Melhores Poemas – Olavo Bilac

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

        Olavo Bilac, pelo que representou no mundo literário de seu tempo, foi considerado o “Príncipe dos poetas brasileiros”. Pelo que sua obra continua a significar, hoje, na literatura brasileira, é ainda um dos príncipes da nossa poesia.

       Olavo Bilac produziu sua obra num tempo em que vigorava a estética parnasiana, que preconizava a arte-pela-arte, ou seja, o alheamento da vida social e política para se ater somente à poesia, ao ideal estético. No entanto, ao correr de sua pena, o leitor pode observar que o poeta, embora sem se afastar completamente dos preceitos parnasianos, foi se deixando envolver pela emoção, pela subjetividade e até pelo comprometimento.

       Nosso objetivo, neste estudo, será o de fornecer ao leitor caminhos que o ajudem numa melhor compreensão desta seleção de poemas feita por Marisa Lajolo. Esta professora, doutora em Olavo Bilac, declara ter escolhido os poemas amorosos em que o poeta pôde “dialogar com a sensibilidade do público contemporâneo” e onde “assomam alguns indícios da superação do figurino parnasiano e convencional.”

        Neste estudo, identificaremos os poemas nos seus respectivos livros; procuraremos mostrar as diferenças entre o Bilac do famoso “Profissão de fé” e o Bilac da antologia apresentada, bem como as diferenças entre o cidadão e o eu-lírico dos poemas.

          A leitura da obra é imprescindível para a compreensão desta análise.

SUMÁRIO

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1-Olavo Bilac: o poeta
2- O cidadão brasileiro Olavo Brás
3-De onde vem esta antologia
4-Poesias– o livro de Bilac
4.1- Panóplias
4.2- Via-Láctea
4.3- Sarças de fogo
4.4- Alma inquieta
4.5- Tarde
4.6-Poemas licenciosos
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS

1 – OLAVO BILAC: o poeta 

      Olavo BilacOlavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro em 1865, onde faleceu em 1918. Iniciou os cursos de Medicina e de Direito, mas não chegou a concluir nenhum deles.  Na verdade, era atraído pelo jornalismo e pela boêmia, caminhos em que brilhou pelo seu poder de retórica. Foi frequentador assíduo das redações de jornais e do mais famoso café-concerto do Rio de Janeiro (Maison Moderne).

        Estreou na carreira literária com a publicação do poema “A sesta de Nero” na Gazeta da Tarde, em 1884, mas seu primeiro livro é  Poesias (1888), dividido em Panóplias, Via Láctea e Sarças de fogo. Este volume de Poesias é aberto com o famoso poema “Profissão de fé”, espécie de plataforma parnasiana que pregava a perfeição formal e o culto ao estilo.

        Em 1902, Bilac publicou a segunda edição de Poesias, acrescida de Alma inquieta, As viagens e O caçador de esmeraldas. A última parte do livro, intitulada Tarde, foi publicada postumamente em 1919, mas devidamente preparada pelo autor, que não teve tempo de publicá-la em vida.

        No gênero poético, publicou, ainda, Poesias infantis (1904) de caráter didático e com intenção cívica.

        Na prosa, publicou crônicas, novelas, conferências e um dicionário de rimas, além de vasta obra em colaboração com contemporâneos como Coelho Neto, Alberto de Oliveira, Manuel Bonfim, Guimarães Passos, entre outros.

       Foto de Príncipe dos poetas brasileiros Bilac participou da fundação da Academia Brasileira de Letras e da Liga da Defesa Nacional.

        Foi eleito o primeiro “Príncipe dos poetas brasileiros” pela revista Fon-Fon, em Paris. Na Academia Brasileira de Letras ocupou a cadeira número quinze, cujo patrono fora Gonçalves Dias.

2 –  O CIDADÃO BRASILEIRO OLAVO BRÁS

       Bilac 2 Quando nas aulas de Teoria Literária, nós, os professores de Literatura, explicamos o ideal aristotélico da Arte-pela-Arte que preconizava o Parnasianismo e que, portanto, pregava a arte voltada para ela mesma, para a finalidade única de alcançar a beleza estética, a arte como fim e não como meio, deixamos aquela ideia de distanciamento da vida, de alienação, de frieza diante dos fatos. Sugere-se, portanto, a impassibilidade, o não comprometimento do poeta com as questões políticas e sociais. No entanto, é necessário que o leitor saiba distinguir o eu-lírico dos poemas  líricos ou o narrador dos poemas épicos (narrativos) da pessoa do autor, isto é, do homem, do cidadão.

        Quem apenas conhece a obra tipicamente parnasiana de Bilac, a sua “Profissão de fé” anunciada no famoso poema, ou os conselhos do eu-lírico em “A um poeta”, dizendo que este deve escrever como se fosse um monge beneditino no aconchego do claustro, longe do turbilhão da rua, poderá concluir, erroneamente, que o cidadão Olavo Brás dos Guimarães Bilac fosse alguém distanciado dos problemas de seu país e de sua gente. Esta visão fica ainda mais evidenciada no mesmo poema quando o eu-lírico afirma que a “Beleza é gêmea da Verdade, Arte pura, inimiga do artifício”, isto é, não deve servir a outros fins que não ao da perfeição formal, da beleza estética. Portanto, não deve fazer a chamada de consciência para os problemas da sociedade.

        No entanto, o cidadão Olavo Brás foi homem preocupado com as mazelas da vida, com aqueles miseráveis que nada tinham ou podiam. Foi ele grande defensor da instrução das crianças, do fim do analfabetismo, consciente que era de que a educação é o caminho para o bem estar e o progresso, para a garantia de um povo consciente e engajado.

     Certa vez, estando em sua casa a escrever, foi visitado por um amigo que lhe perguntou se estava a escrever versos, ao que ele respondeu:

-Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas – livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é, antes de tudo, o mal de ser analfabeto. Talvez sejam ideias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo – o entusiasmo que é a vida – a este sonho irrealizável (Obras reunidas, p. 28).

       A constatação é de que a erradicação do analfabetismo, de que os governantes deveriam estar mais preocupados com a criação de escolas (boas escolas) e de que o analfabetismo é um mal que necessita cura é ainda um sonho.  Já no seu tempo, Olavo Bilac via tudo isto como um sonho irrealizável e essa sua constatação faz com que o leitor tenha a percepção de que o cidadão Bilac não só estava certo como também tinha plena noção de quem eram os responsáveis por tal situação como hoje nós também temos.

       Bilac sabia que não adiantava falar, apontar, mostrar caminhos. Isto lhe causava, muitas vezes, a amargura, o riso irônico no lugar da palavra. Para ele, um artista é capaz de sentir mais concentradamente as dores terrenas, a angústia dos pobres, o sofrimento da gente humilde que a nada tem acesso, em especial, à educação. Diferentemente do que diz o eu-lírico dos poemas tipicamente parnasianos, Bilac compreende que a literatura não pode estar desvinculada da vida.

       Aliás, esta era outra de suas preocupações: a própria literatura brasileira que ainda não trilhava um caminho tipicamente brasileiro. Era uma literatura que seguia os passos sugeridos pelos franceses, imitações, cópias. Os maiores poetas do seu tempo, aqueles que, inclusive, lhe serviam de modelo, eram produtos da influência estrangeira. Alegava o poeta que a causa desta falta de originalidade poderia estar no nosso processo de miscigenação, ou seja, uma raça formada por muitas outras com costumes, culturas e estilos diferenciados. Mas, fosse como fosse, a sua conclusão era a de que a literatura teria de estar mais aberta, mais engajada, mais receptiva e ser o canal por onde pudessem sair todas as amarguras humanas.

       Portanto, sem abandonar propriamente os preceitos da escola parnasiana, Bilac passa a aliar forma e conteúdo defendendo uma poesia tipicamente brasileira. É ele quem diz:

A Arte não é como ainda querem alguns sonhadores ingênuos uma aspiração e um trabalho à parte, sem ligação com as outras preocupações da existência. Todas as preocupações humanas se enfeixam e misturam de modo inseparável…A Arte de hoje é aberta, sujeita a todas as influências do meio e do tempo (Obra reunida, p.30).

       Idealizador e defensor do serviço militar obrigatório, do escotismo e da alfabetização, Bilac é o autor do “Hino à bandeira”, confirmando o tom nacionalista de muitos dos seus poemas. Vejamos as primeiras estrofes:

Salve, lindo pendão da esperança!
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
(Obra reunida, p. 344)

      Olavo Bilac - Poesia infantilA poesia infantil, não incorporada a esta seleção dos Melhores poemas, é considerada “importante documento da atividade educadora e de propaganda patriótica de Bilac”(Obra reunida, p. 10).  O próprio poeta afirma que o objetivo do livro destinado “às escolas primárias do Brasil” era “dar às crianças alguns versos simples e naturais, sem dificuldades de linguagem e de métrica, mas, ao mesmo tempo, sem a futilidade com que costumam ser feitos os livros” de literatura infantil neste país. Vejamos o poema “O trabalho”, composto em quartetos, versos em redondilha maior que, devido à musicalidade alcançada, favorece a declamação e a aprendizagem infantil:

          O trabalho
Tal como a chuva caída
Fecunda a terra, no estio,
Para fecundar a vida
O trabalho se inventou
Feliz quem pode, orgulhoso,
Dizer: ‘nunca fui vadio:
E, se hoje sou venturoso,
Devo ao trabalho o que sou!’
É preciso, desde a infância,
Ir preparando o futuro;
Para chegar à abundância,
É preciso trabalhar.
Não nasce a planta perfeita,
Não nasce o fruto maduro;
E, para se ter a colheita,
É preciso semear…(Obra reunida, p.336).

       A Pátria serviu de inspiração para Bilac em versos ainda hoje lembrados por uma geração que tinha como obrigação escolar não só cantar os hinos a ela dedicados como ainda conhecer poemas como “A pátria”, sementes jogadas no coração da criança de onde poderia germinar um sentimento nacionalista:

Ama com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! Não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que florestas!
(…)
Criança! Não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
(Obra reunida, p.339)

       Outro aspecto que deve chamar a atenção daquele que se propõe a estudar a obra de Bilac é a sua produção em prosa reunida no livro Crônicas e novelas e artigos de Crítica e fantasia publicados na Gazeta de Notícias e em A notícia do Rio de Janeiro. Estes textos comprovam que Bilac era homem comprometido com as causas de seu país. Textos por ele escritos com a intenção de fixar suas impressões em momentos diversos de nossa realidade, isto é, de um país em fase de implantação de um novo regime e de um novo estilo literário; registro de crises sociais e políticas, da vida intelectual e do aspecto moral da pátria.

       Por outro lado, proferiu inúmeras conferências ora saudando a pátria, os heróis da História, os artistas brasileiros como Aleijadinho e os poetas que tiveram por ele suas obras avaliadas, analisadas e enaltecidas: Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Camões, Shakespeare, Gonçalves Dias, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, entre tantos outros.

       Bilac revela-se, ainda, o poeta da sensualidade, dos amores imensos, das relações calorosas. Mas, o cidadão Bilac sempre foi um ser preocupado com questões como o saneamento para a erradicação das epidemias; a instrução para diminuir a ignorância e a irresponsabilidade. Talvez por isso, tenha ele assumido função oficial no ensino e foi homem de responsabilidades sociais. Para ele, uma escola deveria nascer em cada povoado, em cada canto. Mas o governo de seu tempo fez isto? Seria conveniente para os governantes do passado (e do presente) ter um povo instruído? Será

3 – DE ONDE VEM ESTA ANTOLOGIA

            Marisa Lajolo, tendo em vista que “uma antologia obriga necessariamente uma escolha”, escolheu o Bilac amoroso. Segundo a estudiosa, a lírica amorosa bilaquiana revela o melhor do poeta, pois nela estão os poemas

pelos quais ele pode, sem desdouro, dialogar com a sensibilidade do público contemporâneo e, de quebra, onde assomam alguns indícios da superação do figurino parnasiano e convencional que muitas vezes espartilha sua poesia (LAJOLO, M. Melhores poemas, p. 9).

   Bilac- Melhores poemas-A seleção dos Melhores poemas, mesmo privilegiando a lírica amorosa, foi feita levando em consideração a obra completa do poeta. Na Nota Editorial da editora Nova Aguilar, que publicou a primeira edição da Obra reunida(1996), há uma observação de Alexei Bueno que diz: “A seção de poesia constitui-se, então, de acordo com o critério indicado, pelas Poesias, que reúne todos os seus livros de versos sérios e pelas Poesias Infantis”. (Obra reunida, p.11)

       Fica para nós a pergunta: teria Olavo Bilac publicado versos que não fossem sérios? Isto veremos. O certo é que a antologia ora apresentada segue a ordem cronológica de publicação da obra de Bilac, sempre cuidadosamente preparada pelo próprio autor.

    Assim sendo, os poemas foram selecionados inicialmente dos três livros que compunham a primeira edição de sua primeira obra, Poesias, em 1888: Panóplias, Via Láctea e Sarças de fogo, antecedidos pelo poema “Profissão de fé”. Em seguida, vêm os poemas selecionados de Alma inquieta e Tarde.

       Intrigante o fato de que os textos que se seguem ao poema “Criação”, de Tarde, no volume dos Melhores poemas, não se encontram mencionados na Obra reunida, edição de 1996, da editora Nova Aguilar, nem da edição Obra completa, de 1943, da Livraria Francisco Alves. Não seriam eles sérios? Ou teriam sido publicados em jornais e revistas da época e não incluídos em livro? A própria Marisa Lajolo diz que Bilac foi “autor de versos satíricos e licenciosos como os que integram a última parte desta antologia” (p. 8). Mas a Nota Editorial da Obra reunida esclarece que foram excluídas nesta edição, entre outras, as obras em colaboração, bem como os Contos para velhos, “assinados por “Bob”, coletânea de poemas picantes pouco condizentes com a sua (de Bilac) cultivada imagem pública…” (Obra reunida. p.10). São os seguintes poemas: “O arrendamento”; Medicina”; “Velho conto”; “Jurava Dona Maria”; “At home”; “O paraíso”; “Clarinha, à mamãe, chorosa”; “O carnaval no Olimpo”; “Hamlet”; “Em custódia”; “Cartas chinesas”. Lidos estes poemas, o leitor chegará à conclusão de que, realmente, alguns são brincalhões, maliciosos; outros irônicos; alguns comprometidos com a crítica aos críticos literários, aos mantenedores do poder, isto é, aos políticos, à República. São estes poemas a amostragem de uma outra faceta da poesia de Bilac.

       O objetivo de se fazer todas estas considerações é meramente didático. O leitor poderá observar não só as maneiras como o autor trabalha a temática do amor, a partir do amor que parece ser platônico, até chegar à sensualidade e ao erotismo escancarado e à licenciosidade; também perceberá a variação formal que denuncia certo distanciamento dos preceitos parnasianos.

4 – POESIAS– O LIVRO DE BILAC

       Bilac-poesias- 2A primeira edição de Poesias (1888) incluía Panóplias, Via-Láctea  e Sarças de fogo, antecedidos, como já dissemos, pelo poema “Profissão de fé”. No primeiro, há um predomínio das descrições ornamentais e das referências à cultura greco-latina. No segundo, os trinta e cinco poemas que compõem a obra apresentam, segundo Marisa Lajolo, “um lirismo estelar, mas que mergulha no clima nada platônico de uma sensualidade palpitante e palpável” (Melhores Poemas. p.10). No terceiro, predominam os poemas eróticos e satíricos, porém, sem nenhuma vulgaridade ou o que quer que fosse que desmerecesse a fama do poeta. O que se pode observar, de uma obra a outra, é que parece haver um projeto, que evolui da objetividade para a subjetividade, embora permaneça a preocupação com a forma, incluindo a métrica e a rima, e com a correção e elaboração da linguagem.

4.1-PANÓPLIAS

        Bilac- panópliasEste, o primeiro livro de Olavo Bilac, traz no título uma palavra de origem grega, que se relaciona às armaduras usadas pelos cavaleiros da Idade Média, ou escudo no qual se põem diferentes armas e com que se adornam paredes. Este volume reúne poemas em que o autor desenvolve uma temática mais ligada ao Parnasianismo, ao explorar temas relacionados à cultura greco-latina, bem como, na forma, se cultiva a perfeição dos parnasianos.

       No entanto, o poema de abertura, “A morte de Tapir”, revela um indianismo tardio, pois surge a figura do índio como mito nacional. Alfredo Bosi diz que, neste aspecto, “Bilac é cantor tardio, na esteira de Gonçalves Dias” (BOSI, A. 1970. p. 255). Mas já neste texto, o leitor pode comprovar uma mudança nos rumos da poesia bilaquiana ao perceber o tom de sensualidade e erotismo que avulta dos versos.

    Bilac-A morte do tapir “A morte de Tapir”(p.21) é um poema com tendência épica, já que é narrativo. Há um narrador em terceira pessoa que relata a morte do último guerreiro de uma raça extinta. Há uma mistura de patriotismo e nacionalismo por parte do autor: a personagem parece fazer ressurgir o mito indianista criado por Gonçalves Dias na poesia e tão bem explorado por José de Alencar na prosa da era romântica.

       Dividindo o poema em cinco partes, Bilac trabalha a linguagem de tal forma que as imagens criadas através das cores, dos sons, do brilho, logo no início, já denunciam a plasticidade que caracteriza sua poesia. A descrição da paisagem, do momento e do índio é feita nos primeiros versos:

                                        I
Uma coluna de ouro e púrpuras ondeantes
Subia o firmamento. Acesos véus, radiantes
Rubras nuvens, do sol à viva luz, do poente
Vinham, soltas, a correr o espaço resplendente.
Foi a essa hora, – às mãos o arco possante, à cinta
Do leve enduape a tanga em várias cores tinta,
A aiucara ao pescoço, o canitar à testa, –
Que Tapir penetrou o seio da floresta.
(M P, p. 21)

       A figura do herói vai sendo pintada ao longo do poema de forma que o leitor possa vê-lo, ainda jovem, bravo, forte, insensível às preces e surdo ao pranto das vítimas; capaz de, sozinho, vencer uma tribo inimiga ou uma brava onça que caíam vencidas a seus pés e de enfrentar a morte quantas vezes fossem necessárias.

       Mas, o narrador, em seguida, mostra o índio já velho, só e único sobrevivente de sua raça, em meio à natureza que, personificada, ao desmaiar do dia, grita: “Tapir! Tapir! É finda a tua raça!”… “Tapir! Tapir! Tapir! O teu poder é findo!”. E, em meio a toda esta turvação, surge na mente do índio a lembrança de Juracy e o poema passa a ter uma tonalidade erótica:

Contai-o, o poema dos primeiros amores,
Os corpos um ao outro estreitamente unidos,
Os abraços sem conta, os beijos, os gemidos,
E o rumor do noivado, estremecendo a mata,
Sob o plácido olhar das estrelas de prata…
…………………………………………………………….
Juracy! Juracy! virgem morena e pura!
Tu também! tu também desceste à sepultura!… (M P, p.24).

        Observe-se o trabalho com a linguagem: as imagens hiperbólicas, as reticências e a linha pontilhada para sugerirem o momento do pleno amor. Não há conotação maliciosa, nem tom pornográfico, tanto que a imagem da índia na lembrança de Tapir permanece a da “virgem morena e pura”. As últimas partes do poema narram a caminhada de Tapir pela floresta, assim como a noite caminhava, até o momento exato de sua morte, quando também a natureza toda estava imersa em “plúmbeo sono”. Não há como negar vestígios da temática romântica: natureza e homem plenamente integrados.

      Em relação à forma, percebe-se uma tentativa de perfeição no que se refere à métrica, mas o leitor mais atento observa que o poeta se utiliza das licenças poéticas para forçar o verso alexandrino; as rimas são quase todas paralelas (existem poucos versos brancos), mas nem todas com uma mesma tonalidade, por exemplo: rio/murmúrio; vieram/ sucederam; morta/absorta, quedo/arvoredo. As estrofes também não possuem o mesmo número de versos. Estes detalhes comprovam que a “profissão de fé” nem sempre foi professada à risca e que este pouco de liberdade se fazia necessário.

        A partir, daí têm-se três poemas com temática que envolve a cultura greco-romana: “A sesta de Nero”, “O incêndio de Roma” e “O sonho de Marco Antonio”.

        Bilac- a sesta de nero“A sesta de Nero”(p.30) foi o poema de estréia de Bilac, publicado na Gazeta da tarde, em 1884, e incluído em Poesias, quatro anos depois. A descrição de objetos de arte é uma tendência da temática parnasiana. E o poema faz a descrição do palácio com toda a sua pompa e suntuosidade. As imagens visuais e olfativas dão a medida exata de que o luxo do palácio conta com o mármore da Lacônia, o nácar do Oriente, o ouro da Trácia e a mirra da Arábia. Nero dorme rodeado de servas que cantam e dançam ao som da lira. A imagem auditiva sugere a tranquilidade e o clima de sensualidade do ambiente, enquanto Nero “dorme e sonha, a fronte reclinando/Nos alvos seios nus da lúbrica Popeia (p.30). Popeia Sabina era amante de Nero, relação condenada pela mãe do imperador romano, que era casado com Claudia Octávia. Embora não haja nenhuma certeza, conta-se que Nero teria sacrificado a própria mãe, Agripina Minor, a pedido da amante, e mandado para o exílio a ex-esposa, assassinada, mais tarde, por ordem sua.

        Observa-se neste soneto a busca da perfeição formal, o vocabulário culto, elevado, o esquema de rimas cruzadas nos quartetos; cruzadas e opostas nos tercetos e um grande esforço em fazer versos alexandrinos com o auxílio das licenças poéticas. O ideal da Arte-pela-Arte confirma-se, pois, o poema, ao fazer a descrição de um objeto de arte (o palácio), atinge tão somente a beleza estética.

       Bilac- o incendio de roma“O incêndio de Roma”(p.31) é outro soneto descritivo em que há leve teor narrativo. O leitor pode “ver” Roma em chamas: as muralhas, os templos, os museus, o Capitólio (templo dedicado a Júpiter), o Foro, as arcadas dos aquedutos e, até o Tibre, ardendo em chamas. A atenção do leitor acresce diante da impassibilidade com que o imperador Nero celebra a destruição, sem abandonar a lira, apaixonado que era pela música.

       Bilac- cleópatra e marco antonio“O sonho de Marco Antonio”(p.32) é um poema dividido em três partes, elaboradas em quartetos, rimas cruzadas e versos decassílabos heroicos (tônicas na sexta e décima sílabas). A primeira parte versa sobre as meditações de Marco Antonio, enquanto o exército dorme, depois de muita orgia. Há uma referência a Otávio (com quem na História lutava ora contra, ora a favor) e a Cleópatra, rainha do Egito, por quem Marco Antonio se apaixonara.

Que vença Otávio! E seu rancor profundo
Leve da Espanha à Síria a morte e a guerra!
Ela é o céu… Que valor tem todo o mundo,
Se os mundos todos seu olhar encerra?
Ele é valente e ela o subjuga e o doma…
Só Cleópatra é grande, amada e bela!
Que importa o Império e a salvação de Roma?
Roma não vale um só dos beijos dela!…(MP, p.32-34).

        A segunda parte do poema relata, mais propriamente, o sonho de Marco Antonio que se vê em meio ao luxo de um trono, admirando Cleópatra, que dorme, e logo acorda sensual, provocante. O poema, nesta parte, enche-se de sensualidade, mas não chega ao erotismo, pois logo vem a terceira parte em que Marco Antonio acorda e vê que o dia amanhece.

        A linguagem de Bilac é bem trabalhada. Ele faz uso das inversões e reiterações e, assim, alcança a rima interna e, consequentemente, certa musicalidade. Vejamos a primeira estrofe da segunda parte:

A harpa sinistra. O melodioso canto,
De uma volúpia lânguida e secreta.
Ora interpreta o dissabor e o pranto,
Ora as paixões violentas interpreta (p.34).

        A metáfora e a personificação são figuras bastante utilizadas por Bilac, inclusive para a marcação da passagem do tempo. Na primeira estrofe: “Abrem-se os olhos de ouro das estrelas…”; na terceira parte: “Longe, à porta purpurina/ Do Oriente em chamas, vem raiando a aurora” para, na última estrofe, fechar com. “…Em todo o firmamento/ Vão se fechando os olhos das estrelas.” A técnica do enjambement (ou cavalgadura, isto é, um verso se complementa no início do verso seguinte, como na estrofe abaixo) é brilhantemente dominada pelo poeta neste e na maior parte da sua obra poética.

       Este poema lembra-nos outro, de Gregório de Matos, no qual o eu-lírico diz que quando Silvia dorme, a natureza dorme e silencia; quando Sílvia acorda, abrindo os dois diamantes, tudo a ela festeja e admira. Também no poema de Bilac, quando, no sonho de Marco Antonio, Cleópatra acorda, tudo se movimenta e cria vida:

Mas Cleópatra acorda… E tudo, ao vê-la
Acordar, treme em roda, e pasma, e a admira:
Desmaia a luz, no céu descora a estrela,
A própria esfinge move-se e suspira (MP, p.35).

       O último poema de Panóplias, nesta seleção, é “A ronda noturna”, que se caracteriza pela descrição de uma paisagem noturna. Na verdade, um convento, o claustro. Os versos assumem um tom fantasmagórico, pessimista, cheio de sombras e de silêncio, mas que é quebrado e esclarecido  pelo passar da ronda noturna, que se faz por alguns “espectros” ao longo do espaço sombrio e escuro do convento. É um soneto perfeito, versos decassílabos, rimas cruzadas, vocabulário culto, enjambement, mas que não oferece dificuldade. Vejamos a primeira e última estrofes:

Noite cerrada, tormentosa, escura,
Lá fora. Dorme em trevas o convento.
Queda imoto o arvoredo. Não fulgura
Uma estrela no torvo firmamento.
[…]
E, ao clarão de uma lâmpada tremente,
Do claustro sob as tácitas arcadas
Passa a ronda noturna, lentamente…(MP, p.38)

       O que se pode deduzir dos poemas lidos e analisados de Panóplias é que Bilac estava sob forte influência do Parnasianismo, pois, apesar de inserir em alguns deles uma aura de sensualidade e, portanto, de subjetivismo, a preocupação maior é com a forma, com a beleza estética, com os temas relacionados à cultura grego-romana, com a Arte-pela-Arte.

4.2- VIA-LÁCTEA

    Bilac- Via-lactea-livro Via Láctea é uma coletânea de trinta e cinco sonetos dos quais foram selecionados dezenove por Marisa Lajolo. Os poemas são numerados por algarismos romanos, mas no índice geral da Obra reunida, o título é sempre o primeiro verso. São poemas com rima e métrica perfeitas e, como sempre faz em seus sonetos, Bilac os fecha com a “chave de ouro”, ou seja, coloca no último terceto a síntese de suas ideias.

Mário de Andrade, analisando a obra do “príncipe dos poetas”, diz:

…o sonetista admirável da “Via Láctea” devia ter amado, e muito, para escrever estes fortes e comoventes decassílabos… O poeta sentia-se feliz num amor sincero, profundo, mas inocente, lírico, natural.
Também no “Via Láctea” o poeta é sensual. Mas existe uma ponte muito comprida entre a sensualidade e a obscenidade. Na “Via Láctea” não atravessou a ponte. (ANDRADE, Mário de. “Mestres do passado” in Obra reunida, p. 37)

       Na verdade, o poeta, através do eu-lírico, dá vazão à sensualidade, mesmo a um certo erotismo a que, como vimos,  Marisa Lajolo chamou “clima nada platônico, de uma sensualidade palpitante e palpável”. O mote mais caro ao poeta, nestes sonetos, é o amor sensual vivido, muitas vezes, de forma mais contundente, outras, de forma menos exaltada.

     Inspirado pela amada, Amélia de Oliveira, o poeta dá aos seus poemas tons mais românticos e melancólicos, revelando uma mudança no espírito que se distancia da temática de Panóplias. Assim sendo, o soneto I (p.39), que abre a série de Via Láctea, inspirado na amada, revela um amor de iniciante que, ao ver a imagem da mulher, julga estar sonhando, até que ela lhe volta o olhar como se lê no último terceto, fechado com “chave de ouro”:

E, ó meu amor! Eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando… (MP, p.39).

       Comum nos sonetos de Bilac é a presença de um interlocutor a quem se dirige o eu-lírico. Este interlocutor muitas vezes pode ser um amigo (o leitor), a mulher ou a natureza personificada. É também comum que uma se transfunda na outra, natureza e mulher confundem-se.

       No soneto IV(p.40), o eu-lírico compara um coração sem amor a uma floresta sombria. A floresta é sombria por não ter a luz solar atravessada; o coração é fechado e sombrio por estar privado da luz do amor.

       Observa-se, neste poema, que a mudança de estado de espírito ocorre nos tercetos quando, por meio da exploração de imagens visuais (o sol… dourando, aurora, flores, areia); auditiva (canção sonora); táteis (palpitam flores, estremecem ninhos), o poeta, através do “eu” que fala, mostra que, se a luz do amor modifica a própria natureza, quanto mais o ser humano tão suscetível a mudanças. É o triunfo do amor. É a plena felicidade.

       Mas o amor é também um sentimento paradoxal. Traz alegrias e pesares. Acalma e aviva as penas. Faz parecer gelado o que está cheio de ardor. O poeta trabalha esta temática nos sonetos VI (p.41) e IX (p.42). Para alcançar esta conotação, utiliza-se de antíteses e paradoxos e, sempre falando a um interlocutor que, com certeza, já amou e entende o que sente o eu-lírico. Vejamos os tercetos do soneto VI:

Quem ama inventa as penas em que vive;
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos somente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando (MP, p.41).

       E, se o amor é visto com indiferença, se não é correspondido, faz aumentar a dor do ser que ama. No soneto IX, além das antíteses usadas nos quartetos, Bilac lança mão da sinestesia (cruzamento de sensações) para expressar a dor do amor nos tercetos:

Olho-te: cega ao meu olhar te fazes…
Falo-te – e com que fogo a voz levanto!-
Em vão… Finges-te surda às minhas frases…
Surda: e nem ouves meu amargo pranto!
Cega: e nem vês a nova dor que trazes
À dor antiga que doía tanto! (MP, p.42).

       Outras vezes, o amor tem que ser mantido em segredo. O sentimento não pode se tornar público. O eu-lírico gostaria de gritar à humanidade, sentir-se invejado pelos outros homens, exaltar seu amor aos olhos do universo. E tão pleno sente-se deste amor que a custo não revela o nome da amada. É o tema do soneto X. (p.43). Assim, se confirmam as contradições do sentimento amoroso.

Bilac-via-lactea-céu     O mais famoso, o mais comentado, aquele que está em todos os livros didáticos e “projetou o poeta num amplo circuito nacional” (Ivan Junqueira in Obra reunida, p. 62) é o soneto XIII (p.44). Transcrevê-lo aqui poderá parecer desnecessário, mas como omitir exatamente o poema que dá nome à série?

                                XIII
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas” (MP, p.44).

       Este soneto é mais uma prova de que, em Via Láctea, Bilac entrega-se ao lirismo, a uma subjetividade que, embora sendo, aproxima-se da arte clássica pela perfeição e pelo preciosismo. O tom do verso decassílabo lembra Camões, lembra Bocage. O poema reforça a presença constante de um interlocutor, agora marcado pelo uso das aspas, que identificam a suposta fala dos interlocutores, através da segunda pessoa do plural (vós), e a fala do eu-lírico, indicada pelos verbos e pelo pronome na primeira pessoa do singular (eu).

       Embora fugindo dos exageros românticos e, apesar da expressão “saudoso e em prantos”, o conteúdo destes versos afasta-se dos preceitos da objetividade parnasiana e evidencia que amar é a única condição para “a comunicação cósmica”, pois só o amor permite que alguém fale e entenda a linguagem das estrelas.

       Mas, muitos poemas de Bilac estão fortemente carregados de erotismo. “O erotismo consente em fugir à contingência, em refugiar-se na felicidade, em anular o tempo. O erotismo é um refúgio com relação ao mundo externo(FRANCESCO, A. p.57). Esta proposição teórica pode ser confirmada no soneto XVII (p.45), de Via Láctea. Vejamos os tercetos:

Sombras errantes, corpos nus, ardentes
Carnes lascivas… um rumor vibrante
De atritos longos e de beijos quentes…
E os céus se estendem, palpitando, cheios
Da tépida brancura fulgurante
De um turbilhão de braços e de seios (MP, p.45).

       O par amoroso tem a cumplicidade da escuridão da noite, as estrelas se escondem para não perturbar a realização amorosa. Mas o perfume cálido de rosas deixa o casal ainda mais inebriado de amor. É como se fosse um turbilhão de braços e de seios e corpos nus, ardentes, carnes lascivas, rumor vibrante. O que se percebe é que Bilac, para alcançar a conotação desejada, explora fortemente as imagens, as formas, as cores, os cheiros, os sons, a textura, conferindo a seus textos uma plasticidade por poucos alcançada e que não é privilégio apenas dos poemas amorosos. No poema lido, podemos selecionar vários exemplos de exploração de imagens que envolvem os sentidos. São imagens: visuais (brumosas, estrela pálida, névoas, sombras, corpos nus, céus, brancura fulgurante); táteis (frias, ardentes, atritos, quentes); olfativa (perfume cálido); sonoras (rumor vibrante de atritos longos). Devido à utilização de elementos concretos na construção das imagens, o poema ganha em plasticidade e o leitor pode “ver” a cena.

       No soneto XVIII (p.46), falando nos quartetos de seus próprios versos como se eles, partindo de seu peito, rompessem a escuridão da noite para encher os sonhos da amada, metaforicamente chamada de “pomba adormecida”, Bilac faz-nos lembrar Castro Alves com o poema “Adormecida” e Shakespeare com seu Romeu e Julieta: Vejamos os tercetos:

Dormes, com os seios nus, no travesseiro
Solto o cabelo negro… e ei-los, correndo,
Doudejantes, sutis, teu corpo inteiro…
Beijam-te a boca tépida e macia,
Sobem, descem, teu hálito sorvendo…
Por que surge tão cedo a luz do dia?!…(MP, p.46).

       Nestes versos, o erotismo é imaginado. O eu-lírico, enquanto escreve seus versos, imagina a amada dormindo. Os seios nus, os cabelos soltos correndo pelo corpo da mulher, sorvendo-lhe o hálito, beijando-lhe a boca, compõem uma imagem altamente erótica. Já o último verso remete-nos ao diálogo entre Romeu e Julieta, que preferem fingir que o dia não está amanhecendo, verso retomado por Castro Alves no também poema erótico “Boa noite”: “Que  importa os raios de uma nova aurora?!…” (ALVES, C. Poesias Completas, p.43/44).

       “O amor erótico é sempre uma eleição. É a escolha de nós como indivíduos, como criaturas únicas em meio à massa anônima dos outros” (ALBERONI, F. p.129). Esta escolha se dá quando dois seres se elegem e se sentem necessários para sua completude. O soneto XXXIV(p.57), embora evidenciando apenas uma forte dose de sensualidade, mas que não chega ao erotismo, deixa nas suas entrelinhas a conotação da escolha. O uso da gradação faz com que a imagem da amada, toda recatada nos quartetos: “Fica pálida, assusta-se, estremece”, surja mais atrevida e desejosa nos tercetos: “Corre, delira, multiplica os passos”. Ao ver a escolhida do seu amor, diz o eu-lírico:

E ah! Que desejo de a tomar nos braços,
O movimento rápido sustando
Das duas asas que a paixão lhe empresta(MP, p.57).

       É comum, nos sonetos selecionados de Via Láctea, que a amada seja comparada à natureza ou que a natureza se curve ante a mulher, que lhe preste homenagem como no soneto XIX(p.47); ou ainda que a natureza seja vista conforme o estado de espírito do eu-lírico como no soneto XXVIII(p.51). Outras vezes, a temática do amor torna-se mais metafísica, sentimento de alma para alma, quando o canto da amada faz com que o eu-lírico perca a noção do corpo físico, conforme o soneto XXVI(p.49). Outros poemas, como os de número XXXI(p.54) e XXXIII(p.56), remetem ao exílio como se, afastado das paragens natais e da amada, o eu-lírico se sentisse perdido. O sonho da volta e do reencontro alimenta o eu que fala.

      Portanto, os dezenove poemas selecionados por Marisa Lajolo, nesta antologia, trazem formas variadas de tratar o tema do amor. Alguns são mensageiros de um sentimento iniciante, mais platônico; outros tratam o tema do amor com sensualidade, enquanto outros mais chegam a um erotismo declarado. O importante é observar o nível da linguagem de Bilac nestes poemas. Não há gírias, nem palavras de baixo calão, nem obscenidades. Há, ao contrário, uma constante elaboração da língua com a construção de imagens que exploram os sentidos e a utilização de figuras como metáfora, inversão, antítese, paradoxo, gradação, personificação, que valorizam a linguagem e possibilitam a conotação.

4.3-SARÇAS DE FOGO

       A expressão “Sarça ardente” ou “Sarça de fogo” é encontrada na Bíblia, em Êxodos, 3:2,3,4, momento em que Deus fala a Moisés de dentro de uma sarça de fogo que não se queimava, não se destruía. Permanecia. Iluminava. Resistia, como a poesia resiste.

     Bilac - sarças de fogo Sarças de fogo, título da última coletânea da primeira edição de Poesias (1888), inicia-se com o famoso poema “O julgamento de Frineia” (p.58), dos Melhores poemas. Este texto poético é composto em sextilhas, versos alexandrinos e rimas paralelas. Neste poema, conforme Ivan Junqueira, “Bilac deixa transbordar todo o seu voluptuoso sensualismo… Bilac não foi apenas sensual: foi lascivo” (JUNQUEIRA, I. in Obras reunidas, p, 63).

       “O julgamento de Frineia” tem tonalidade narrativa. O narrador em terceira pessoa não só narra os fatos como descreve Frineia Mnezarete quando se vê obrigada a comparecer diante do Areópago (Tribunal) supremo. Ela é vista como o mais belo modelo para Praxiteles (Atenas, 390-330 a.C.), aquele que era considerado um dos maiores escultores gregos, e para Apeles, pintor grego, que viveu no século IV a.C., mulher belíssima, digna de ser defendida por Hiperides.

        Nenhuma hetera (cortesã na Grécia Antiga) se iguala a Frineia, nenhuma é capaz de mostrar com mais encanto e meneios dos quadris e os seios. Nua, faz até os deuses prostrarem-se à sua frente, durante os festivais de Elêusis, pequena cidade na Grécia antiga, perto de Atenas. O Tribunal, incitado por Eutias, vai julgá-la.

        Mas não são os apelos do seu defensor, seus rogos, suas ordens que salvam Frineia. O véu que cobre sua nudez, seus encantos e sensualidade é arrancado por ele e o Tribunal supremo é vencido pela Beleza. Vejamos a última estrofe:

Pasmam subitamente os juízes deslumbrados,
-Leões pelo calmo olhar de um domador  curvados;
Nua e branca, de pé, patente à luz do dia
Todo o corpo ideal, Frineia aparecia
Diante da multidão atônita e surpresa,
No triunfo imortal da Carne e da Beleza (MP, p.60).

       A utilização de letras maiúsculas para dar às palavras uma significação maior é comum no Parnasianismo. Neste caso, o poeta utilizou-as para que ficasse bem claro a razão do triunfo de Frineia: a Carne e a Beleza. Antes de serem juízes, são homens. E o homem é vencido pela Beleza da mulher e se enfraquece diante da sedução da Carne.

       Outro poema que segue a linha do anterior é “Satânia”(p.72/77). Bilac, neste poema, supera-se, a partir do título sugestivo, no que se refere ao erótico, ao lascivo. O narrador em terceira pessoa vai acompanhando a cena amorosa em que o ser humano se confunde com a natureza, e o recurso à metáfora e à personificação é altamente bem sucedido. A luz do meio-dia entra na alcova perfumada e quente e vai beijando o corpo da mulher a iniciar pelos pés. Bilac, realmente, não é só erótico; é lascivo como a luz quetremendo, como a arfar, desliza pelo chão, desenrola-see segue deslizando pelo corpo de Satânia”, conforme se lê nas páginas 72-73 desta seleção dos Melhores poemas.

        Mas, a noite chega. Há pela alcova vozes, gemidos, sussurros que logo aumentam e tornam-se gritos convulsivos: “É a voz da Carne, é a voz da Mocidade”(p.75). E o poema passa a dar voz às partes do corpo que clamam para ser amados, sentidos: braços, seios, boca.

        No entanto, toda esta cena que se desenrola diante do leitor parte do imaginário do eu que fala em terceira pessoa e que se dirige a um interlocutor.

       O que se tem ao final é a imagem de uma linda mulher vestida em seda, deitada sobre lençóis de linho, que “a soluçar, se escuta/ Num longo choro a entrecortada queixa / Das deslumbrantes carnes escondidas…) (p.77).

      Neste poema, composto de versos decassílabos, Bilac surpreende o leitor pela não preocupação com a perfeição da forma. As estrofes são irregulares, variando em tercetos, quartetos, sextilhas, oitavas, entre outras, e os versos são brancos. Mas, observa-se uma suave musicalidade vinda talvez do canto erótico do poema.

    Vários outros poemas de Sarças de fogo seguem esta temática do erotismo escancarado, sem reservas, mas sempre com uma linguagem cuidadosa, belas imagens, vocabulário culto, correção gramatical. O soneto “Na Tebaida” (p.66) mantém este tom, embora um pouco mais ameno, deixando expresso que os braços da amada prendem mais que uma cadeia de ferro. No entanto, os demais poemas que compõem a seleção em estudo são aqueles em que o amor se apresenta como um sentimento altamente contraditório como em “Abyssus” (p.62) em que a imagem da amada surge como “Bela e traidora! Beijas e assassinas…”, seduz, convida e fascina, mas destrói e mata. Daí o título “Abyssus”, palavra latina que significa abismo, no sentido de inferno, lugar que fica abaixo e que é cheio de sofrimento ou, simplesmente, lugar para onde vai a alma dos mortos. A utilização da gradação e do polissíndeto traz a conotação de ação continuada e letal. Leia o último terceto:

Falta-lhe o solo aos pés: recua e corre,
Vacila e grita, luta e se ensanguenta,
E rola, e tomba, e se espedaça, e morre…(MP, p.62)

       O sentimento amoroso surge ainda como um “Milagre” (p.67) capaz de a tudo transformar: a escuridão em luar; o lodo em céu e em flores; o gelo em primavera; a treva em luz; a noite em claridade. Belo e singelo poema composto em quartetos, versos curtos (octossílabos), rimas opostas e paralelas, caracteres que conferem ao texto alto grau de musicalidade. O mesmo ocorre no poema “Canção” (p.70), que pelo próprio título significa composição poética simples. Neste caso, os versos são redondilhas maiores (sete sílabas poéticas), rimas alternadas em que o poeta se utiliza dos vocábulos “riso” e beijo”, “formosa” e “divina” nas estrofes, através da inversão e da reiteração, tornando-o melodioso, musical, como se pode constatar nas duas primeiras estrofes:

Dá-me as pétalas de rosa
Dessa boca pequenina:
Vem com teu riso, formosa!
Vem com teu beijo, divina!
Transforma num paraíso
O inferno do meu desejo…
Formosa, vem com teu riso!
Divina, vem com teu beijo! (MP, p.70).

       “Pantum” (p.63) deixa entrever um sentimento de mágoa que em tudo se derrama ao entardecer porque o “eu” que fala passa e não é visto pela amada. Pantum é uma forma poética, em quadras, de origem malaia (da Malásia), na qual o 2º e 4º versos da primeira estrofe são o 1º e 3º da segunda; o 2º e o 4º desta estrofe são o 1º e o 3º da terceira e, assim, sucessivamente. Vejamos:

Quando passaste, ao declinar do dia,
Soava na altura indefinido arpejo (2º)
Pálido, o sol do céu se despedia,
Enviando à terra o derradeiro beijo.(4º)
Soava na altura indefinido arpejo…(1º)
Cantava perto um pássaro, em segredo
E, enviando à terra o derradeiro beijo,(3º)
Esbatia-se a luz pelo arvoredo(MP, p.63).

       Este jogo se dá até a última estrofe do poema em que a exploração de imagens visuais, olfativas, auditivas e táteis, através da utilização de elementos concretos da natureza, dá ao texto excelente plasticidade.

       Este clima de melancolia ao entardecer permanece ainda no soneto “Rio abaixo” (p.71), poema que descreve o pôr-do-sol às margens do rio. No mesmo ritmo do correr das águas, símbolo do tempo que passa, a noite vai descendo, até que um silêncio tristíssimo por tudo se espalha e a escuridão se faz completa. Mas, lentamente, surge a lua…

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido (MP, p.71).

       A seleção de Sarças de fogo feita por Marisa Lajolo encerra-se com um dos mais belos sonetos de Bilac, “Nel mezzo del camin…”(p.78). Nele, todo o clima de sensualidade exacerbada dos primeiros poemas dá lugar a um sentimento de vazio, de perda, de dor causada pela despedida.

       O leitor deve observar a musicalidade alcançada pelo uso das inversões, repetições e aliterações. Observe-se, ainda, o domínio completo do poeta ao se utilizar da cavalgadura (enjambement). O texto sugere uma emoção contida, abafada, pura e simples. A metáfora da estrada (vida) e do caminhar junto à pessoa amada que é interrompido ao meio, deixa no leitor, talvez, o mesmo sentimento de desolação provocado pela separação e pela despedida que é experimentado pelo eu-lírico.

3.4- ALMA INQUIETA

      Bilac - alma inquieta Alma inquieta é parte acrescida em Poesias, a partir da segunda edição (1902). Sobre esta, Ivan Junqueira afirma: “Alma Inquieta, se em nada acrescenta de significante ao que o poeta já nos dera, confirma-lhe ao menos todas as virtudes. Que o ateste… um soneto como ‘Inania verba’ que nos remete ao problema atual e nunca resolvido da impotência da palavra(JUNQUEIRA, I. in Obra reunida, p.64). Este soneto deixa evidente que, muitas vezes, as palavras são ocas de significado, são vazias para dizerem o que vai no íntimo do ser. Pelo que se lê do renomado crítico, os poemas que compõem Alma inquieta, então, reiteram temas antes já apresentados por Bilac nas partes anteriores.

       Afrânio Coutinho sobre esta mesma parte diz que em Alma inquieta,

Embora o poeta continuasse a linha sensual de sua poesia, já começava a perpassar um leve sopro de contemplação e de indulgência…, diretriz que culminaria, em Tarde, com uma atitude filosófica em face da vida. Da mesma forma, começariam a insinuar-se nos seus versos de Alma inquieta os temas da vida gasta, da velhice e da saudade, mais constantes em Tarde(COUTINHO, A. 1997, p.129).

       O que podemos observar é que os poemas que compõem Alma inquieta revelam um eu-lírico inquieto, confuso, diante de um sentimento tão contraditório quanto o amor e de sensações físicas, desejos tão exacerbados.

       Para este eu que fala, a poesia surge como uma forma de expressão deste sentimento tão contraditório, por vezes arrebatador, por outras, mais calmo, sem gritos ou agonia, mesmo que cause sofrimento como no poema “Incontentado”. Leiamos os tercetos:

Viva sempre a paixão que me consome,
Sem uma queixa, nem um só lamento!
Arda sempre este amor que desanimas!
E eu tenha sempre, ao murmurar teu nome,
O coração, malgrado o sofrimento,
Como um rosal desabrochado em rimas (MP, p.82).

       Este sentimento que, por vezes, só se revela através da poesia, tem suas contradições, pois, como as rosas, tem perfumes e espinhos; este sentimento que acorda a lira dentro do peito dos poetas, aparece em “A avenida das lágrimas” (p.79), poema composto por oito quartetos em versos alexandrinos (12 sílabas), dedicado “A um Poeta morto”.

      A partir da terceira estrofe, o poeta vai fazendo conotar a “avenida das lágrimas”, utilizando-se de termos com iniciais maiúsculas: “Via Dolorosa”, “Saudade” e “Calvário da vida”. O eu-lírico fala a um interlocutor, cuja alma ficou livre da desventura, sonhando com as delícias da lua. E, mais uma vez, a referência ao trabalho do poeta que se imortalizará através da sua poesia:

O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
-Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um Verso (MP, p.80).

       A persistência na temática do amor, explorando a sensualidade e o erotismo, é comprovada no poema “Noite de inverno” (p.83) em que o eu-lírico sonha com a chegada da amada em seu quarto “quase morta de amor e de ansiedade”. O poema é composto em doze sextilhas, mas Bilac varia a forma alternando uma estrofe com dois versos hexassílabos (seis sílabas poéticas) e quatro decassílabos, e outra com os seis versos decassílabos e rimas paralelas e opostas.

       Sob a chuva de fogo
De meus beijos, amor!, terias logo
Todo o esplendor do brilho primitivo:
E, eternamente presa entre meus braços,
Bela, protegerias os meus passos,
-Astro formoso e vivo! (MP, p. 85).

        Todo o poema explora as imagens visuais, táteis, auditivas e olfativas como pode ser observado em: silêncio e treva, sombra, braços rígidos, de gelo, corredor ermo e comprido, rumor, perfume. As figuras de linguagem são usadas com maestria: metáfora (chuva de fogo dos meus beijos, Astro formoso e vivo (a amada)); sinestesia (clarão ardente); comparação (E eles embalariam teu sono,/Como uma rede de ouro); elipse (Mas não vens! Não virás!); gradação (De gritos, de gemidos e de anseios), entre outras.

       O erotismo exacerbado, que se “vê” neste poema em que os gemidos, os gritos, os beijos de fogo em cascata subindo a colina dos seios, lambendo o pescoço da amada, fica no plano onírico, pois é um sonho, a amada não vem. O poeta retoma a segunda estrofe, repete-lhe os versos, modificando apenas o primeiro, para que o eu-lírico pareça acordar do sonho e retornar à realidade.

       O que mais chama a atenção do leitor nos “Tercetos” (p. 87) é a semelhança do diálogo entre as personagens de Bilac com o diálogo de Romeu e Julieta da obra de Shakespeare, o que já fora feito por Castro Alves no poema “Boa noite”.

       “Tercetos” é dividido em duas partes que não apresentam nenhuma dificuldade para o entendimento e em que o poeta se utiliza da inversão dos termos para provocar a musicalidade:

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!(MP, p.87).

       O par amoroso não quer se separar, finge que é noite ainda e que a manhã não chegou: Na segunda parte do poema, a manhã chega e os amantes não querem se desprender. Preferem esperar que a noite chegue novamente. Castro Alves, no poema “Boa noite”, nomeando a mulher como “Maria”, “Julieta”, “Marion” e “Consuelo”, faz com que o eu-lírico mencione o canto da cotovia, assim como Romeu dizia a Julieta:

Julieta do céu! Ouve… a calhandra
Já rumoreja o canto da matina,
Tu dizes que eu menti?… Pois foi  mentira…
…Quem cantou foi teu hálito, divina!
(ALVES, C. Poesias completas, p.43)

       Observa-se uma espécie de recriação da obra poética, de uma revitalização do texto de Shakespeare tanto pelo poeta romântico quanto pelo parnasiano. Há um erotismo nos textos que não escapa mesmo ao leitor mais desatento.

      O poema “A alvorada do amor” (p. 93) também recupera um texto anterior, só que agora é o texto bíblico de Gêneses. A voz em terceira pessoa, que inicia falando na primeira estrofe sobre o dia do Pecado, o da perda do Éden por Adão e Eva, cede o poder de voz a Adão que se dirige à amada e diz:

‘Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto! (MP, p.93).

       As palavras proferidas pelo primeiro homem à primeira mulher, além de altamente poéticas, deixam entrever que naquele momento de êxtase, a felicidade alcançada no prazer físico é maior que qualquer sentimento em relação à perda do paraíso: que importa Deus? Que importa a ira da natureza? Para ele, “o Amor, botão apenas entreaberto, / Ilumina o degredo e perfuma o deserto!” (p.94). Veja o poder sugestivo da linguagem metafórica. Para Adão, “bendito seja o momento” em que Eva, ao cometer um crime, revelou o amor com o pecado e o homem passou a se sentir maior que o seu Criador:

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
-Terra, melhor que o Céu! Homem, maior que Deus (MP, p.95).

       “In extremis” é, ao lado de “Inania verba”, um dos poemas mais louvados de Alma inquieta. Em seus versos, a natureza esplendorosa contrasta com o estado de espírito do eu-lírico. A primeira estrofe retrata um dia de sol brilhante e revela o pesar do eu que morre:

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados…(MP, p.91)

         Na última estrofe, Bilac, utilizando-se dos verbos no gerúndio e do polissíndeto, isto é, da reiteração da conjunção “e”, faz conotar a continuidade da ação, intensificando o estado de “agônica dispneia”, ou seja, da respiração cansada, da agonia da morte:

E eu  morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!(MP, p.92).

       O efeito obtido pelo poeta através dos recursos utilizados não é mérito apenas deste poema. Está em toda a sua obra. Bilac não temia a repetição nem o gerúndio; sabia criar as imagens a partir de elementos concretos, conferindo plasticidade aos seus poemas.

       “Maldição”(p.98) é soneto em que o eu-lírico faz uma reflexão sobre o que deixou de ser, de fazer, de viver, em vinte anos perdidos na vida. Pelo tom dos versos, confirma-se o que diz a crítica literária sobre certos poemas que compõem Alma inquieta. Há neles uma certa benevolência, um sopro de contemplação, isto é, de meditação profunda,  e  os temas da vida gasta, da velhice e da saudade, mais constantes em Tarde.

       Analisar cada um dos poemas restantes seria cansativo e repetitivo: “Vita nuova” (p.96); “Em uma tarde de outono” (p.97) e “Surdina” (p.99) seguem na mesma trilha dos poemas anteriores: amor, sensualidade, contemplação e… até uma melancolia suave, uma espécie de saudade do que não foi, explorando imagens como outono, viuvez, velhice, desconforto, deserto, vazio, campanário, soar de sino, neblinas, prece, frio. Este sentimento de angústia, de inquietação ou de introversão será visto com maior evidência em Tarde.

4.5- TARDE

   Bilac- Tarde Sobre Tarde, assim se referiu o poeta modernista Manuel Bandeira no volume da Obra reunida de Bilac: “Faleceu o Poeta quando se imprimia seu último livro, Tarde, uma coleção de sonetos tão diversos dos da Via Láctea quanto um triste crepúsculo o é de uma manhã de sol. A idade dos amores tinha passado, agora chegava a da reflexão:

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da idéia em perfeição… Pensar!”
(BANDEIRA, M. in Obra reunida, p.56).

     Muito apropriada a análise de Manuel Bandeira. Na verdade, os poemas que compõem Tarde levam mais à reflexão, ao pensar e pesar, ao remorso pelo que “poderia ter sido e que não foi”, como se lê no poema “Remorso” à página 106. Vejamos o primeiro quarteto:

Às vezes, uma dor me desespera…
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera (MP, p.106).

       Nesta primeira estrofe, as metáforas “outono” e “primavera” são criadas para fazer conotar a juventude e a velhice, termos que vêm explícitos no primeiro terceto. O eu-lírico se arrepende do que deixou de viver ora por virtude, pudor, ora por hipocrisia e tolice. Muitas vezes, o ser humano desperdiça oportunidades únicas de viver um momento feliz, ou por se deixar levar pelo sentimento de respeito, de pudor, ou por ser levado por falsos valores, por ter uma visão deformada da vida. No outono da existência, vem o remorso e o eu passa a refletir. Porém, o tempo perdido não se deixa recuperar, na estrada da vida não há volta, não adianta querer ter “mais cem vidas” para “Mais viver, mais penar e amar cantando!”

       O poema convida à reflexão de que é preciso saber viver e, em especial, saber envelhecer, pois se colhe na velhice o que se planta na juventude, preceito confirmado no poema “Messidoro” (p.107). Diz o eu-lírico à sua interlocutora: “A antevelhice é uma Pomona, /Que, se esmerando na final colheita / Dos frutos áureos, a paixão sazona.” Pomona, na mitologia latina, é a deusa dos pomares. Simboliza o outono. Assim, se a pessoa vive bem na juventude, na velhice será sábia, sóbria, senhor(a) de completo fulgor. É a colheita merecida. Por isso, aconselha o eu-lírico:

Ama!  e frui o delírio, a febre, o ciúme,
E todo o amor! E morre como um dia
Em fogo, como um dia que resume
Toda a vida, em anseios, em poesia,
Em glória, em luz, em música, em perfume,
Em beijos, numa esplêndida agonia! (MP, p.107).

       O tom crepuscular que passa a ser uma constante nos poemas do último livro de Bilac está evidente também no belo soneto “Vila Rica” (p.105). Nele, ao se descrever o pôr do sol em Vila Rica, evidenciam-se as péssimas consequências da exploração do ouro naquela terra, hoje Ouro Preto.

      Bilac- vila rica O poema é rico em sugestões cromáticas que se relacionam ao ouro e ao seu brilho (ouro fulvo, laivos de ouro, ouro do sol) e ao negro (da noite, o tempo enegreceu, Ouro Preto). Assim também, as sugestões sonoras explorando os efeitos da aliteração em “O ângelus plange ao longe em doloroso dobre” fazendo conotar o som do sino ao cair da noite. As figuras de linguagem são abundantemente usadas: metáfora (O último ouro do sol…); metonímia (Soluça um verso de Dirceu…); comparação (O crepúsculo cai como uma extrema-unção); personificação e aliteração (A neblina, roçando o chão, cicia em prece); inversão (Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição/ Na torturada entranha abriu da terra nobre) e a antítese que perpassa o poema para reforçar o contraste entre o passado e o presente, riqueza e pobreza, dia e noite, passado de glórias e presente de humilhações, o título e o final do poema (Vila Rica X Ouro Preto). O último terceto faz uma alusão aos inconfidentes e ao sofrimento a eles imposto, fechado com chave de ouro.

       Os títulos dos sonetos “Crepúsculo na mata” (p.103) e “Sonata ao crepúsculo” (p.104) não deixam dúvidas em relação ao conteúdo. Termos como ocaso, sombras, silêncio, sons de flauta de pastores, treva, contrastam com o esplendor da paisagem diurna, cheia de sons, de cheiros, de luz e de vida.

     Já o poema “Estrelas” (p.101) sugere a chegada da noite como algo belo em que a escuridão se desfaz com o brilho das estrelas que surgem mil a mil no céu antes azulado. A linguagem do texto é alegórica, pois o autor cria uma série de metáforas utilizando-se de termos como “aprisco”, “redil”, “rebanho”, “ovelhas”, “pastor”, sugerindo um curral repleto de ovelhas que vão escapando e enchendo o espaço. E o que mais impressiona em se tratando de um poema parnasiano, apesar dos termos clássicos, é a alusão ao “pastor que as conduz”, pois esta imagem sugere a presença invisível do Criador.

       O poema “Criação” (p.109) reitera não só esta mensagem do poder infinito do amor, da criação e do criador, como também a afirmação dos críticos literários de que o Bilac do último livro era outro. Realmente, o poeta mostra-se mais complacente, mais reflexivo, mais ligado às coisas da vida que, provavelmente, ele percebia se extinguir e menos parnasiano no conteúdo de seus poemas.

Criação
Há no amor um momento de grandeza,
Que é de inconsciência e de êxtase bendito:
Os dois corpos são toda a Natureza,
As duas almas são todo o Infinito.
É um mistério de força e de surpresa!
Estala o coração da terra, aflito;
Rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,
E de todos os astros rompe um grito.
Deus transmite o seu hálito aos amantes:
Cada beijo é a sanção dos Sete Dias,
E a Gênese fulgura em cada abraço;
Porque, entre as duas bocas soluçantes,
Rola todo o Universo, em harmonias
E em glorificações, enchendo o espaço! (MP, p.109).

     Desaparece o tom de sensualidade e de erotismo. O encontro entre a mulher e o homem e a relação física entre eles têm outra conotação. É o momento da fecundação, do êxtase divino, da sanção dos Sete Dias, portanto, a Gênese de uma vida. O corpo e a alma de cada um são a Natureza e o Infinito e os astros festejam porque Deus dá ao homem o seu poder de criação.

       O estilo de Bilac caracteriza-se também pelo recurso à enumeração. São inúmeros os poemas em que o autor se utiliza desse artifício em suas Poesias. Tomemos como exemplo o segundo quarteto “Crepúsculo na mata”:

Tudo, entre sombras, – o ar e o chão, a fauna e a flora,
A erva e o pássaro, a pedra e o tronco, os ninhos e a hera
A água e o réptil, a folha e o inseto, a flor e a fera,
-Tudo vozeia e estala em estos de pletora (MP, p. 103).

       A utilização muito constante desse recurso pode tornar o poema vazio. Assim, o poeta se vê na contingência de buscar uma ideia que possa unir as enumerações e dar um belo sentido ao texto.

       O volume impresso de Tarde não pôde ser manuseado ou visto pelo seu criador. Como disse Manuel Bandeira, o poeta morria quando o livro saía da impressora. Mas, o que a crítica é unânime em dizer é que nele não há acréscimo, há uma visão diferente diante da vida, uma saudade, uma melancolia, um ar de fim de tarde.

4.6-OS POEMAS LICENCIOSOS

       Enganam-se aqueles leitores que acreditam que Bilac foi sempre o poeta sério ou sisudo que não brincou com a palavra, com as coisas mais corriqueiras da vida como a maledicência, a fofoca, a traição, o engodo, a sexualidade exacerbada, a ironia, a sátira às questões políticas e sociais de sua época. Dissemos, anteriormente, com base nos depoimentos de Marisa Lajolo e de Alexei Bueno que o príncipe dos poetas é autor de versos satíricos e licenciosos e que a Obra reunida premiava apenas os livros de versos considerados sérios.

     Bilac- contos para velho A seleção dos Melhores poemas, ora em estudo, apresenta, a partir do soneto “O arrendamento” (p.110), onze poemas que não constam de nenhum dos livros que compõem a edição Obra reunida, da Editora Aguilar (1996), nem a edição Obra completa, da Livraria Francisco Alves (1943). Estes poemas constam, provavelmente, da obra Contos para velhos, assinados com o pseudônimo “Bob”, talvez para resguardar a sua imagem de homem sério, mas que tornou o poeta bastante popular. Vejamos como no poema transcrito fica patente o engodo, digamos mesmo, a esperteza, a safadeza:

At home
Casou Pafúncio Meneses
Com Dona Ana de Tabordo
E, ao cabo de cinco meses,
Nasceu-lhes um bebê gordo.
Ele com ar de tirano
Se arrepela e desespera:
“Senhora! ou muito me engano
Ou antes de ser já era!”
Mas diz Dona Maria em segredo:
“Homem, não seja covarde!
O bebê não nasceu cedo:
Você é que casou tarde!” (MP, p. 115).

       Um dos poemas mais maliciosos, em que o poeta usa um trocadilho para obter certos efeitos, é “Medicina”(p.111/112) e que, de certa forma, aponta para um problema, uma preocupação, hoje, denunciada pela mídia. O leitor entenderá: Rita Rosa, com uma inflamação no dedo, vai se consultar com o padre Jacinto que lhe aconselha a colocar o dedo num lugar bem quente para rebentar o tumor. No outro dia, já sem dor alguma, toda contente, a menina vai falar com o padre que lhe diz ter também um tumor e a menina se propõe a curá-lo. Vamos ler os três últimos quartetos:

Ó padre! Mostre o seu dedo,
(Diz a Rita), por favor!
Mostre! porque há de ter medo
De lhe aplicar o calor?
Deixe ver! Eu sou tão quente!
Que dedo grande! Que horror!
Ai… padre… vá… lentamente…
Vá… gozando… do calor…
Parabéns… padre Jacinto!
Eu… logo…vi…que o calor…
Parabéns, padre… Já sinto
Que … rebentou o tumor…”(MP, p.112).

       Observe como mudou o nível da linguagem, como o uso reiterado das reticências faz conotar a malícia, assim como o trocadilho (Jacinto e Já sinto) provoca o ludismo da linguagem, ou seja, a brincadeira com a palavra.

     Outros poemas como “O carnaval no Olimpo” (p.120-125) e “Hamlet” (p. 126-131) versam sobre problemas nacionais. São textos cheios de humor que ironizam os políticos e a política, as tramoias, a reeleição e outros “probleminhas” muito conhecidos do público de hoje. Os dois poemas estão em forma de texto teatral, marcados pelo diálogo e pelas indicações cênicas. O poema “Cartas chinesas”, a modo das “Cartas chilenas”, de Tomás Antônio Gonçalves, fala de outro país para disfarçar a verdadeira intenção que é denunciar as “coisas” que vão erradas pelo Brasil. Dividido em cinco partes, o poema fala da situação da China, mas pode-se aplicar à nação brasileira. Critica a polícia e o jogo do poder assim como fala dos poetas e dos críticos literários.

       Para concluir esta parte, devemos afirmar que os onze poemas que fecham a seleção feita por Marisa Lajolo destoam de todos os demais, seja pela linguagem, pelo tom de deboche, pela licenciosidade, pela brincadeira e pela sátira que lembra bem as cantigas de maldizer e de escárnio da Idade Média, embora noutras medidas e formas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       Mário de Andrade, numa crítica bem (mal?) humorada da obra bilaquiana, disse que ao ouvir o poeta recitando pela primeira vez seus poemas de Tarde teve a ligeira impressão de que já os tinha ouvido e de que os poemas se repetiam. Pode ser que esta impressão se tenha dado pela reiteração dos temas e da técnica, o que ocorre também na seleção em estudo.

       Pelo fato de Marisa Lajolo ter optado pelo Bilac amoroso, então, mais que natural que os poemas tratem das relações amorosas, da sensualidade, do erotismo. Ainda bem que esta fora sua opção, pois ao estudante do Ensino Médio só se dá a conhecer o Olavo Bilac de “Profissão de fé”, de “A um poeta” ou de “Ora (direis) ouvir estrelas!…” . Pudemos, assim, conhecer outra faceta de sua poesia e, mesmo que pareça que os poemas se repetem, cada um é um ser único, mereceu seu momento de criação, de reflexão, de trabalho e de suor.

    Mas, ao leitor mais atento, cuidadoso na leitura que faz, não deve ter passado despercebida a evolução de um poeta, tipicamente parnasiano, para um poeta mais subjetivo, mais emotivo, mais atrevido e, até, mais abusado. Porém, este leitor deve ter percebido também o cuidado com a linguagem, com as imagens, com a exploração dos extratos sonoros, visuais, olfativos e táteis. Deve ter havido a percepção da utilização de elementos concretos, em especial os da natureza, para a consecução das imagens e para o alcance da plasticidade dos textos. Há que ter notado a diferença da linguagem empregada nos chamados versos sérios daquela utilizada nos poemas licenciosos.

       Bilac não abriu mão da forma. Manteve-se fiel à busca da perfeição, permitindo-se, no entanto, pequenas variações de um poema para outro ou no mesmo poema, mas sem deixar de manter a perfeição. Observamos uma real preferência pelos decassílabos e alexandrinos bem como pelo soneto. Grande parte destes sonetos são fechados com a famosa “chave de ouro”, verso que resume a ideia do texto.

       Panóplias, Via-Láctea, Sarças de fogo, Alma inquieta e Tarde são os livros de onde Marisa Lajolo, de acordo com o seu critério, selecionou os Melhores poemas. Mas, há que se lembrar que o volume das Poesias contém ainda: As viagens e O caçador de esmeraldas e que a inclusão de Tarde é póstuma.

REFERÊNICIAS

  1. ALBERONI, Francesco. O erotismo. Trad. Élia Edel. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
  2. ALVES, Castro.Poesias completas. Coleção Prestígio. Tecnoprint. s/d.
  3. BILAC, Olavo. Melhores poemas. Seleção de Marisa Lajolo. São Paulo: Global, 2003.
  4. ___________. Obra reunida. Organização de Alexei Bueno. Rio Janeiro: Nova Aguilar, 1997.
  5. __________. Obra completa. Rio Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1943.
  1. BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
  2. CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira. São Paulo: Atual, 2000.
  3. COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Vol. 4. São Paulo: Global, 1997.

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