Dom Casmurro – Machado de Assis

 

Machado de Assis 2

INTRODUÇÃO

        Falar de Machado de Assis é tarefa árdua, pois à medida que penetramos no seu universo, um mundo de realidades, análises e críticas descortinam-se em forma de ficção. O trabalho de comentar algum de seus textos é trabalho que enriquece porque em Machado tudo é sempre novo, atual e, nas várias releituras que se fazem necessárias, algo diferente ou despercebido aparece. Resulta daí que o leitor deverá estar muito atento ao que não foi escrito, mas apenas sugerido, pois uma das características de seu estilo é dizer através do não dito.

        Este estudo é uma tentativa de penetrar no mundo machadiano e de desvendar as artimanhas da narração, ou seja, os recursos utilizados pelo autor para proceder à urdidura do romance.

        Com este objetivo, tentaremos localizar o autor no tempo e no espaço. Em seguida, faremos uma abordagem sobre o romance e os procedimentos machadianos na composição do estilo e, portanto, no papel do narrador, bem como das influências românticas que se fazem marcantes ou ironizadas.

      Sabemos que Machado de Assis é um autor preocupado com a análise interior e grande observador do comportamento humano, das pequenas coisas como uma expressão de rosto, um sorriso, uma lágrima, um roçar de pele. Portanto, este estudo tentará compor os retratos mais significativos do romance e tecerá breve comentário sobre o adultério na obra do criador de Capitu.

1-MACHADO DE ASSIS NO TEMPO E NO ESPAÇO

      Rio de Janeiro sec. XIXPara tentar compreender a obra de um escritor, necessário se faz situá-lo no  tempo e no espaço de sua atuação. Como burocrata e literato, Machado atuou na cidade do Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XIX. As belezas da cidade maravilhosa podem ser visualizadas através de sua obra, bem como os costumes que caracterizavam a sociedade daquela época e a História oficial que aparece aqui, acolá, “mas é captada principalmente através dos reflexos no universo moral dos indivíduos” (TEIXEIRA, I. 1987, p.2). No entanto, o que interessa ao autor é o homem que habita aquele cenário, que vive naquela época, no que ele é interiormente, em essência.

       Em toda a sua obra, Machado de Assis analisa o homem de seu tempo. Embora colocando-o em atuação no Rio de Janeiro, é o homem universal, é a sociedade burguesa de forma geral que estão sendo observados. Ao autor preocupa mostrar o ser humano dividido, fragmentado, que se revela falando, agindo, comportando-se como um ser contraditório. O dualismo, como característica de todos os homens, vai ser observado e mostrado em toda a sua obra e é por isso que ela permanece atual, viva.

       Através de textos multissignificativos, o autor mostra o homem de seu tempo, a sua realidade e as questões que estão relacionadas com o homem de todas as épocas. Para tanto, trabalha uma temática que envolve o amor, o ciúme, a morte, a afirmação pessoal, a insegurança, o jogo da verdade e da mentira, a vaidade, a dissimulação, a relação entre o ser e o parecer, a luta entre o bem e o mal, o adultério, a hipocrisia humana.

        Numa época em que o homem estava atento ao grande desenvolvimento científico e em que a literatura passava a refletir a euforia das novas descobertas, Machado de Assis, distanciando-se desse posicionamento, passa a olhar o homem por dentro. Contrariando o Realismo da época, centrado no Positivismo de Comte, no Evolucionismo de Darwin, no Determinismo de Taine e do Marxismo científico, o autor cria um estilo em que critica este cientificismo. Basta ver a ironia da teoria do Humanitismo do filósofo louco, Quincas Borba; as conclusões de Simão Bacamarte em “O alienista”; o sadismo do médico no conto “A causa secreta”, entre outros exemplos. Portanto, o seu estilo particular não segue regras pré-estabelecidas, ao contrário, associa o feitio da obra à vida que para ele é como um jogo ou uma ópera.

      Na obra machadiana, o leitor depara-se com conhecimentos universais como Simbologia, Filosofia, Sociologia, Psicologia, Metafísica, Teologia, doutrinas esotéricas, o que explica o grau de profundidade da sua visão de mundo. No entanto, diferentemente dos realistas e dos naturalistas que explicam o homem pelas ciências, Machado busca-o como um enigma e, daí, surge um homem único, capaz de grandes surpresas. Machado de Assis é, pois, realista por situar-se no Realismo, mas contrariando os preceitos da época, foi além, demonstrando que seu estilo ultrapassa as normas realistas. É de tudo um pouco: barroco, romântico, realista, simbolista, moderno, sobretudo moderno, dado o seu adiantamento no tempo.

2-DOM CASMURRO

      Publicado em 1899, Dom Casmurro é o mais intrigante e, talvez, o mais estudado romance de Machado de Assis. Esta obra traz como tema um possível (ou não) adultério sob a ótica de seu narrador. Bentinho, Capitu e Escobar constituem um tema muito explorado na literatura: o triângulo amoroso. A nós, leitores, cabe conhecer o perfil psicológico de cada personagem e os fatos narrados pelo filtro da visão do Bentinho já velho, isto é, de Dom Casmurro.

2.1-CONSIDERAÇÕES GERAIS

      Memórias póstumas de Brás Cubas (1881); Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899) constituem o ponto máximo da obra machadiana. Diferentemente dos dois primeiros, publicados em periódicos, Dom Casmurro, em primeira edição, foi publicado em volume. Este fato contribuiu para que a crítica o acolhesse com grande entusiasmo, até mais que os outros, dado ao aspecto de obra pronta, vista no seu todo.

      Machado de Assis traz como tema, nesta obra, o adultério sob o ponto de vista de Bento Santiago, o Dom Casmurro, velho, solitário, que se procura como o Bentinho da infância, da adolescência, da juventude. Julgando-se traído pela esposa amada, Bentinho condena-a e nega a paternidade do filho. Envia mulher e filho para a Suíça onde Capitu morre anos mais tarde sem nunca mais se terem visto. Sozinho, Bentinho torna-se um homem fechado em si mesmo e, na velhice, já como Dom Casmurro, resolve contar sua história num livro que pretende publicar. O seu “fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”(Cap. II).

       Colocando-se como escritor, o narrador tece comentários sobre a publicação do livro, sobre o seu estilo e orienta o leitor. No último capítulo, deixa evidente a sua intenção de abraçar a carreira literária. Terminada a história de sua vida, está pronto para iniciar outro livro: “Vamos à história dos subúrbios” (cap. CXLVIII), o que exime o autor de qualquer responsabilidade sobre o relato, afinal, quem está com a palavra é Bentinho.

       Em Dom Casmurro, Machado de Assis alcança a dimensão maior da universalidade, preocupado que é com a investigação da existência.  Apresentando situações-problema, vai construindo uma tipologia humana, o que explica o universalismo do autor. O ciúme, tema abordado em outras obras como  Ressurreição, seu primeiro romance, é retomado em Dom Casmurro. Em Ressurreição, Dr. Felix, enciumado, envenenado por uma carta anônima, deixa de viver feliz com Lívia, a mulher amada. Voltando ao tema em Dom Casmurro, muitos anos depois da publicação do primeiro livro, Machado cria Bentinho, um ser envenenado não por uma carta anônima, mas pela semelhança que ele teimava em ver entre o filho e  o amigo Escobar.

otelo      Dom Casmurro, mais que uma retomada de Ressurreição, é uma retomada do drama Otelo, de Shakespeare. Nesta peça, Otelo, enlouquecido pelo ciúme, instigado por seu subalterno, Iago, por causa de um lenço, mata Desdêmona e, logo após, descobre que a esposa é inocente. No capítulo CXXXV da obra de Machado de Assis, Bentinho compara sua situação à de Otelo; a de Capitu com a de Desdêmona: “Um lenço bastou para acender os ciúmes de Otelo… Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis” – diz Bentinho. Otelo mata a mulher sob o aplauso da plateia. Bentinho não expõe Capitu, mas condena-a à solidão e ao desterro, agindo de acordo com os valores da sua época. Como em Ressurreição e em Otelo, o ciúme é visto em Dom Casmurro como causa de perdição.

        Dom Casmurro é um minucioso trabalho de observação do pormenor, do cotidiano. É a análise da tragédia conjugal por meio da “investigação das relações afetivas do homem com os valores de seu grupo”. E o caráter de obra-prima que possui o romance só se explica pela natureza poética de seu texto.

2.2- O NARRADOR DE SI MESMO

       Dom Casmurro é a autoanálise de Bento Santiago que, como sobrevivente de uma história de amor com final trágico, acha-se emotivamente estrangulado por julgar-se um homem traído pela esposa amada, embora sem nenhuma prova concreta dessa traição, a não ser a pretensa semelhança entre o filho e o amigo Escobar que só ele via. Para Bentinho, escrever o livro é uma forma de exorcizar os demônios do passado e, ao mesmo tempo, justificar-se pelas atitudes tomadas contra a esposa e o filho, bem como preencher o vazio do tempo e espantar a solidão.

       A preocupação constante da crítica literária e do leitor é ressaltar a ambiguidade e a dissimulação de Capitu, esquecendo-se de que a personagem mais complexa é Bentinho. Afinal, é sob seu ponto de vista que vemos Capitu e, como a história é rememorada pelo narrador, anos e anos depois, Capitu não tem oportunidade de apresentar sua versão dos fatos, a ela não é dado o poder de voz.

      Como é um romance de memórias, os fatos são apresentados prontos e acabados e, além do mais, aparecem modificados pela ação do tempo decorrido entre os acontecimentos (passado) e o relato (presente). O “eu” que narra já não é o mesmo que experimentou os fatos. Em outras palavras, o eu-narrador, já experiente e amadurecido, vê os fatos vivenciados outrora sob outra perspectiva, isto é, apaziguado pelo tempo:

Agora é que o lance é o mesmo; mas se conto aqui, tais quais, os dois lances de há quarenta anos, é para mostrar que Capitu não se dominava só em presença da mãe; o pai não lhe meteu mais medo (Cap. XXXVIII).

       Bentinho conta sua história quarenta anos depois, numa época em que, sozinho e casmurro, tem necessidade de expor a si e ao mundo o seu retrato íntimo e, principalmente, o de sua mulher. Essa necessidade pode-se explicar de duas maneiras: ou Bentinho quer justificar-se perante a si e aos outros aliviando sua consciência, ou é ele o “outro-eu” do autor, um romancista preocupado em devassar o mundo interior, a intimidade dos seres humanos. É através de Bentinho que conhecemos o interior de Capitu, de D. Glória, de tio Cosme, da prima Justina, de José Dias, de Escobar e de Sancha.  Mas é a visão de um homem amargo que se julga traído e, o que é pior, afirma que o fora. Dom Casmurro, além dos retratos psicológicos que apresenta para tratar do ciúme e da traição, põe o leitor diante da dúvida entre o que se sabe das pessoas e o que elas realmente são, ou seja, o eterno jogo entre a aparência e a essência, tema tão recorrente na obra machadiana.

       A grande qualidade da obra está no seu poder de sugestão, resultado do foco narrativo em primeira pessoa. Trata-se de um narrador-personagem que se coloca como escritor. E por ser esta primeira pessoa um narrador problemático, a densidade psicológica é evidente. O enigma de Capitu está exatamente no fato do narrador ser uma personagem complexa que, ao mesmo tempo, vive e relata e se constitui no ponto chave para que o leitor se aproxime desse enigma.

       Uma das artimanhas do romance está no fato de o narrador não ser confiável, pois ele mente, distorce os fatos, esquece ou finge esquecê-los, confundindo o leitor com quem conversa o tempo todo. Tudo isso ocorre porque conta os fatos sob sua ótica e tenta carregar consigo o leitor de forma que este acredite na sua versão e simpatize com ele ficando, automaticamente, do seu lado e, por consequência, contra Capitu, a quem não é dado o direito de defesa.

       Outra observação que se deve fazer é quanto à “habilidade com que o narrador faz parecer sem importância o que é fundamental” (AMARAL) como, por exemplo, o porquê do título “Dom Casmurro”. Da forma displicente, apesar de ser um trabalho metalinguístico, como ele justifica esse título, no primeiro capítulo, parece mesmo ser fruto de um apelido que recebera num trem dado por um jovem poeta. Porém,  durante a narrativa os termos “Dom”e “Casmurro” vão sintetizando as causas de sua fisionomia fechada, de seu ser solitário e amargo, de sua intransigência, de sua personalidade forte.

     casa no Engenho Novo 2 Esta habilidade fica também evidente no capítulo II, quando o narrador parece falar de si mesmo sem dar a isso muita importância. Aparentemente, ele fala de si com a mesma casualidade com que fala de sua casa. No entanto, apesar dessa aparente casualidade, o leitor vai percebendo a importância do passado na velhice do Bentinho, agora Casmurro. Por isso, ele constrói no Engenho Novo uma casa igual à de sua infância em Matacavalos e passa a escrever um romance no qual possa atar as duas pontas da vida: a adolescência e a velhice.  Escreve, portanto, para preencher os vazios deixados pelos que se foram e, principalmente, o vazio de si mesmo e a lacuna entre passado e presente, entre o Bentinho que fora e o Dom Casmurro que é:

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo e esta lacuna é tudo (Cap. II).

       A intenção de reviver o passado no presente, de reencontrar-se na medida em que escreve é evidente, mas o narrador escamoteia este objetivo atribuindo às imagens dos quadros na parede de sua casa a inspiração para a escritura de um romance em que falasse de si mesmo:

Foi então que os bustos pintados nas paredes entravam a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse eu da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: ‘Aí, vindes outra vez, inquietas sombras?…’ (Cap. II).

      A não confiabilidade do narrador, as artimanhas que usa fazendo parecer sem importância o fundamental, os modos pelos quais confunde o leitor, o recompor o passado no presente são pistas que nos levam ao enigma em Dom Casmurro, “cujo manancial de sugestões não se esgota nunca, obrigando por isso mesmo a crítica a tê-lo sempre sob a alça da mira” (GOMES,  E. 1990, p.6). Por isso é que, a cada releitura da obra, o leitor descobre que está diante do novo, do inusitado, do surpreendente.

2.3-A DISTÂNCIA TEMPORAL

      Dissemos anteriormente que o narrador problemático em Dom Casmurro é uma personagem que, em dado momento da velhice, acha-se propenso a escrever um livro contando a própria história.

Estação Central-Rio 2       No começo da narrativa, estamos no presente do narrador. Um presente mais ou menos vago: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro….” (Cap. I). Pode-se notar, no entanto, que é um presente já passado, ainda que muito próximo e, ao final do capítulo, já se sabe que o livro não tratará do presente, mas do passado. O presente, portanto, é o tempo do relato, o tempo em que o narrador procede à escritura do livro, faz suas considerações e avaliações, explica o título, faz citações e reflexões.

      No segundo capítulo, o narrador expõe os motivos pelos quais está escrevendo o livro: “o meu fim evidente era atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência”.  Em outras palavras, o que ele quer é resgatar, como narrador, o que fora como personagem. Atando as duas pontas da vida, procurando o “tempo perdido”, narrando no momento presente, Dom Casmurro procura-se como Bentinho e tenta refazer um quadro inserido no passado. Ao narrar o passado no presente, estabelece uma distância temporal entre o que foi e o que é. Dessa forma, amadurecido, elabora todo um questionamento sobre a “integridade do ser” e, como se coloca como escritor, emite comentários e avaliações sobre o rendimento da escrita, num trabalho de metalinguagem do qual falaremos adiante.

       Dom Casmurro é um romance de memórias e, na ficção, as memórias são uma forma de relato em que o sujeito e o objeto da criação ficcional coincidem. “A personagem tenta reunir e dar sentido a uma parte de sua vida, esforçando-se por destacar as linhas de força” ( BOURNEAUF e OUELLET, 1986, p.115).  É o que faz Bentinho. Recorda os acontecimentos de seu passado buscando-os na memória de maneira que vai encenando as próprias impressões, reações e pensamentos como foram na época em que os fatos se passaram. Disso resulta que muitas vezes o discurso toma um caráter emotivo:

Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão(…) e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Desse modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender lendo (Cap. II).

     Pelo trecho transcrito, podemos perceber também que a distância temporal se instaura entre o eu-narrador e o eu-narrado. Esta distância entre o “eu” que agora narra os fatos e o “eu” que os vivenciara permite que o discurso se manifeste de três formas: ora possibilita ao narrador analisar o passado tomando consciência de alguns aspectos outrora despercebidos; ora permite ao narrador uma observação deformante dos fatos; ora reproduz no narrador as mesmas sensações da época em que os fatos aconteceram:

Há tanto tempo que isto sucedeu que não posso dizer com segurança se chorou deveras, ou se somente enxugou os olhos, cuido que os enxugou somente. Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mão para animá-la, mas também eu precisava ser animado. Caímos no canapé e, ficamos a olhar para o mar. Minto; ela olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo que a vi assim… Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma… (Cap. XLII).

       O narrador assume uma posição analítica diante do passado. Assim, o discurso traz a narrativa até o presente do narrador que a julga, protegido pela distância temporal, ou seja, pela distância entre o eu que foi e o eu que é. Agora, experimentado e amadurecido, encara os fatos por outro ângulo, pois o narrador que conta já não é a personagem de outrora. Está dividido entre aquele que viveu intensamente os acontecimentos e neste que, no presente, evoca o passado. É um resgate daquilo que foi como personagem no que é como narrador:

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira (Cap. II).

       A distância temporal estabelecida propicia o caráter analítico do discurso como se observa no trecho acima. Além disso, a tentativa de resgate do passado evidencia-se desde a recriação do espaço físico (a reconstrução da casa de sua infância) onde sua vida se desenrolou, até a recriação da atmosfera do que nela havia, com o contraste de sempre entre a vida interior e a exterior: “Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa” (Cap. II).

       É ainda interessante observar que o narrador se adianta no tempo do leitor como se este já estivesse procedendo à leitura do livro, como ocorre nos trechos abaixo transcritos:

A leitora, que ainda se lembrará das palavras, dado que me tenha lido com atenção, ficará espantada de tamanho esquecimento, tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes de sua infância e adolescência (Cap. CX).
A leitora que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje, quer fechá-lo às pressas, ao ver que beiramos um abismo. Não faça isso, querida, eu mudo de rumo (Cap. CXIX).

      Portanto, é desta transação entre passado e presente, presente e futuro, entre narrador e personagem, sujeito e objeto que o discurso se estabelece em Dom Casmurro, caracterizando o tempo psicológico do romance.

3- RETRATOS

retrato de Bentinho e Capitu    A preocupação constante de Machado de Assis e que, neste romance, é passada ao leitor pelo narrador Bentinho, é a análise psicológica do ser. O que importa para o autor é o que a pessoa é por dentro e, dessa forma, podemos fazer o retrato psicológico de suas personagens em toda a sua obra. Machado vai, através dos narradores e personagens que cria, esculpindo suas imagens, aos poucos, em pequenas doses, nunca de uma só vez, o que é uma característica de seu estilo. Não apresenta a personagem pronta, mas devagar, obrigando o leitor a estar atento para que, juntando os pedaços, possa ter o todo finalmente.

3.1-O RETRATO DE CAPITU

       Acabamos de afirmar, em outras palavras, que a descrição na obra machadiana não é feita de um só fôlego. Ao mesmo tempo em que este estilo não cansa o leitor, obriga-o a participar da montagem das personagens e, portanto, a estar mais atento a detalhes que são essenciais. Vejamos, através de um levantamento, como Capitu vai se formando aos nossos olhos, física e, em especial, psicologicamente. Para que possamos “ver” Capitu, transcreveremos alguns fragmentos em que ela é descrita:

*Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta forte e cheia, apertada em um vestido de chita meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo (Cap. XIII).
*Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já suas ideias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos (Cap. XVIII).
*Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada (Cap. XXV).
*Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova (Cap. XXXII).
*Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou à porta, ela abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contração de acanhamento, um riso espontâneo e claro… (Cap. XXXIV).
*Nem sobressalto nem nada. Nenhum ar de mistério da parte de Capitu; … Como era possível que Capitu se governasse tão depressa e eu não? (Cap. LXXXIII).
*Não obstante, achei que Capitu estava um pouco impaciente por descer… Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim… tudo  me mostrou que a impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado (Cap. CII).
*De dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os braços é que…Os braços merecem um período (Cap. CV).
*A resposta de Capitu foi um riso de escárnio, um desses risos que não se descrevem, e apenas se pintarão… (Cap. CXII).
*Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsas, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror e desconfiança. É certo que Capitu gostava de ser vista e o mais próprio para tal fim (…) é ver também, e não há ver sem mostrar que se vê (Cap. CXIII).
*Dali em diante foi cada vez mais doce comigo; não me ia esperar à janela, para não espertar-me os ciúmes, mas quando eu subia, via no alto da escada, entre as grades da cancela, a cara deliciosa da minha amiga e esposa, risonha como toda a nossa infância (Cap. CXV).
*Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas… (Cap. CXXIII).
*Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada de meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem de cigana oblíqua e dissimulada… O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente (Cap. CXLVIII).

       Juntando os fragmentos transcritos, podemos traçar o perfil de Capitu visto sob a ótica de Bentinho. Capitu é apresentada como uma garota e mais tarde como uma mulher forte, esperta e, principalmente, dissimulada. Sua capacidade em esconder ou disfarçar emoções desde adolescente é vista por Bentinho como um fator que a compromete e condena. O retrato que se levanta aos olhos do leitor é o de uma mulher meiga, carinhosa, atenciosa, alegre e amiga, mas altamente enigmática, ardilosa, um mistério a ser desvendado.

3.2 O RETRATO DE BENTINHO

     Da mesma forma como Bentinho vai mostrando Capitu, o leitor vai tomando conhecimento de sua personalidade. No início, o narrador-personagem mostra-se um homem amargurado, solitário e casmurro que resolve se “ver” no passado: o menino obediente e respeitador; o adolescente inseguro e nervoso que se deixa trair por suas reações; o jovem apaixonado e amante; o marido ciumento e desconfiado, vingativo e frio; o velho solitário e casmurro, que é o mesmo do início da narrativa.

       A desconfiança a respeito do comportamento de Capitu em relação a Escobar também vai chegando em conta-gotas para o leitor. No capítulo CXII, Bentinho começa a “descobrir” semelhanças entre o filho, Ezequiel, e o amigo Escobar (também Ezequiel). No capítulo seguinte, Bentinho relembra o episódio do teatro. Capitu não fora com ele assistir ao drama Otelo, de Shakespeare, alegando indisposição. Ao retornar, Bentinho encontra Escobar em companhia de Capitu. Suas dúvidas estão bem evidentes no capítulo CXV, “Dúvidas sobre dúvidas”. A mudança no tratamento dado por sua mãe a Capitu é relembrada de forma recorrente como se confirma no capítulo CXVI em que também se refere ao modo como o agregado José Dias chamava Ezequiel: “Filho do homem”. Mais adiante, capítulo CXXXII, Bentinho vê no filho o amigo Escobar surgindo da sepultura, do seminário, do Flamengo. Próximo ao final, capítulo CXLV, quando depois da morte de Capitu, na Suíça, Ezequiel retorna ao Brasil, Bentinho conclui:

… era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de S. José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo, e, salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava à moderna, naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai …(Cap.CXLV).

       Assim, Bentinho revela-se um homem inseguro, amargurado, possessivo, para quem o ciúme fora a causa da perdição. Não tem provas da traição de Capitu, mas afirma que o que diz sobre ela é verdadeiro. À medida que sua imagem vai sendo esculpida por ele mesmo, o apelido que recebera no trem e que dá título ao livro vai sendo justificado. A insegurança, a amargura, a desconfiança, a solidão, os desenganos fazem de Bentinho um homem fechado em si mesmo, retraído, amargo, casmurro, ironicamente, Dom Casmurro.

       Sobre Bentinho é necessário ainda que se observe que desde o início do romance, o Dom Casmurro narrador vai mostrando o Bentinho personagem através de lances em que o leitor possa notar uma certa maldade, um ar de superioridade que lhe vão caracterizar a personalidade.

       No início, podemos perceber com que ironia ele se refere ao jovem que se pretendia poeta e que lhe dera o apelido. Há uma ponta de maldade nas páginas do livro que revela o mundo interior de Bentinho. Vejamos alguns exemplos: No capítulo LXVII, ao vir do seminário para visitar a mãe doente, pensa que com a mãe defunta, ele estaria livre do voto feito por ela de ter um filho padre; os capítulos que tratam da morte de Manduca (cap. LXXXV a XCII) não deixam dúvidas a respeito da maldade de Bentinho. As reflexões que ele faz são reveladoras desta maldade, do egoísmo, da vaidade e do sentimento de superioridade que lhe são peculiares.

      O ciúme doentio que Bentinho nutre por Capitu leva-o, muitas vezes, a desejar machucá-la, enfiando-lhe as unhas no pescoço até ver-lhe o sangue (Cap. LXXV). Depois de casados, tortura-se nas festas ao notar os olhares que os homens lançam aos belos braços da esposa (em toda sua obra, Machado de Assis deixa claro sua atração pelos braços femininos). Após o nascimento do filho, afirma que chegara a ter ciúmes de tudo e de todos (Cap. CXIII).

       Ao lado de tudo isto, Bentinho sente inveja das astúcias de Capitu. Desde o primeiro beijo (na cena em que lhe penteia os cabelos), inveja a tranquilidade com que ela despistou a mãe. Inveja também os músculos de Escobar, o seu brilho na escola ou em qualquer lugar.

        A crueldade de Bentinho chega ao ponto de tentar matar o filho envenenando-o (Cap. CXXXVII). É com esta mesma crueldade que manda Capitu e o filho para o desterro na Suíça; a indiferença com que recebe Ezequiel de volta, depois da morte de Capitu, anos mais tarde, e com que o vê retornar ao estrangeiro; a crueldade ao se referir às despesas do enterro de Ezequiel, afirmando que “pagaria o triplo para não tornar a vê-lo”. Crueldade que ele mesmo reconhece no último parágrafo do capítulo CXLV, “senti-me tão cruel e perverso”, e que está presente tanto no Bentinho de quinze anos, quanto no Bentinho, homem feito e, possivelmente, no Dom Casmurro, narrador que tenta ludibriar o leitor fazendo com que este acredite na sua versão dos fatos. No entanto, devemos observar que estas são características a que qualquer ser humano está sujeito e que tornam a personagem verossímil. Esta é a ótica de um homem que se deixou envenenar pela própria amargura e no qual o leitor não pode confiar plenamente, pois o seu retrato psicológico, feito por ele mesmo, deixa-nos dúvidas quanto à autenticidade dos fatos por ele narrados. Seria Capitu culpada? Seria Bentinho a vítima ou o agressor? Por isso, o leitor crítico deve estar atento a Bentinho, não só a Capitu. É ele uma personagem tão complexa quanto ela e com a grande vantagem do poder de voz. Esta história seria outra se fosse contada sob o ponto de vista de Capitu ou por um narrador onisciente. Mas como é narrada sob a ótica do Bentinho, já Dom Casmurro, ficamos entre o fascínio e a desconfiança tal é a engenhosidade da narração.

       Bentinho é um dos retratos mais ciumentos da literatura universal depois do Otelo, personagem de Shakespeare.

4- AS ARTIMANHAS DA NARRAÇÃO-Sinuosidade

      sinuosidadeNo capítulo LXXI do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis compara seu estilo ao andar dos ébrios que guinam à besquerda e à direita, andam, param, resmungam, escorregam e caem. É o que podemos chamar de estilo sinuoso, ou seja, não segue uma linha reta de pensamento. Vai dando voltas e voltas para chegar ao ponto almejado. Esta sinuosidade em Dom Casmurro é alcançada através de digressões que se dão das formas mais variadas e que caracterizam o estilo machadiano.

       No romance em estudo, o uso de tantas digressões faz com que a narrativa caminhe lentamente. O narrador tem plena consciência das voltas que dá e, algumas vezes, pede paciência ao leitor, alegando falta de experiência. No entanto, a partir do capítulo XCVIII, passa a correr com a narração. Este capítulo constitui-se numa espécie de resumo de cinco anos de vida desde a saída de Bentinho do seminário até se tornar bacharel em Direito. Tudo o que ocorre de importante nestes anos é contado numa linguagem objetiva sem nenhum detalhe. No capítulo CI, já narra o casamento com Capitu:

                                                       No céu
Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si, morto de esperar, e vá espairecer a outra parte; casemo-nos. Foi em 1865, uma tarde de março, por sinal que chovia… (Cap. CI).

       Daí em diante, o velho Bentinho, ou seja, Dom Casmurro, corre com a narração de forma que no capítulo CIX fala do nascimento de Ezequiel depois de longos anos de espera e leva-o aos cinco anos de idade em poucas linhas.

Ezequiel, quando começou o capítulo anterior, não era gerado; quando acabou era cristão e católico. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos,…(Cap. CIX).

      Os capítulos que se seguem são mais rápidos e versam sobre as desconfianças de Bentinho quanto à paternidade de Ezequiel, a morte de Escobar, a separação de Capitu e o degredo na Suíça. Os acontecimentos são narrados com economia de detalhes e, no capítulo CXLV, narrando o regresso de Ezequiel, surpreende o leitor revelando a morte de Capitu: “A mãe, – creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça”. A rapidez com que narra este fato faz parecer que não tem nenhuma importância e, se o leitor não viesse acompanhando as angústias do narrador, acreditaria na aparente indiferença em relação à morte da mulher amada. Três capítulos adiante encerram o romance.

       É preciso que se diga, no entanto, que o narrador tem plena consciência de que demorou demais, deu voltas e voltas e que é necessário se apressar. Mas, apesar da rapidez que imprime à narração, não dispensa as reflexões, a conversa com o leitor, a ironia, os comentários, as comparações, a intertextualidade. Assim é que, num trabalho metalinguístico, afirma:

Aqui deveria ser o meio do livro, mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase no fim do papel, com o melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta página vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegaremos ao fim (Cap. XCVII).

        Vejamos, então, através de quais artifícios, Machado de Assis consegue a sinuosidade que caracteriza seu estilo.

4.1-INTERPOLAÇÕES / DIGRESSÕES

        Recurso que consiste em deter a narrativa e interpor fatos que, aparentemente, nada têm com os acontecimentos que narra. Este procedimento prolonga a narrativa e aumenta a tensão do leitor. Em Dom Casmurro, isto ocorre com frequência até o capítulo XCVII. No capítulo IX, por exemplo, o narrador, afirmando que “A vida é uma ópera, e uma grande ópera”, tece comparações entre esse espetáculo teatral e musical, que aparece como a “representação alegórica dos conflitos do desejo humano” (Nota do editor) e a vida com seus momentos de altos e baixos, de lutas e disputas. No capítulo X, continuando a digressão, o narrador afirma: “Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quartor” que são trechos da ópera cantados a duas, a três e a quatro vozes. Terminada a leitura do romance, o leitor compreende que com esta afirmação, o narrador estava deixando pistas para o entendimento das relações amorosas que seriam narradas a partir do capítulo mencionado. Compreende também, perfeitamente, a comparação da vida com o teatro, pois “o teatro era uma escola de costumes” (Cap. XVIII).

        As interpolações ou digressões, aparentemente desligadas dos fatos, em Machado de Assis constituem antecipações, indicações do que vem adiante, afinal o mestre nada fala de graça e por isso o seu leitor deve ter malícia e perspicácia.

4.2-METALINGUAGEM

       A metalinguagem ocorre quando o código é posto em destaque, ou seja, volta-as a si mesmo. Dizemos que a função metalinguística ocorre quando a palavra explica a palavra, o poema fala da poesia, o narrador fala da narração. Neste caso, o narrador faz parar a narrativa e explica o seu estilo através de comentários pertinentes. Em toda a obra machadiana, o leitor depara-se com o trabalho consciente do autor no que se refere ao desempenho do narrador que vai orientando a leitura. Entre os muitos exemplos de metalinguagem em Dom Casmurro, veja os capítulos I, II, VIII, XXXI, LV, LXIV, LXVII, LXXX, XCVII, CXXX. Neste último, é preciso observar que a metalinguagem confirma o que foi dito no início deste estudo sobre o narrador que se coloca como escritor e que explica a sinuosidade do seu estilo. Vejamos:

Perdão, mas este capítulo devia ser precedido de outro, em que contasse um incidente, ocorrido poucas semanas antes… podia antepô-lo a este, antes de mandar o livro ao prelo, mas custa muito alterar o número de páginas: vai assim mesmo, depois a narração seguirá direita até o fim. Demais, é curto (Cap. CXXX).

       A metalinguagem é o desnudamento do ato de escrever, escrevendo e, em Machado de Assis, é prova inconteste do seu adiantamento em relação aos seus contemporâneos, ao tempo em que produziu a sua obra.

4.3-CONVERSA COM O LEITOR

       O autor, quando se põe a escrever uma obra, supõe sempre um leitor. É natural, pois, na grande maioria das vezes, escreve para ser lido. O autor pode deixar com que o leitor entre no mundo fictício esquecendo-se da sua presença no manejo da trama. Outras vezes, utiliza-se da voz do narrador para chamar a atenção do leitor, fazendo-o voltar à realidade, orientando-o, conduzindo-o na leitura e até mesmo criticando-o. Nos romances da chamada fase realista de Machado de Assis, este procedimento é muito comum, exceção feita ao Memorial de Aires em que o Conselheiro narrador fala diretamente com o diário, com o papel.

       Entre os inúmeros exemplos em Dom Casmurro, citamos alguns: “Se isto  vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena… (Cap. XXXIII); “Abana a cabeça, leitor.” (Cap. XLV); “leitor das minhas entranhas” (Cap. LXII); “Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista.” (Cap. LXIII); “há leitores tão obtusos que nada entendem, se se lhes não relata tudo e o resto” (Cap. CIX); “a leitora que é minha amiga” (Cap. CXIX); “Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo…” (Cap. CXXXVI).

     Observa-se que, às vezes, o narrador ao se dirigir ao leitor chega a ser meio prepotente.  Outras vezes, é gentil, delicado e estabelece com ele uma espécie de cumplicidade. Mas, é bem verdade que a intenção do autor ao usar este artifício é tirar o leitor do mundo da ficção e trazê-lo à realidade.

4.4-AS ENTRELINHAS

       Machado de Assis fala mais com o que não diz claramente, com aquilo que apenas deixa subentendido. Diz sem dizer. O autor é mestre na arte de insinuar, de deixar que o leitor tire suas próprias conclusões.  Em Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador diz: “as segundas intenções não vêm à tona, mas pressentem-se nas palavras, que as encobrem e todavia, as sugerem.” Esta afirmação aplica-se na composição de seu estilo, uma vez que o autor dá às palavras um duplo sentido e a dúvida aparece deixada pela ambiguidade da linguagem, pelo espaço em branco, pela não palavra, pelo jogo do claro-escuro. No célebre conto, “Missa do galo”, do livro Páginas recolhidas”, aparentemente nada acontece, mas a ambiguidade se instala a partir de um diálogo sem sentido, de longos silêncios, de gestos insinuantes, de palavras reticentes revelando o tumulto interior das duas personagens em cena.

       Em Dom Casmurro, a substância do livro gira em torna da infidelidade de Capitu. “Essa infidelidade excede o conflito moral que os romances exploram no adultério. O livro não tem essa vulgaridade. É uma falha mais radical, uma traição à infância, uma negação da poesia da vida, tanto mais dura, quando se tem a impressão de que tinha que ser assim” (COUTINHO, A.1997 p.166). O adultério não fica confirmado nem desmentido; fica sugerido e cabe ao leitor decidir. Machado de Assis escreve para problematizar, não para deixar inerte o leitor que continua a pensar na obra depois de virada a última página.

4.5-HUMOR / IRONIA / PESSIMISMO

       A atualidade da obra ficcional machadiana funda-se também no pessimismo e no humor, tomados como instrumentos que levam à problematização da vida. Possuindo um sentimento trágico das relações sociais, achava o autor que os homens se batem numa luta sem fim e desordenada, motivada pela intencionalidade da vontade. A existência apresenta-se como um caos e, diante disso, o riso é visto como uma forma de observar e compreender a humanidade.

       O autor, através do narrador ou das personagens, faz crítica clara e direta, mas, na maioria das vezes, é crítica sutil, refinada, à sociedade de seu tempo, enfim, ao ser humano. O humor em Machado é influência das leituras dos escritores ingleses ou americanos, como Edgar Alan Poe e aparece, vez por outra, na voz do próprio autor de forma implícita: “…a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que a patroa saiu, quando a senhora não quer falar a ninguém (Cap. XLVII).

       Em Dom Casmurro, a ironia está personificada na figura de José Dias, o agregado que vive de prestar “favores” para recebê-los de volta. Na construção do retrato psicológico do agregado, fica evidente que o “favor” é um dos elementos básicos das relações sociais no Brasil no decorrer do século XIX, representados na casa de Dona Glória e na vizinhança que aspira a proteção dos ricos. Machado de Assis critica, através de suas personagens, as relações que associam a fé cristã ao capitalismo. Padre Cabral é um exemplo, mas é José Dias a personificação do jogo de interesses. Como quem nada quer, ele aconselha, insinua, opina, convence. Passa de opositor a cúmplice. Usa do poder da oratória, da retórica para se fazer agradar. Seus superlativos são constantes, o que é ironizado pela voz implícita do autor: “Nada mais feio do que dar pernas longuíssimas a ideias curtíssimas!” A única personagem que escapa dessa ironia é Escobar. Ele se distancia desse círculo de relações caracterizadas pelo paternalismo. A ironia em Escobar é outra: ele joga aberto, fala em dinheiro e pratica atividades lucrativas abertamente.

       Machado de Assis mostra, na maioria das vezes, o lado negativo do homem, devido ao seu pessimismo inato. Mas este pessimismo também decorre da observação profunda e constante das relações humanas no cotidiano, nos pequenos atos, gestos, olhares, naquilo que verdadeiramente revela a essência do ser. O autor, por meio de várias situações do dia a dia, analisa suas personagens, mais criticando que elogiando os procedimentos humanos. Retrata, dessa forma, o homem que age segundo suas necessidades internas e, para isso, chega a ser frio e cruel. Por outro lado, faz das personagens, “aos poucos, uma imagem forte, imponente, justificada e polida” (OLIVEIRA, C. 1973) como vemos em Capitu, em Bentinho e nas personagens mais marcantes de toda sua obra.

4.6- INTERTEXTUALIDADE

     A intertextualidade consiste na alusão ou citação de textos de outros autores. Machado de Assis não faz plágio nem imitação, mas não dispensa, sempre que possível, o aproveitamento do texto de outro autor dentro do seu. Este recurso não só comprova o seu nível de leitura como enriquece sua obra. Seus narradores ou personagens encaixam alusões ou citações de textos bíblicos, provérbios, ditos populares, músicos, autores da literatura universal no apoio ou na contradição do que está narrando. Vejamos alguns exemplos de intertextualidade em Dom Casmurro:

 

*bíblia sagrada A Bíblia e os ritos religiosos:
-“terceto do Éden, a ária de Abel” –  referência ao Gênesis (Cap. IX).
-“Dominus, nom sum dignus”  – alusão a um ritual católico da missa (Cap. XI).
-“lição de Elifaz a Jó” – referência ao Livro de Jó no Antigo Testamento (Cap. XVI).
– “a língua mística do Cântico” – Cântico dos Cânticos de Salomão no Antigo Testamento  (Cap. XXX).
– “Ouço a trombeta do Arcanjo” – referência a Asaverus, o judeu errante (Cap. LXXIII).
-“Como Abraão, minha mãe levou o filho”-  referência ao Gênesis – o narrador compara a história de Abraão, que leva o filho ao monte, à promessa que sua mãe em fazê-lo padre (Cap. LXXX).

* Provérbios e ditos populares:
– “longe dos olhos longe do coração” (Cap.CXII).
– “quem o feio ama bonito lhe parece” (Cap.CXXXI).

*Outros autores:

 

– Goethe – romancista alemão introdutor do movimento romântico (Cap. II).

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Willian Shakespeare

-Shakespeare – escritor inglês do Renascimento (Cap. X, LXII, C, CXXXV, CXXXVI).
-Walter Scott – escritor inglês do Romantismo (Cap. XXIII).
-Ariosto –  poeta da Renascença italiana (Cap. XXIX).
-Junqueira Freire – poeta do Romantismo brasileiro (Cap. LIV).

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Johann Goethe

Dante Alighieri – poeta do Renascimento italiano (Cap. XXXII, CXXIX).
-Prévostescritor francês .Citação da personagem Dês Griaux do romance romântico   Manon Lescaut (Cap. XXXIV).
 –Homero  – poeta grego do século IX AC: Ilíada (Cap. LCI, CXXV); Odisseia (Cap.CXVII)
-Montaigne – filósofo francês (Cap.LXVIII).

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José de Alencar

-José de Alencar- prosador romântico brasileiro (Cap. LXXIII).
-Álvares de Azevedo – poeta do Romantismo brasileiro (Cap. LXXIII).
-Richard Wagner- músico alemão (Cap.CI).
-Camões- poeta do Renascimento português (Cap.CV, CXXV).

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Álvares de Azevedo

-Demóstenes – orador ateniense de antes de Cristo (Cap. CVIII).
-Victor Hugo- escritor francês (Cap. CVI).
-Catão, Platão e Plutarco – personagens da Grécia antiga (Cap. CXXXVI).

        Além de todas as anotações feitas acima, Machado mostra um grande conhecimento da mitologia greco-latina, o que se pode confirmar nos capítulos VII, VIII, XXXIII, entre outros, bem como da História do Brasil e Universal. O leitor deve estar atento, pois todo trabalho de intertextualidade é feito pelo autor com uma intenção determinada: confirmar, negar, contradizer, comparar, problematizar, provocar reflexões. Assim é que, ao citar a peça Otelo, de Shakespeare, ao fazer com que Bentinho compare sua situação à de Otelo e a de Capitu à de Desdêmona, faz instaurar uma dúvida cruel e, apesar de levar o leitor a refletir, a questionar e a problematizar, a dúvida permanece, o enigma não se desfaz.

Iago      Outro aspecto a ser observado neste “pormenor” é o nome de Bentinho: Bento Santiago, o que mais uma vez sugere a intertextualidade com Otelo. Na peça de Shakespeare, quem tudo põe a perder é Iago, uma espécie de secretário, agregado de Otelo. O sobrenome de Bento é SantIAGO, contendo em si só o conflito entre o Bem e o Mal, contradição, luta interior que caracterizam não só a personagem, mas o ser humano em geral. Bento é nome de santo, é abençoado, é o Bem, mas, por outro lado, carrega em si o Mal através de “iago”. Neste caso, a intertextualidade é apenas sugerida, como é comum na linguagem machadiana.

4.7- APARÊNCIA / ESSÊNCIA

    Machado de Assis, através da análise psicológica e do estudo das contradições humanas, critica a sociedade hipócrita que, preocupada em manter as aparências, não busca atingir a essência. O autor mostra que, por meio de seu comportamento, o homem deixa entrever sua essência, a sua verdade, como ocorre com José Dias, Bentinho e Capitu durante toda a narrativa. Para manter a aparência de um casamento perfeito, Bentinho prefere mandar Capitu e o filho para a Suíça e nunca mais os vê. Ao citar Montaigne, não deixa dúvidas: “Montaigne escreveu de si: ‘ce ne sont pás mês gestes que j’escris? C’est moi, c’est mom essence.’ Ora, só há um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal” (Cap. LXVIII).

      Na obra machadiana, podemos levantar fatos históricos importantes como a coroação de D. Pedro (Cap. XXXI); costumes de época (Cap.XXX); valores morais, mas o autor é, na verdade, um perquiridor de almas. Desce a fundo na análise e observação do homem, mostra a sociedade de seu tempo, critica-a nos falsos valores, no jogo de interesses, na hipocrisia. Para ele, um grande exemplo dessa hipocrisia é o adultério, pois provoca a destruição dos valores morais e, em consequência, a família. Numa relação adúltera, a manutenção da aparência prevalece em detrimento da essência.

5- O ADULTÉRIO NA OBRA MACHADIANA

      Como dissemos, Machado de Assis foi um grande observador das relações humanas na sociedade burguesa do século XIX, considerada por ele mesmo uma sociedade altamente hipócrita. Para o autor, o adultério é uma das primeiras formas reveladoras dessa hipocrisia e, por isso, é tema constante em  sua obra. Em alguns casos, a traição de uma das partes está explícita como nos contos “A cartomante” em que Rita trai o marido; em “Missa do Galo” já que Meneses tem uma amante; em Memórias póstumas de Brás Cubas em que Virgília é amante de Brás Cubas. Em outros casos e, na maioria deles, o adultério fica apenas sugerido. Como exemplo, podemos citar os contos “Uns braços”, “A senhora Galvão”, “A causa secreta”, “Missa do galo” (em relação a Conceição) em que se estabelece a sugestão de uma atmosfera.  No romance Dom Casmurro, é sob a visão de um narrador em primeira pessoa que se estabelece a dúvida e nada fica comprovado.

      Muito cuidadoso ao tratar das relações amorosas e do sexo, Machado de Assis não cai na sensualidade total ou descritiva. Vai pelos caminhos da sugestão, da imaginação. Dessa forma, o adultério em sua obra não é visto através da descrição de cenas, fica subentendido e aparece mais como uma sugestão de atmosfera. O crítico José Veríssimo afirma:

Era impossível em história de adultério levar mais longe a arte de apenas insinuar, advertir o fato sem jamais indicá-lo. Machado de Assis é com justa dose de sensualismo estético indispensável, um autor decente, não por afetação de moralidade ou por pudicícia, mas em respeito à arte (VERÍSSIMO, J. p.228).

     Ao compor o retrato psicológico de suas personagens, o autor penetra nas suas consciências, embora as deixando livres e autônomas. Não faz descrições detalhadas a não ser a ponto de dar-lhes uma feição viva e isto ele faz objetivamente. Aprofunda-se mais na análise do caráter, observa o comportamento, as atitudes. Dessa forma, a imagem que surge de Capitu é muito parecida com a de Conceição no conto “Missa do galo”.

      Ao compor Conceição em “Missa do galo”, o narrador, que também narra de memória, mostra-a como santa e, ao mesmo tempo, Cleópatra; resignada, passiva, mas dissimulada. Uma mulher que não sabia odiar e que não sabia amar. Conceição é o protótipo de Capitu, embora em Dom Casmurro, Machado torne mais claras e plenas as estruturas já utilizadas no conto referido. Capitu deixa o leitor completamente perplexo. Como definir uma mulher que em menina e adolescente é vista como esperta, capaz de controlar a emoção a ponto de não deixar pistas que a denunciassem, como na cena do primeiro beijo? O que falar dessa mulher e mãe que é vista como adúltera pelo marido, mas que não deixou prova alguma da traição? Capitu era a menina de ideias atrevidas, “olhos de ressaca” ou de “cigana oblíqua e dissimulada”, vaidosa que gostava de ser vista e admirada, mas doce, carinhosa, risonha. Na composição de Capitu, Machado foi mais longe do que tantos outros escritores de seu tempo. Cria o enigma e não o decifra. Atrofia as evidências porque “não acredita nelas ou porque sabe que na face oculta de cada um e de cada gesto mora o enigma, cuja decifração ilumina e edifica quem dele se aproxima. E é para essa face oculta que ele conduz o leitor, deixando-o tão perplexo quanto a ele próprio” (MASSAUD, M. 1971, p.249).

      Em Dom Casmurro, Machado de Assis supera Eça de Queirós em O primo Basílio. Embora os dois romances girem em torno do tema do adultério que leva as heroínas (Capitu e Luisa) a um fim semelhante, percebe-se claramente o adiantamento do escritor brasileiro. O “crime” de Luisa não transcende ao comum, ao banal e é explicado por uma teoria tão simplista quanto científica própria do Realismo da época. O “crime” de Capitu transcende os limites do óbvio, do comum, tal é a carga mítica de que o autor é capaz de dotá-lo. Torna-se um crime que chega a parecer inexistente, fruto apenas de uma mente doentia, loucamente enciumada como a de Bentinho. Portanto, os dois romances, tão parecidos no tema e tão próximos no tempo, estão bastante distanciados no grau de profundidade do mistério. Em Eça de Queirós, logo tudo é descoberto pelo leitor que só precisa seguir o esquema traçado pelo autor, de forma que a evidência torna a leitura “monótona e mecânica”. Em Machado de Assis, o mistério continua vivo. O enigma de Capitu, indecifrável, atravessa os tempos.

6- RESSONÂNCIAS ROMÂNTICAS

       Dom Casmurro insere-se no rol dos chamados romances realistas de Machado de Assis. No entanto, é necessário que sejam observadas as inúmeras referências que o autor, através de Bentinho, faz ao Romantismo, mesmo que seja com uma dose de ironia:

*citação de vários escritores da escola romântica: Walter Scott, Victor Hugo, Goethe, José de Alencar, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Prévost;

*transcrição de versos românticos que teriam sido escritos pelo próprio Bentinho na época do seminário: “Oh! Flor do céu! Flor cândida e pura!”;

*referência a Richard Wagner, músico alemão da época romântica;

*manifestação (irônica)  do desejo de ser um poeta romântico:

Ah! Como eu sinto não ser um poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! (Cap. XLIV).

*interpolação de sonhos e fantasias como uma forma de fuga da realidade e de solução para os problemas;

*a ideia da morte, através do suicídio, como outra forma de evasão e de solução dos seus conflitos;

*a própria construção da personalidade de Bentinho, uma personagem apegada ao passado, remoendo recordações, cultuando o amor da infância e uma visão pessimista da vida;

*referências constantes às peças e personagens de Shakespeare (1564-1616) que, embora seja um escritor da Renascença inglesa, influenciou os escritores, tendo sido sua obra verdadeiramente redescoberta e valorizada durante o Romantismo. A citação recorrente do drama Otelo não deixa dúvidas quanto à semelhança do tema em Dom Casmurro, ou seja, o ciúme levado às últimas consequências. Além do Otelo, são citadas: Mulheres patuscas de Windsor e Macbeth.

       Por estas e outras referências, observamos a importância do movimento romântico e sua influência sobre os escritores que vieram depois desse período. Machado de Assis não constitui exceção, embora sempre com uma ponta de refinada ironia nas suas reflexões e comparações.

7-MACHADO DE ASSIS- DADOS BIOGÁFICOS

Morro do Livramento      Foi numa das ruazinhas pobres (Rua Nova) do Morro do Livramento em que nasceu Joaquim Maria, em 21 de junho de 1839, filho de um pintor de paredes que tinha inclinações ao saber, Francisco de Assis, e de uma lavadeira, portuguesa da Ilha de São Miguel, Maria Leopoldina Machado de Assis.

       Mesmo pobres, os pais eram dados a relações com gente da sociedade por ordem dos ofícios que praticavam. A madrinha, dama da sociedade, dona Maria José de Mendonça Barroso, viúva de um senador, era proprietária de uma rica chácara onde o menino afilhado passara parte da infância. Portanto, cresceu Joaquim Maria entre a humildade de sua casa e a ostentação e conforto da casa da madrinha. Vem daí o pendor, o gosto pela fidalguia que povoaria suas páginas ao longo de sua obra.

          Morta a mãe, o pai casou-se com uma mulata, Maria Inês que, sem filhos, afeiçoou-se maternalmente ao enteado. Foi ela quem o alfabetizou, ensinou-lhe a ler sem saber que estava preparando o maior escritor da literatura brasileira.

        Sempre autodidata, já rapazinho, aproximou-se de Paula Brito, proprietário de um periódico, Marmota Fluminense, onde Joaquim Maria publicou seu primeiro poema, “Ela”, na edição de 11 de janeiro de 1855. Também trabalhou como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Por volta de 1858, já era revisor na tipografia de Paula Brito e no Correio Mercantil e, em seguida, redator no Diário do Rio de Janeiro.

         Como funcionário público, Machado de Assis ocupou postos, sucessivamente, cada vez mais altos. Exerceu a carreira burocrática durante trinta e cinco anos.

Carolina Novaes       Aos trinta anos, em 1869, casou-se com Carolina Augusta de Novais, portuguesa educada e de família de intelectuais, que muito resistiu a esse enlace. Carolina foi uma das responsáveis pela plena realização do escritor, chegando mesmo a escrever o que ele lhe ditava quando esteve mal das vistas.

   Morta a esposa em 1904, Machado caiu em profunda prostração. Imortalizou-a no seu melhor soneto: “A Carolina”. Só conseguiu superar de leve a falta quando retomou a escrita e produziu o Memorial de Aires, publicado em 1908, ano em que faleceu.

        Sua obra, dividida pela crítica em fase romântica e fase realista, compõe-se de verso e prosa. Apesar de não se revelar grande poeta, produziu: na primeira fase: Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas (1875). Na segunda, já apresenta preocupação formal, esmero na linguagem, pessimismo e reflexão filosófica. Ocidentais (1901) é sua última publicação no gênero poético. Ainda em 1901, surge o volume das Poesias completas.

       Na prosa praticou com esmero o conto e o romance.

   Mestre na narrativa curta, no gênero Conto, na primeira fase, publicou Contos fluminenses (1870) e Histórias da meia noite (1873). Na segunda: Papéis avulsos (1882), Histórias sem data (1884), Várias histórias (1896), Páginas recolhidas (1899) e Relíquias da casa velha (1906).

     No romance, também dividido pela crítica em fase romântica e realista, surgem na fase romântica: Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878). A fase realista inicia-se com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), seguindo-se de Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).

    De obra para obra, o espírito do escritor vai chegando a um apuro tal que, da preocupação com o metafísico, o pessimismo, a descrença no homem e nos valores da sociedade, passa a confundir-se com a sabedoria popular. Suas duas últimas obras romanescas revelam um homem apaziguado, menos cético, mais confiante no ser humano e, até certo ponto, melancólico.

      Os últimos momentos de sua vida, passou-os no seu chalé no Cosme Velho, rodeado de amigos, vindo a falecer no dia 29 de setembro de 1908.

CONCLUSÃO

       A leitura e a análise de Dom Casmurro só nos levam à confirmação de que Machado de Assis é, sem dúvida, o maior expoente da nossa literatura, seja na arte de compor suas personagens, na forma de trabalhar o enredo, na sugestão de uma atmosfera, na análise perspicaz da sociedade do seu tempo.

       Ao escolher o foco narrativo em primeira pessoa, faz de Bentinho o narrador de sua própria história, buscando-a na memória quando já velho e casmurro. Desta forma, estabelece uma distância temporal entre o vivido e o relato. O narrador, Dom Casmurro recorda o seu passado como Bentinho como se o vivesse pela primeira vez, o que pode ser observado pelo caráter emotivo que a linguagem assume em muitos pontos da narração. Relembrando, o narrador revive as sensações e emoções e julga os fatos protegido pela distância no tempo. Como narrador, ele se vê como personagem de uma história em que a mente torturada pelo ciúme faz desencadear um final trágico, mas sem desvendar o enigma do romance.

       Buscando os fatos na memória, Bentinho coloca-se no presente, revivendo o passado. Assim, estabelece o tempo psicológico do romance uma vez que os acontecimentos não vêm numa linha cronológica de começo, meio e fim, mas em quadros justapostos e não sequenciados. As cenas vão sendo narradas conforme chegam à lembrança do narrador-personagem e não propriamente como elas aconteceram. Por isso, o narrador faz afirmações parecidas com “este capítulo devia ser precedido de outro” ou títulos como “anterior ao anterior”. Desta forma, instaura-se a sinuosidade do estilo reforçada pelos outros recursos utilizados pelo autor como as digressões, a conversa com o leitor, a metalinguagem, a intertextualidade.

   Tematizando o adultério, o autor sonda as personagens, traduzindo perspicaz compreensão da natureza humana, do comportamento sempre duvidoso, nunca totalmente desvendado. O autor demora-se no mergulho e na exploração do mistério do homem. Foi chamado de “bruxo” por Carlos Drummond de Andrade devido à penetração psicológica, à magia verbal, à galeria de personagens densas, complexas, problemáticas de que fazem parte Bentinho e Capitu.

      Bentinho, “ao relembrar os episódios de sua vida, o faz com a consciência de escritor” (LUCAS, F. 1990) e, assim, demonstra o desejo de publicar o livro. Além do mais, o trabalho metalinguístico, próprio do estilo do autor, é digno de nota em Dom Casmurro.

  Afastando-se dos modismos da época, Machado cria um estilo particular, universalizante, único, fazendo do fundador da Academia Brasileira de Letras, o mestre da nossa literatura.

REFERÊNCIAS

  1. ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Abril, 1978.
  2. ______. Dom Casmurro. São Paulo: Ática ,1990.
  3. ______. Quincas Borba. São Paulo:  Moderna, 1992.
  4. ______. Os melhores contos de Machado de Assis. São Paulo: Global, 1986.
  5. ______. Ressurreição. São Paulo:  Ática, 1998.
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