Cada romancista, a seu modo particular, procura seguir os caminhos indicados pelas ciências (MOURA, 1997)

            Modernamente, o leitor encontrará obras como as de Guimarães Rosa e Lygia Fagundes Telles que abordarão o tema da loucura dando a ele enfoque diferenciados, o que poderá propiciar ao leitor uma leitura comparativa tomando, para tanto, alguns contos de Primeiras estórias(ROSA) e o romance Verão no aquário(TELLES).

11- A LOUCURA NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS

            Dos romancistas que se enveredaram pelos caminhos da ciência no final do século passado, a maioria dá voz ao médico. Quanto mais doente e fragilizada a personagem, mais o médico poderá agir e falar, passando a ter poderes de intervenção no meio familiar. Ordena internações ou casamentos como meios de cura de doenças; passa a ocupar, muitas vezes, o papel de confessor da família, apoderando-se até de seus segredos e pecadinhos, quando não, de bens materiais.

            Vale ressaltar, porém, que contrariando a todo esse excesso de cientificismo em moda, Machado de Assis envereda pelos caminhos da ironia e do humor.

            O humor machadiano chega ao extremo de duas formas: no romance Quincas Borba, o autor dá a palavra ao louco e em “O alienista”, ao médico.

            Em oposição aos seus contemporâneos, em Quincas Borba o autor dá voz ao doente, ao alienado, questionando a teoria do Evolucionismo. A hereditariedade é posta em questão, pois, para ocorrer, é necessário que hajam os laços sanguíneos. É natural também que a herança do sangue se faça acompanhar da herança dos bens materiais, pois os herdeiros só se tornam herdeiros por esses laços sanguíneos, familiares. Entretanto, nada há que impeça a doação dos bens de uma pessoa a outra como ocorreu com Rubião que herdou a fortuna de Quincas Borba. Mas, como explicar que tenha herdado também a loucura do amigo sem que fossem sequer parentes distantes? Machado de Assis brinca, ironiza os dogmas da ciência evolucionista.

           ao vencedor, as batatas Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, louco, elabora as teorias do “Humanitismo” e, em Quincas Borba, Rubião, com sua loucura, fundamenta essas teorias, jogando por terra a seriedade das ciências. O autor inverte os papéis, segue caminhos opostos àqueles seguidos pelos escritores da época, dando poder de voz ao doente e questionando a validade das teorias, rompendo com a autoridade do saber científico em moda.

            Em “O alienista”, pelo fato de dar a palavra ao médico, a ironia de Machado de Assis torna-se mais contundente, pois quem acaba louco é o próprio alienista, isolado na Casa Verde por si mesmo como cobaia de novos estudos, até a morte, meses depois.

            Um traço marcante na personalidade de Simão Bacamarte é a persistência, a inflexibilidade na perseguição dos seus objetivos, ou seja, estudar a loucura, classificá-la de acordo com a causa e com o comportamento dos internos. O médico, em momento algum, abandona a luta pela obtenção de seus intentos, mesmo diante da rebelião causada pela insatisfação do povo. A complexidade da matéria de seus estudos leva-o a mudar constantemente suas teorias e sua conduta. Se o médico é inflexível na realização de seus intentos, seus métodos, ao contrário, são variáveis e flexíveis. Assim sendo, a cada grupo de loucos corresponde uma teoria.

Uma vez desobrigado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo acurado e contínuo: analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, os gestos, as tendências…(p.106/107).

            Havia aqueles cuja loucura fora decretada por qualquer traço de desequilíbrio, como o Costa, que acabou com uma fortuna herdada, emprestando-a aos habitantes de Itaguaí;  Dona Evarista por não saber que joia usaria; o barbeiro Porfírio por almejar o poder. Havia os que foram vistos como loucos por nunca terem apresentado traços de desequilíbrio como o Padre Lopes, a Cesária; havia os casos de desequilíbrio acentuado, alucinações como o João de Deus que se via como o deus João; o Garcia que nada dizia por acreditar que, no dia em que falasse, as estrelas do céu se apagariam; o Falcão que se imaginava a estrela d’alva. E, por último, a loucura advinda da perfeição, do equilíbrio total, sem vícios ou defeitos, proveniente de qualidades morais como a paciência, a persistência, a perseverança, em que só um homem em Itaguaí se enquadrava: Simão Bacamarte.

            A ironia machadiana, neste conto, revela-se muitas vezes através do contraste, da contradição como se pode notar, entre outros exemplos, na figura do próprio alienista:

 Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações da ciência. Os pés… eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: – só lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio(p.143).

            Fica evidente no fragmento transcrito que, através de elementos que não combinam entre si, “fivelas de latão” e “chambre com borlas de ouro”, combinam, por outro lado, elementos que representam, ao mesmo tempo, a força e a fragilidade da ciência.

            Ao transformar o alienista em alienado, o autor, através do narrador transcritor e, portanto, fundamentado na crônica histórica, questiona o caráter infalível e confiável da ciência, contestando-lhe a capacidade e a confiabilidade, ao revelar suas contradições e fragilidades.

            O leitor, assim como os habitantes de Itaguaí, diante da inesperada e surpreendente conclusão do médico que se revela como o único louco da cidade, passam a duvidar da seriedade e do poder das teorias e experiências científicas. Machado de Assis, por meio da sátira e da ironia, faz cair por terra os dogmas científicos do final do século.

CONCLUSÃO

            O estudo da obra de Machado de Assis coloca o leitor em contato com um saber que extrapola as características da época. Situado no Realismo, vai além dos preceitos realistas e, abandonando a pura análise do comportamento humano, vai ao interior do ser para desvendar-lhe os segredos, o egoísmo, a vaidade. Machado de Assis mostra o homem numa sociedade em que prevalecem os interesses individuais, a sensação de poder, o status, seja ele conferido pelo dinheiro ou pelo saber, como no caso de Simão Bacamarte.

            Consciente de seu fazer literário, o autor utiliza-se de recursos como a metalinguagem, a intertextualidade, a conversa com o leitor e de uma nova forma de narrar em que o ziguezague substitui a linearidade, construindo uma narrativa que exige a participação do leitor.

            Em “O alienista”, Machado de Assis satiriza o excesso de cientificismo que invadia todas as áreas do conhecimento e da atividade humana. Ironiza o abuso de poder da ciência  e dos políticos; critica os acordos tácitos entre política e ciência em torno de interesses particulares; mostra com muito humor a ambição pelo poder, que faz as pessoas mudarem seus comportamentos e atitudes.

            Grande observador da alma humana e da sociedade de seu tempo, Machado de Assis tem o dom da análise, da ironia e do humor. Ler a sua obra é estar em contato com um mundo de realidades que se revelam iguais em todos os tempos, pois o homem de todas as épocas procura vencer sem se importar com os meios utilizados, mas procurando sempre o prêmio da ascensão e do reconhecimento.

REFERÊNCIAS

1- ASSIS, Machado. “O alienista”. Contos definitivos. Porto Alegre: Leitura XXI, 2006.
2- ______. Os melhores contos de Machado de Assis. São Paulo: Global. 1986.
3- ______. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1995.
4- ______. Quincas Borba. São Paulo: Ática 1988.
5- BOSI, Alfredo. História Concisa da literatura. São Paulo: Cultrix, 1970.
6- CIRLOT, Juan Eduardo. Dicionário de símbolos. São Paulo: Editora Morais, 1984.
7- FILHO, Domício Proença. Introdução aos Melhores contos de Machado de Assis. São Paulo:  Global, 1986.
8- GOTLIB, Nádia Batella. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 1986.
9- MAGGI, Nádia. A sorte do seu nome. São Paulo: Nova Sampa, 1995.
10- MOISÉS, Massaud.  A criação literária. São Paulo: Melhoramentos, 1971.
11-MOURA, Waldevira B. P. de. Análise de ASSIS, Machado. Quincas Borba– VESTILIVROS-O popular, 1997.
12-SILVA, Vitor M. de Aguiar. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1983.
13-SUSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.
14-TACCA, Oscar. As vozes do romance. Coimbra: Almedina,1983.
15-TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 1970.

 

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